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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Reconciliação Com os Limites


Demorei para entender que limite não é derrota. No começo, ele aparece como frustração: o corpo que cansa, o tempo que falta, a inteligência que não alcança tudo, o dinheiro que impõe fronteiras, o outro que diz “não”. A sensação inicial é sempre a mesma — se eu me esforçasse mais, isso não estaria aqui. Mas os limites insistem. Eles não vão embora.

A reconciliação começa quando percebo que o limite não está ali para me humilhar, mas para me situar. Ele é como a borda da mesa: não serve para impedir o jantar, mas para que ele aconteça sem que tudo caia no chão. No cotidiano isso é claro, embora a gente finja não ver. O profissional que aceita que não dá conta de tudo trabalha melhor. O pai ou a mãe que reconhece a própria falha educa com mais humanidade. O amigo que assume que não sabe ouvir em certos dias evita ferir sem querer.

Há algo profundamente moderno na recusa dos limites. Vivemos como se tudo fosse possível, o tempo todo. Resultado: exaustão, comparação infinita, culpa crônica. A reconciliação é quase um ato de rebeldia silenciosa. É dizer: isso eu posso, isso não posso — e está tudo bem. Não como desistência, mas como clareza.

Lembro de uma ideia muito simples, mas poderosa, de Rubem Alves: a de que maturidade não é acumular possibilidades, mas aprender a escolher — e toda escolha implica perda. Só quem aceita perder consegue, de fato, habitar o que escolheu. O limite, então, deixa de ser muro e vira moldura. É ele que dá forma ao sentido.

Reconciliação com os limites não é resignação amarga. É amizade. É parar de lutar contra o que não sou para finalmente cuidar do que sou. Curiosamente, é nesse ponto que algo se expande. Quando aceito o tamanho da minha casa, começo a arrumá-la melhor. Quando aceito minha finitude, o tempo ganha peso. Quando aceito meus limites, a vida fica menos ruidosa — e mais verdadeira.

No fundo, talvez crescer seja isso: parar de sonhar em ser infinito e começar a viver bem dentro do possível, principalmente quando passamos dos sessenta!


quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Silêncio Planejado


Eu descobri que nem todo silêncio é fuga. Alguns são projeto.
Há o silêncio que acontece quando falta palavra — esse é vazio.
E há o silêncio escolhido, quase arquitetado, como quem fecha uma janela para organizar o ar do quarto.

Silêncio planejado não é ausência de som, é recusa de ruído inútil. É quando eu decido não responder imediatamente, não opinar sobre tudo, não preencher cada intervalo com explicações. Num mundo em que falar virou reflexo condicionado, calar pode ser um gesto ativo, quase político.

No cotidiano ele aparece em formas discretas:
– não checar o celular assim que acorda;
– ouvir alguém até o fim sem preparar a réplica;
– deixar uma pergunta amadurecer antes de virar resposta.

Lembro do Rubem Alves, que dizia que a sabedoria começa quando a boca aprende a escutar. Planejar o silêncio é criar espaço para que algo nos atravesse — uma ideia, um incômodo, uma verdade que não grita, mas insiste.

Talvez seja isso:
o silêncio planejado não serve para desaparecer do mundo,
mas para voltar a ele com menos ruído dentro de nós.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Medo Egoísta


Há medos que nascem para proteger a vida — o medo de uma queda, de um animal selvagem, de uma notícia médica incerta. São medos que têm um sentido biológico, quase nobre, porque servem à sobrevivência. Mas há outro tipo de medo, mais discreto, mais íntimo e, de certo modo, mais perigoso: aquele que não protege o corpo, e sim o ego. É o medo egoísta — o medo de perder o papel que acreditamos ter no mundo, a imagem que criamos de nós mesmos, ou o controle sobre o que amamos.

Esse medo aparece em gestos cotidianos: quando deixamos de expressar uma ideia para não parecer tolos, quando não elogiamos o outro para não sentir inveja, ou quando tememos mudar de vida porque alguém pode nos julgar. Mas ele se revela com mais força nas relações afetivas — quando o medo de perder alguém disfarça o próprio egoísmo. Queremos a pessoa por perto não porque desejamos o bem dela, mas porque precisamos dela à vista, sob nosso alcance emocional, como se a distância apagasse o amor. É o medo que transforma o afeto em vigilância e o cuidado em posse.

