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sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Sentir nos Ossos

Quando a Percepção se Torna Matéria

Há experiências que não passam pela lógica, pela evidência ou pela palavra. Elas se infiltram no corpo, como um frio que não está no ar, mas no osso — um saber que não vem dos livros, mas de uma espécie de memória mineral. “Sentir nos ossos” é mais do que uma metáfora; é a sensação de que algo é tão verdadeiro que atravessa carne, pele e pensamento.

O jurista, brasileiro Fábio Konder Comparato, ao tratar da experiência humana para além da racionalidade estrita, lembra que certos saberes são “pré-discursivos”, ou seja, percebidos antes que possamos formulá-los. É como se o corpo tivesse sensores ancestrais capazes de pressentir o que a mente ainda não elaborou.

No cotidiano, isso aparece nas pequenas antecipações: uma mãe que, sem saber por quê, acorda no meio da noite e descobre que o filho está doente; um pescador que sente que “hoje o mar não está para peixe”, mesmo com o céu limpo; alguém que entra numa sala e, antes de qualquer palavra, sabe que houve uma discussão ali.

Esse sentir profundo também carrega o peso das lembranças que se inscrevem fisicamente. Cicatrizes que doem quando muda o tempo, dores antigas que reaparecem em dias de tristeza, a postura que se fecha quando a vida pede defesa. O corpo é arquivo e oráculo.

Comparato talvez diria que “sentir nos ossos” é um modo de nos lembrar de que somos, antes de tudo, matéria viva — e que a inteligência não está apenas na mente, mas distribuída por toda a nossa estrutura. Nesse sentido, confiar nesse sentir não é superstição, mas reconhecer a sabedoria incorporada que milênios de experiência gravaram em nós.

O risco, porém, é esquecer que nem todo pressentimento é verdade. O frio nos ossos pode vir de dentro, de medos antigos, e não do mundo lá fora. A sabedoria está em saber discernir entre o eco do passado e o aviso do presente.

Talvez, no fim, “sentir nos ossos” seja como carregar um sismógrafo interno — que às vezes registra tremores distantes e outras vezes inventa terremotos. Cabe a nós aprender a ler esse mapa invisível.


quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Legitimação Social

Entre o Cotidiano e a Ordem Invisível

É curioso como certas coisas que fazemos só ganham peso quando os outros reconhecem. Imagine alguém que passa anos escrevendo num caderno escondido na gaveta: aquilo é literatura ou apenas rascunho? No momento em que um grupo lê, aplaude e publica, a mesma escrita passa a carregar outro status. A vida cotidiana está cheia desses rituais de legitimação: o diploma que atesta conhecimento, o crachá que autoriza a entrada, o “like” que transforma uma frase em opinião relevante. Quase sempre, o valor não está apenas no ato em si, mas no selo social que o acompanha.

A legitimação social é, nesse sentido, a cola invisível que mantém de pé tanto instituições quanto biografias pessoais. Sem ela, leis seriam apenas palavras frias no papel, e carreiras não passariam de tentativas solitárias. Essa necessidade de reconhecimento se esconde em gestos pequenos — como pedir opinião a amigos antes de mudar o corte de cabelo — e em processos grandes — como governos que precisam justificar decisões diante do povo.

Do ponto de vista filosófico e sociológico, legitimar é mais do que aceitar; é transformar em realidade o que poderia ser apenas tentativa. Max Weber lembrava que toda dominação precisa de um tipo de legitimação: seja pela tradição, pelo carisma ou pela legalidade racional. Em outras palavras, não basta exercer poder, é preciso que ele seja reconhecido como válido. Do contrário, ele se desmancha.

Peter Berger e Thomas Luckmann, em A Construção Social da Realidade, foram além: mostraram que o mundo social é tecido por processos de institucionalização e legitimação. Não vivemos apenas numa ordem biológica, mas numa ordem simbólica que precisa ser constantemente reafirmada. A família, a escola, o trabalho, a religião — todos exigem narrativas e rituais que sustentem sua validade. Sem legitimação, até os laços mais íntimos se tornam frágeis.

Um exemplo claro, no contexto brasileiro, é a legitimação social que acompanha o título universitário. Muitos jovens que concluem uma graduação percebem que o aprendizado em si, embora valioso, só adquire “peso real” quando estampado no diploma. Esse papel timbrado se torna uma espécie de passaporte simbólico, abrindo portas no mercado de trabalho e legitimando competências que, por vezes, já estavam presentes antes. Um engenheiro autodidata pode construir, calcular e projetar, mas só quando o Estado e a sociedade reconhecem formalmente seu saber é que ele passa a ser aceito como profissional legítimo. Essa dinâmica não se limita às profissões regulamentadas: no Brasil, até mesmo na música, vemos artistas de periferia que só ganham espaço em grandes palcos depois de serem legitimados pela mídia ou por instituições culturais, embora seu talento já estivesse vivo e pulsante nas rodas de bairro.

