Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador negociada. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador negociada. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Legitimação Social

Entre o Cotidiano e a Ordem Invisível

É curioso como certas coisas que fazemos só ganham peso quando os outros reconhecem. Imagine alguém que passa anos escrevendo num caderno escondido na gaveta: aquilo é literatura ou apenas rascunho? No momento em que um grupo lê, aplaude e publica, a mesma escrita passa a carregar outro status. A vida cotidiana está cheia desses rituais de legitimação: o diploma que atesta conhecimento, o crachá que autoriza a entrada, o “like” que transforma uma frase em opinião relevante. Quase sempre, o valor não está apenas no ato em si, mas no selo social que o acompanha.

A legitimação social é, nesse sentido, a cola invisível que mantém de pé tanto instituições quanto biografias pessoais. Sem ela, leis seriam apenas palavras frias no papel, e carreiras não passariam de tentativas solitárias. Essa necessidade de reconhecimento se esconde em gestos pequenos — como pedir opinião a amigos antes de mudar o corte de cabelo — e em processos grandes — como governos que precisam justificar decisões diante do povo.

Do ponto de vista filosófico e sociológico, legitimar é mais do que aceitar; é transformar em realidade o que poderia ser apenas tentativa. Max Weber lembrava que toda dominação precisa de um tipo de legitimação: seja pela tradição, pelo carisma ou pela legalidade racional. Em outras palavras, não basta exercer poder, é preciso que ele seja reconhecido como válido. Do contrário, ele se desmancha.

Peter Berger e Thomas Luckmann, em A Construção Social da Realidade, foram além: mostraram que o mundo social é tecido por processos de institucionalização e legitimação. Não vivemos apenas numa ordem biológica, mas numa ordem simbólica que precisa ser constantemente reafirmada. A família, a escola, o trabalho, a religião — todos exigem narrativas e rituais que sustentem sua validade. Sem legitimação, até os laços mais íntimos se tornam frágeis.

Um exemplo claro, no contexto brasileiro, é a legitimação social que acompanha o título universitário. Muitos jovens que concluem uma graduação percebem que o aprendizado em si, embora valioso, só adquire “peso real” quando estampado no diploma. Esse papel timbrado se torna uma espécie de passaporte simbólico, abrindo portas no mercado de trabalho e legitimando competências que, por vezes, já estavam presentes antes. Um engenheiro autodidata pode construir, calcular e projetar, mas só quando o Estado e a sociedade reconhecem formalmente seu saber é que ele passa a ser aceito como profissional legítimo. Essa dinâmica não se limita às profissões regulamentadas: no Brasil, até mesmo na música, vemos artistas de periferia que só ganham espaço em grandes palcos depois de serem legitimados pela mídia ou por instituições culturais, embora seu talento já estivesse vivo e pulsante nas rodas de bairro.

Mas há um detalhe inovador que merece destaque: a legitimação não é mais monopólio das instituições clássicas. No mundo contemporâneo, ela se pulverizou nas redes digitais, onde milhares de microtribos definem o que é “válido” ou “aceitável”. Não se trata mais de buscar aprovação apenas do Estado, da Igreja ou da Academia; agora, a legitimação circula em comunidades efêmeras, hashtags e algoritmos que distribuem relevância. Isso gera uma mudança estrutural: a ordem social não é mais vertical, mas rizomática, múltipla e, muitas vezes, contraditória.

Assim, a legitimação social é ao mesmo tempo um processo de reconhecimento coletivo e um campo de disputas invisíveis. Quando dizemos “isso é certo”, “isso é arte” ou “isso é verdade”, estamos sempre mobilizando instâncias de legitimação. O grande paradoxo é que, embora ela seja necessária para a vida em comum, carrega também o risco de aprisionar a singularidade: quem não se encaixa nos critérios de legitimação social fica à margem, relegado ao silêncio ou ao rótulo de desvio.

No fundo, a questão que fica é: precisamos ser legitimados para existir plenamente? Ou seria possível inventar uma forma de vida que resista à constante necessidade de reconhecimento externo? Talvez a verdadeira inovação filosófica esteja em perceber que a legitimação é inevitável, mas não absoluta — ela pode ser negociada, subvertida e reinventada no cotidiano.