Amar, nesses casos, é querer ter, não querer ver. E esse querer ter é uma forma disfarçada de fraqueza: é o pavor de ficar só, de não ser lembrado, de não ter importância. O medo egoísta é o guardião da aparência — o medo de não sermos o centro do outro.

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, em O Conceito de Angústia, disse que a angústia é a vertigem da liberdade — aquele mal-estar que sentimos diante do infinito das possibilidades. O medo egoísta é, justamente, a recusa dessa vertigem. Ele quer segurança em tudo: nas escolhas, nas relações, no amor. É a tentativa de domesticar o imprevisível. Só que o amor, como a existência, não cabe em grades.

Quando o ego tem medo, ele constrói fortalezas — mas esquece que toda fortaleza é também uma prisão. O medo de perder o outro faz com que percamos o essencial: o respeito pela liberdade do outro de ser, de ir, de crescer. E esse medo, que parece amor, é na verdade apego ao espelho: queremos o outro como reflexo, não como horizonte.

O educador e pensador brasileiro Rubem Alves escreveu que “amar é ter um pássaro pousado no ombro. Se ele quiser ficar, fica. Se quiser ir, vai. Amor que prende é amor que mata”. Essa imagem sintetiza o antídoto contra o medo egoísta: o amor que liberta, que permite o voo, mesmo que a ausência doa.

Superar o medo egoísta não significa eliminar o medo, mas transformá-lo: trocar o medo de perder pelo medo de não viver com verdade; trocar o medo da distância pelo desejo de que o outro floresça; trocar o controle pela confiança. Porque, no fim, quem vence o medo egoísta não perde ninguém — apenas deixa de aprisionar o que ama. E descobre, enfim, que o amor só existe quando o outro é livre o bastante para ficar.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Passos Constantes

Vou falar sobre persistência, repetição e transformação

 

Tem dias em que parece que nada acontece. Acordamos, fazemos o café, respondemos mensagens, voltamos ao trabalho — e o mundo continua igual. Mas, se olharmos de perto, veremos que o chão sob nossos pés já não é o mesmo. Mesmo o passo repetido sobre a calçada de sempre carrega algo de diferente, mesmo que sutil: uma sensação nova, um pensamento que brota, uma dor que antes não existia. É sobre isso que vou falar aqui — sobre os passos constantes, essas batidas ritmadas que desenham nossa vida sem alarde, mas com profundidade. Então, por que não retornar a este tema como alguém que também observa o passar do tempo, e cada vez que escreve alguma coisa que já escreveu, sinto que muda e/ou já mudou como teria dito Heráclito.

 

A Constância como Ato Filosófico

A modernidade nos ensinou a valorizar a mudança brusca, a inovação disruptiva, os saltos que transformam tudo da noite para o dia. No entanto, há uma filosofia silenciosa que emerge do que permanece. Não do que estagna, mas do que insiste. O passo constante, nesse sentido, não é um hábito automático, mas uma postura de resistência e maturação.

Nietzsche dizia que nos tornamos quem somos através de longas repetições — e não por rupturas. Para ele, o “eterno retorno” não é punição, mas oportunidade: repetir não é apenas repetir, é reencontrar a si mesmo sob novas luzes.

 

Exemplos Cotidianos: Onde Moram os Passos Constantes

1. A mãe que repete gestos silenciosos

Ela acorda antes de todos, prepara o café, organiza a lancheira, põe o uniforme na cadeira. Ninguém vê esse roteiro como algo heroico, mas é nele que se constrói o vínculo, a presença, a sustentação da casa. Ela repete porque ama — e amar, nesse nível, é insistir.

2. O trabalhador que pega o mesmo ônibus

Todos os dias, o mesmo trajeto, o mesmo banco da janela, as mesmas ruas. E, ainda assim, há algo novo: uma música diferente nos fones, uma pessoa nova que senta ao lado, uma paisagem que muda com a luz do dia. O passo constante não é sempre igual — ele permite o surgimento do novo.

