Entre o Cotidiano e a Ordem Invisível
É
curioso como certas coisas que fazemos só ganham peso quando os outros
reconhecem. Imagine alguém que passa anos escrevendo num caderno escondido na
gaveta: aquilo é literatura ou apenas rascunho? No momento em que um grupo lê,
aplaude e publica, a mesma escrita passa a carregar outro status. A vida
cotidiana está cheia desses rituais de legitimação: o diploma que atesta
conhecimento, o crachá que autoriza a entrada, o “like” que transforma uma
frase em opinião relevante. Quase sempre, o valor não está apenas no ato em si,
mas no selo social que o acompanha.
A
legitimação social é, nesse sentido, a cola invisível que mantém de pé
tanto instituições quanto biografias pessoais. Sem ela, leis seriam apenas
palavras frias no papel, e carreiras não passariam de tentativas solitárias.
Essa necessidade de reconhecimento se esconde em gestos pequenos — como pedir
opinião a amigos antes de mudar o corte de cabelo — e em processos grandes —
como governos que precisam justificar decisões diante do povo.
Do
ponto de vista filosófico e sociológico, legitimar é mais do que aceitar; é
transformar em realidade o que poderia ser apenas tentativa. Max Weber
lembrava que toda dominação precisa de um tipo de legitimação: seja pela
tradição, pelo carisma ou pela legalidade racional. Em outras palavras, não
basta exercer poder, é preciso que ele seja reconhecido como válido. Do
contrário, ele se desmancha.
Peter
Berger e Thomas Luckmann, em A Construção Social
da Realidade, foram além: mostraram que o mundo social é tecido por
processos de institucionalização e legitimação. Não vivemos apenas numa ordem
biológica, mas numa ordem simbólica que precisa ser constantemente reafirmada.
A família, a escola, o trabalho, a religião — todos exigem narrativas e rituais
que sustentem sua validade. Sem legitimação, até os laços mais íntimos se
tornam frágeis.
Um
exemplo claro, no contexto brasileiro, é a legitimação social que acompanha o título
universitário. Muitos jovens que concluem uma graduação percebem que o
aprendizado em si, embora valioso, só adquire “peso real” quando estampado no
diploma. Esse papel timbrado se torna uma espécie de passaporte simbólico,
abrindo portas no mercado de trabalho e legitimando competências que, por
vezes, já estavam presentes antes. Um engenheiro autodidata pode construir,
calcular e projetar, mas só quando o Estado e a sociedade reconhecem
formalmente seu saber é que ele passa a ser aceito como profissional legítimo.
Essa dinâmica não se limita às profissões regulamentadas: no Brasil, até mesmo
na música, vemos artistas de periferia que só ganham espaço em grandes palcos
depois de serem legitimados pela mídia ou por instituições culturais, embora
seu talento já estivesse vivo e pulsante nas rodas de bairro.
Mas
há um detalhe inovador que merece destaque: a legitimação não é mais
monopólio das instituições clássicas. No mundo contemporâneo, ela se
pulverizou nas redes digitais, onde milhares de microtribos definem o que é
“válido” ou “aceitável”. Não se trata mais de buscar aprovação apenas do
Estado, da Igreja ou da Academia; agora, a legitimação circula em comunidades
efêmeras, hashtags e algoritmos que distribuem relevância. Isso gera uma
mudança estrutural: a ordem social não é mais vertical, mas rizomática,
múltipla e, muitas vezes, contraditória.
Assim,
a legitimação social é ao mesmo tempo um processo de reconhecimento coletivo
e um campo de disputas invisíveis. Quando dizemos “isso é certo”, “isso
é arte” ou “isso é verdade”, estamos sempre mobilizando instâncias de
legitimação. O grande paradoxo é que, embora ela seja necessária para a vida em
comum, carrega também o risco de aprisionar a singularidade: quem não se
encaixa nos critérios de legitimação social fica à margem, relegado ao silêncio
ou ao rótulo de desvio.
No
fundo, a questão que fica é: precisamos ser legitimados para existir
plenamente? Ou seria possível inventar uma forma de vida que resista à
constante necessidade de reconhecimento externo? Talvez a verdadeira inovação
filosófica esteja em perceber que a legitimação é inevitável, mas não
absoluta — ela pode ser negociada, subvertida e reinventada no cotidiano.
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