Mas há um detalhe inovador que merece destaque: a legitimação não é mais monopólio das instituições clássicas. No mundo contemporâneo, ela se pulverizou nas redes digitais, onde milhares de microtribos definem o que é “válido” ou “aceitável”. Não se trata mais de buscar aprovação apenas do Estado, da Igreja ou da Academia; agora, a legitimação circula em comunidades efêmeras, hashtags e algoritmos que distribuem relevância. Isso gera uma mudança estrutural: a ordem social não é mais vertical, mas rizomática, múltipla e, muitas vezes, contraditória.

Assim, a legitimação social é ao mesmo tempo um processo de reconhecimento coletivo e um campo de disputas invisíveis. Quando dizemos “isso é certo”, “isso é arte” ou “isso é verdade”, estamos sempre mobilizando instâncias de legitimação. O grande paradoxo é que, embora ela seja necessária para a vida em comum, carrega também o risco de aprisionar a singularidade: quem não se encaixa nos critérios de legitimação social fica à margem, relegado ao silêncio ou ao rótulo de desvio.

No fundo, a questão que fica é: precisamos ser legitimados para existir plenamente? Ou seria possível inventar uma forma de vida que resista à constante necessidade de reconhecimento externo? Talvez a verdadeira inovação filosófica esteja em perceber que a legitimação é inevitável, mas não absoluta — ela pode ser negociada, subvertida e reinventada no cotidiano.


quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Matemática e Misticismo

Quando o cálculo encontra o invisível

Às vezes parece que vivemos em dois mundos separados: de um lado, a objetividade fria dos números, das contas do banco, das planilhas intermináveis; do outro, a subjetividade quente das crenças, dos rituais, das intuições. Mas basta observar mais de perto para ver que esses mundos se encontram o tempo todo. A matemática e o misticismo, que à primeira vista parecem opostos, sempre caminharam lado a lado.

Pense, por exemplo, na numerologia: ainda hoje muita gente acredita que a data de nascimento ou o número de uma casa pode dizer algo sobre a vida de uma pessoa. Ou nos signos e na astrologia, que calculam posições de astros em frações de graus. Até a superstição popular vive disso: o número treze, a escada com sete degraus, a sorte do par ou do ímpar. O curioso é que, mesmo quem não se considera “místico”, busca padrões secretos nos números: a senha do celular, a placa do carro, a coincidência de aniversários. Parece que temos necessidade de acreditar que há mais do que simples cálculo.

Esse impulso tem raízes antigas. Pitágoras, no século VI a.C., não via contradição entre matemática e espiritualidade. Para ele, o número era a própria estrutura do cosmos, princípio que organizava tanto o movimento dos astros quanto a vida dos homens. Descobrir que os sons musicais obedeciam a proporções numéricas não era só ciência: era uma revelação de que a ordem divina se escondia por trás daquilo que chamamos de beleza. Quando os pitagóricos desenhavam a tétraktis — triângulo formado pela soma dos quatro primeiros números (1+2+3+4=10) — não estavam apenas fazendo geometria, mas venerando o símbolo da perfeição.

Talvez seja isso que nos seduz até hoje. A matemática nos mostra a precisão, mas também nos sugere mistério. Cada número parece esconder uma qualidade invisível. O três dá sensação de completude, o sete é tido como número sagrado em várias culturas, o doze organiza o tempo em meses e horas. No fundo, não aceitamos que os números sejam apenas ferramentas neutras: precisamos acreditar que eles também falam de destino, de ordem secreta, de algo maior do que nós.

No cotidiano, esse encontro aparece nos detalhes mais banais. Quando alguém escolhe o andar do prédio para morar, evita certas datas para decisões importantes ou repete rituais com base em contagens (“vou respirar dez vezes antes da reunião”), está praticando uma forma moderna de pitagorismo. A lógica e o misticismo convivem sem conflito: usamos o cartão de crédito para pagar a conta exata, e depois, ao ver que a soma da fatura termina em “7”, achamos que pode ser um sinal de sorte.

