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segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Passos Constantes

Vou falar sobre persistência, repetição e transformação

 

Tem dias em que parece que nada acontece. Acordamos, fazemos o café, respondemos mensagens, voltamos ao trabalho — e o mundo continua igual. Mas, se olharmos de perto, veremos que o chão sob nossos pés já não é o mesmo. Mesmo o passo repetido sobre a calçada de sempre carrega algo de diferente, mesmo que sutil: uma sensação nova, um pensamento que brota, uma dor que antes não existia. É sobre isso que vou falar aqui — sobre os passos constantes, essas batidas ritmadas que desenham nossa vida sem alarde, mas com profundidade. Então, por que não retornar a este tema como alguém que também observa o passar do tempo, e cada vez que escreve alguma coisa que já escreveu, sinto que muda e/ou já mudou como teria dito Heráclito.

 

A Constância como Ato Filosófico

A modernidade nos ensinou a valorizar a mudança brusca, a inovação disruptiva, os saltos que transformam tudo da noite para o dia. No entanto, há uma filosofia silenciosa que emerge do que permanece. Não do que estagna, mas do que insiste. O passo constante, nesse sentido, não é um hábito automático, mas uma postura de resistência e maturação.

Nietzsche dizia que nos tornamos quem somos através de longas repetições — e não por rupturas. Para ele, o “eterno retorno” não é punição, mas oportunidade: repetir não é apenas repetir, é reencontrar a si mesmo sob novas luzes.

 

Exemplos Cotidianos: Onde Moram os Passos Constantes

1. A mãe que repete gestos silenciosos

Ela acorda antes de todos, prepara o café, organiza a lancheira, põe o uniforme na cadeira. Ninguém vê esse roteiro como algo heroico, mas é nele que se constrói o vínculo, a presença, a sustentação da casa. Ela repete porque ama — e amar, nesse nível, é insistir.

2. O trabalhador que pega o mesmo ônibus

Todos os dias, o mesmo trajeto, o mesmo banco da janela, as mesmas ruas. E, ainda assim, há algo novo: uma música diferente nos fones, uma pessoa nova que senta ao lado, uma paisagem que muda com a luz do dia. O passo constante não é sempre igual — ele permite o surgimento do novo.

3. O terapeuta que escuta as mesmas dores

Em sessões semanais, durante meses ou anos, o psicólogo ouve relatos que parecem repetir-se. Mas nesse movimento de repetição, algo amadurece — uma palavra que antes não era dita, um gesto de compreensão que antes não vinha. A constância aqui é o solo da escuta verdadeira.

4. O estudante que não desiste

Ele não tem talento fácil, não entende rápido, mas continua. Refaz provas, busca ajuda, estuda quando ninguém mais acredita. O mundo gosta dos gênios relâmpago, mas é esse que caminha devagar que carrega uma sabedoria silenciosa: a de não desistir de si.

 

Quando a Constância se Torna Coragem

Seguir em frente, mesmo sem grandes recompensas imediatas, exige coragem. Num mundo de estímulos instantâneos, manter o passo é uma espécie de ato subversivo. É negar a pressa imposta e confiar num tempo mais orgânico, em que os frutos não brotam por exigência, mas por amadurecimento.

Como nos lembra Simone Weil, “a atenção prolongada é a forma mais rara e pura de generosidade”. E atenção é isso: manter-se presente, passo a passo, mesmo quando tudo nos distrai ou convida à fuga.

 

O Olhar de Rubem Alves: Constância como Espera Fecunda

Rubem Alves, educador e pensador brasileiro, falava da educação como um ato de “esperança paciente”. Em seus textos, ele recorria à metáfora do jardineiro: quem planta não tem poder sobre o tempo da colheita, apenas sobre o cuidado diário. A constância, portanto, não é controle — é confiança.

Em seu livro Ostra Feliz Não Faz Pérola, Alves escreve:

“O que nos transforma não são os grandes acontecimentos, mas as repetições pequenas e silenciosas, como o trabalho do tempo sobre a pedra.”

Para ele, os passos constantes são também uma forma de amar: só ama de verdade quem é capaz de permanecer, de repetir gestos aparentemente inúteis, de continuar quando não há aplausos.

 

Filosofia dos Ciclos

Os passos constantes têm a sabedoria das estações. São como as ondas do mar que esculpem a pedra, como o vento que molda a montanha ao longo dos séculos. É por isso que não devemos desprezar o que se repete: ele guarda dentro de si a potência de tudo o que muda.

Se há uma revolução verdadeira, talvez ela esteja menos nos gritos e mais na persistência de quem faz o que precisa ser feito, mesmo quando ninguém vê.

 

Epílogo: O Poder de Continuar

Se o mundo de hoje celebra o instantâneo, talvez devêssemos reaprender o valor do demorado. Dos processos. Das escadas em vez dos elevadores. Dos livros relidos, das amizades cultivadas, das ideias maturadas com o tempo.

A vida não é feita apenas de clímax — mas de passagens discretas, de pequenos avanços quase invisíveis. E talvez a filosofia dos passos constantes seja essa: viver não como quem corre atrás de tudo, mas como quem caminha fielmente com aquilo que importa.

Há uma beleza modesta e poderosa em continuar. Em não desistir. Em repetir os passos, não como quem gira em círculos, mas como quem sobe uma espiral invisível. Os passos constantes não são estáticos — eles são discretamente ascendentes.
E é neles que mora a verdadeira transformação.