Pitágoras talvez sorrisse diante disso. Para ele, os números nunca foram apenas sinais no quadro-negro, mas janelas para a harmonia do universo. Se ainda hoje vemos nos cálculos a possibilidade de um enigma espiritual, é porque continuamos, sem querer, pitagóricos. Vivemos entre a conta do banco e o oráculo, entre a exatidão e o presságio. E nesse espaço ambíguo, entre matemática e misticismo, seguimos tentando decifrar o que os números querem nos dizer.


quarta-feira, 16 de julho de 2025

O Teatro Invisível

Triângulo de Karpman

Às vezes a gente sai de uma conversa se sentindo esvaziado, irritado ou com uma estranha sensação de que entrou num enredo que não era bem nosso. Parece que, sem perceber, caímos numa peça de teatro que já estava em cartaz há tempos — e tomamos um papel que alguém esperava que assumíssemos. Nesse palco silencioso, três personagens dominam o roteiro: a Vítima, o Salvador e o Perseguidor. É o Triângulo de Karpman — e quase todo mundo já atuou nele, mesmo sem saber.

Essa estrutura, apesar de parecer só mais uma teoria psicológica, revela um drama humano profundo: nossa dificuldade em nos relacionarmos de forma autêntica, sem manipulação, sem culpa, sem dependência. E, talvez, sem medo.

 

Psicologia: jogos que sustentam vínculos doentios

Stephen Karpman, discípulo da Análise Transacional, percebeu que muitos conflitos emocionais seguem um padrão repetitivo. Um jogo psicológico em que ninguém realmente vence, mas todos têm uma função simbólica: a Vítima, que atrai atenção; o Salvador, que busca reconhecimento através da ajuda; e o Perseguidor, que tenta impor controle.

Do ponto de vista psicológico, o triângulo não é só uma descrição de comportamentos, mas uma armadilha de identidade. A pessoa se agarra ao papel para se sentir alguém — mesmo que isso custe paz, liberdade ou crescimento. A Vítima sente que só existe se estiver sofrendo. O Salvador teme não ser amado se não estiver sendo útil. O Perseguidor teme a vulnerabilidade e, por isso, ataca primeiro.

Todos os papéis nascem de uma falta não resolvida. E cada um deles alimenta o outro, numa espécie de coreografia emocional tóxica. O que parece ajuda, amor ou justiça, muitas vezes é só medo de ficar só, de não ter valor ou de perder o controle.

Imagine uma situação em que uma pessoa, durante muito tempo, ofereceu apoio constante a um amigo em dificuldades — ajudava financeiramente, ouvia seus desabafos, resolvia problemas práticos. Esse amigo, acomodado no papel de quem sempre recebe, acaba se acostumando com a presença salvadora. No momento em que o apoio é retirado — seja por cansaço, necessidade de cuidar de si ou percepção de que a ajuda alimentava a dependência —, a relação muda bruscamente: o amigo que antes era grato se transforma, agora magoado, sentindo-se traído e abandonado. Passa a criticar quem o ajudava, chamando-o de egoísta ou ingrato, num movimento típico do Triângulo de Karpman, em que o papel de vítima se converte em perseguidor, revelando que o laço não era de verdadeira cooperação, mas de dependência emocional disfarçada de cuidado.

Exemplificando: Maria e o Papel do Estado

Maria passava as tardes sentada na varanda, olhando os galhos balançarem ao vento como quem esperava uma resposta. Depois que a mãe faleceu, tudo pareceu silenciar ao redor: os vizinhos passaram a acenar de longe, as contas começaram a se empilhar no canto da mesa e os dias se tornaram longos demais para quem não sabia mais onde cabia no mundo.

João, seu velho amigo da época do cursinho de datilografia (faz um tempão, né?), começou a ajudar. Primeiro com as compras do mês, depois com os remédios, depois ouvindo as histórias repetidas sobre a infância de Maria, quando ainda existia futuro. Mas o tempo foi passando, e João começou a se sentir preso àquela rotina de salvamento. Não dava conta da própria vida, quanto mais da de Maria. Quando começou a se afastar, Maria não entendeu. Achou que ele havia mudado, que a amizade era fraca, que estava sendo abandonada de novo.

O que nem Maria nem João sabiam — ou talvez soubessem, mas não tivessem forças para enfrentar — era que o que Maria precisava não era de um salvador, mas de acesso àquilo que era seu por direito. João não deveria ter se tornado o Estado na vida dela.

Foi só quando uma vizinha teimosa a levou até o CRAS que Maria descobriu que havia serviços ali esperando por ela: uma assistente social que a ouviu sem pressa, um encaminhamento para o CAPS, e até a possibilidade de voltar a estudar algo simples, só pra começar. Ali, Maria percebeu que ajuda não precisa vir de uma única pessoa até se esgotar — ela pode vir de uma rede, de uma política pública, de uma estrutura pensada para que ninguém afunde sozinho.

João, agora, toma café com ela às vezes. E quando ele não aparece, tudo bem. Porque Maria reencontrou algo que há muito tinha perdido: o próprio chão.

 

Filosofia: o outro como limite da liberdade

Se trouxermos um olhar filosófico, especialmente influenciado por autores como Jean-Paul Sartre e Martin Buber, percebemos que o Triângulo de Karpman denuncia uma ausência de encontro genuíno entre sujeitos. Em vez de nos relacionarmos com o outro como um "Tu" (como propõe Buber), nos relacionamos com funções: o outro é um meio para a confirmação do meu papel.

Sartre dizia que "o inferno são os outros" — não por serem maus, mas porque, ao me olharem, me reduzem a um personagem. No Triângulo de Karpman, eu não encontro o outro: eu uso o outro. Ele me serve para sustentar minha narrativa, para confirmar minha dor, minha moral ou minha virtude.

Nesse sentido, a libertação passa por um reconhecimento de si mesmo como sujeito — e do outro como outro sujeito. Sem papéis, sem jogos. Só assim podemos sair do triângulo e construir relações onde não há culpa por ser, nem obrigação por amar.

 

Sair do jogo é crescer

O Triângulo de Karpman é um mapa para entender os lugares onde nos perdemos emocionalmente. Sair dele não significa abandonar os outros, mas parar de usar as relações como forma de preencher o que não conseguimos olhar em nós mesmos.

Requer coragem para deixar de ser a vítima e assumir responsabilidades. Requer humildade para deixar de ser o salvador e permitir que o outro cresça sozinho. Requer sensibilidade para deixar de ser o perseguidor e acolher nossas próprias dores.

Mais do que um modelo psicológico, o triângulo é um espelho. E a filosofia nos convida a quebrar esse espelho — não para vivermos sem reflexo, mas para enxergarmos, enfim, de forma direta e sem distorções, o outro e a nós mesmos. 

domingo, 1 de junho de 2025

Superstição e Crença

 

Quando bater na madeira é mais do que um gesto...

Tem gente que nem acredita em nada, mas bate na madeira do mesmo jeito. Só por via das dúvidas. É como se dissesse: “vai que, né?”. No fundo, ninguém quer brincar com o destino, mesmo quando jura que o destino não existe.

No dia a dia, superstição e crença andam lado a lado, tropeçando uma na outra feito gente numa calçada estreita. Uma é aquela velha senhora que leva um galhinho de arruda atrás da orelha. A outra, um jovem de óculos de realidade aumentada que acredita em inteligência artificial como oráculo. Ambas, no fim das contas, estão tentando responder à mesma coisa: como viver num mundo que não se explica todo?

Entre o invisível e o improvável

Superstições são gestos herdados, fragmentos de um saber que não passou pelo crivo da ciência, mas que sobreviveu ao tempo. Elas não prometem verdades, mas oferecem alívio. Já a crença é mais estrutural — é como uma casa onde o sujeito se abriga. Pode ter teto de religião, parede de filosofia, ou chão de misticismo. Às vezes, é uma cabana improvisada; às vezes, uma catedral inteira.

A religião oferece um Deus, um plano, um sentido maior. O misticismo não se preocupa tanto com dogmas, mas com vibrações, energias, ciclos. A fé, por sua vez, pode existir sem nome nem endereço fixo: acreditar que vai dar certo, que existe algo além, que o amor cura — isso já é fé.

E a ciência popular? É aquele remédio de vó que funciona “porque sempre funcionou”, mesmo que nenhum estudo comprove. É o chá de boldo, a canja para gripe, o sabugo de milho para dor de ouvido. Não está nos livros, mas está na boca do povo — e na prática de quem quer sobreviver com o que tem.

A inovação está na pergunta, não na resposta

A filosofia tradicional sempre quis separar razão e crença. Mas e se a gente inovar e perguntar: e se toda crença, superstição ou ciência for apenas formas diferentes de lidar com a ignorância? E se bater na madeira, fazer um gráfico, acender uma vela ou consultar um oráculo forem variações de um mesmo gesto humano — o de procurar sentido onde o mundo parece mudo?

O filósofo Ernst Cassirer dizia que o ser humano é antes de tudo um animal simbólico — a gente não vive só de fatos, vive de significados. O que a superstição e a crença revelam não é ignorância, mas sensibilidade. É a percepção de que há uma camada do real que escapa às fórmulas, mas não escapa ao sentimento.

No fim, acreditar é um ato de imaginação. E talvez seja esse o maior poder humano: preencher com histórias, gestos, rituais e afetos aquilo que a lógica não explica por completo. Afinal, nem tudo que é real precisa ser comprovado; basta ser vivido.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Clima de Opinião

Uma Reflexão Filosófica Inspirada em W. H. Auden

Wystan Hugh Auden, poeta britânico do século XX, capturou em sua obra a complexidade da experiência humana frente ao contexto histórico, social e político. Um de seus conceitos que desperta interesse é o "clima de opinião," expressão que sintetiza as forças invisíveis que moldam nossas perspectivas coletivas e individuais. Como o ar que respiramos, este clima permeia nossas vidas, determinando o que parece razoável ou absurdo, aceitável ou transgressor.

Mas o que exatamente é o "clima de opinião"? E como ele afeta a nossa maneira de ser e agir?

O Invisível que Constrói o Real

Auden usava o termo para se referir ao conjunto de ideias, crenças e sentimentos que pairam no espírito de uma época. Não se trata apenas de uma opinião individual ou isolada, mas de um consenso tácito que configura o pano de fundo de nossas decisões cotidianas. Tal clima pode ser tão envolvente que sequer nos damos conta de sua presença — como peixes que não percebem a água em que nadam.

Pense, por exemplo, na aceitação quase automática de certos hábitos de consumo: a necessidade de um smartphone de última geração, o ritmo acelerado do trabalho ou mesmo os padrões de beleza promovidos pelas redes sociais. Cada um desses elementos parece natural em nosso tempo, mas são, na verdade, manifestações do "clima de opinião."

A Filosofia no Vento da Mudança

O filósofo francês Michel Foucault oferece uma perspectiva complementar ao de Auden, analisando como discursos moldam o que consideramos verdadeiro ou falso. Para Foucault, o clima de opinião não é neutro; ele é carregado de relações de poder. O que prevalece em uma época como "verdade" muitas vezes serve para legitimar certas práticas e marginalizar outras.

Um exemplo histórico claro está na transição das ideias sobre saúde mental. Durante o século XIX, práticas como a lobotomia eram consideradas aceitáveis porque estavam inseridas no clima de opinião da época, que naturalizava a objetificação do paciente. Hoje, esse tipo de intervenção seria visto como um absurdo.

Do Pessoal ao Coletivo: Situações do Cotidiano

No dia a dia, o clima de opinião aparece de maneiras sutis, mas impactantes. Imagine-se em uma roda de amigos onde todos comentam sobre a última série da moda. A pressão para estar atualizado, ainda que silenciosa, reflete como o clima molda até mesmo nossos lazeres. Ou então, em situações de trabalho, quando alguém questiona as metas inalcançáveis da empresa, frequentemente é silenciado pelo "é assim que as coisas são."

Mesmo decisões aparentemente triviais, como o que vestir, podem ser influenciadas por esse ambiente compartilhado. Por que calças rasgadas eram consideradas rebeldes nos anos 90 e hoje são um item mainstream? A resposta está no vento cultural que sopra e ressoa em nossas escolhas.

Reflexão e Resistência

Mas será possível resistir ao clima de opinião? Auden não parecia acreditar na possibilidade de escapar completamente, mas nos alertava para a importância de refletir criticamente sobre o ar que respiramos. Ao nos tornarmos conscientes dos ventos que nos cercam, podemos pelo menos escolher como navegar.

A filósofa brasileira Marilena Chaui também enfatiza a necessidade de desnaturalizar o que nos é apresentado como óbvio. Segundo ela, "a ideologia opera fazendo com que o social pareça natural." Assim, cabe a cada um de nós cultivar uma atitude crítica que desafie os consensos estabelecidos.

O clima de opinião é, ao mesmo tempo, uma força formadora e uma armadilha. Ele nos conecta ao espírito de nosso tempo, mas também limita nossa visão do que é possível. Inspirados por Auden, devemos aprender a perceber o invisível, questionar o inquestionável e, acima de tudo, lembrar que o vento das ideias pode mudar — e nós, como navegantes, temos o poder de ajustar nossas velas.

Que tipo de clima queremos respirar amanhã? Essa é a questão que Auden, e tantos outros pensadores, nos convidam a enfrentar. A Filosofia está ai para nos ajudar a refletir.