3. O terapeuta que escuta as mesmas dores

Em sessões semanais, durante meses ou anos, o psicólogo ouve relatos que parecem repetir-se. Mas nesse movimento de repetição, algo amadurece — uma palavra que antes não era dita, um gesto de compreensão que antes não vinha. A constância aqui é o solo da escuta verdadeira.

4. O estudante que não desiste

Ele não tem talento fácil, não entende rápido, mas continua. Refaz provas, busca ajuda, estuda quando ninguém mais acredita. O mundo gosta dos gênios relâmpago, mas é esse que caminha devagar que carrega uma sabedoria silenciosa: a de não desistir de si.

 

Quando a Constância se Torna Coragem

Seguir em frente, mesmo sem grandes recompensas imediatas, exige coragem. Num mundo de estímulos instantâneos, manter o passo é uma espécie de ato subversivo. É negar a pressa imposta e confiar num tempo mais orgânico, em que os frutos não brotam por exigência, mas por amadurecimento.

Como nos lembra Simone Weil, “a atenção prolongada é a forma mais rara e pura de generosidade”. E atenção é isso: manter-se presente, passo a passo, mesmo quando tudo nos distrai ou convida à fuga.

 

O Olhar de Rubem Alves: Constância como Espera Fecunda

Rubem Alves, educador e pensador brasileiro, falava da educação como um ato de “esperança paciente”. Em seus textos, ele recorria à metáfora do jardineiro: quem planta não tem poder sobre o tempo da colheita, apenas sobre o cuidado diário. A constância, portanto, não é controle — é confiança.

Em seu livro Ostra Feliz Não Faz Pérola, Alves escreve:

“O que nos transforma não são os grandes acontecimentos, mas as repetições pequenas e silenciosas, como o trabalho do tempo sobre a pedra.”

Para ele, os passos constantes são também uma forma de amar: só ama de verdade quem é capaz de permanecer, de repetir gestos aparentemente inúteis, de continuar quando não há aplausos.

 

Filosofia dos Ciclos

Os passos constantes têm a sabedoria das estações. São como as ondas do mar que esculpem a pedra, como o vento que molda a montanha ao longo dos séculos. É por isso que não devemos desprezar o que se repete: ele guarda dentro de si a potência de tudo o que muda.

Se há uma revolução verdadeira, talvez ela esteja menos nos gritos e mais na persistência de quem faz o que precisa ser feito, mesmo quando ninguém vê.

 

Epílogo: O Poder de Continuar

Se o mundo de hoje celebra o instantâneo, talvez devêssemos reaprender o valor do demorado. Dos processos. Das escadas em vez dos elevadores. Dos livros relidos, das amizades cultivadas, das ideias maturadas com o tempo.

A vida não é feita apenas de clímax — mas de passagens discretas, de pequenos avanços quase invisíveis. E talvez a filosofia dos passos constantes seja essa: viver não como quem corre atrás de tudo, mas como quem caminha fielmente com aquilo que importa.

Há uma beleza modesta e poderosa em continuar. Em não desistir. Em repetir os passos, não como quem gira em círculos, mas como quem sobe uma espiral invisível. Os passos constantes não são estáticos — eles são discretamente ascendentes.
E é neles que mora a verdadeira transformação.

sábado, 6 de setembro de 2025

Segurar a Língua

O Ato de Não Dizer

Segurar a língua é mais do que um gesto físico; é um exercício de autocontrole, cálculo e, por vezes, sobrevivência. A decisão de não falar, quando se tem algo pronto na boca, pode ser tanto um sinal de sabedoria quanto um peso que corrói por dentro.

O filósofo brasileiro Rubem Alves, que via a linguagem como ponte e também como abismo, lembrava que o silêncio pode ser mais revelador que qualquer palavra. Para ele, a fala precipitada é como uma flecha lançada: impossível de recolher. Segurar a língua, então, é conter essa flecha antes que ela parta, seja para evitar ferir alguém, seja para evitar ferir a si mesmo.

No cotidiano, a prática é onipresente. No trabalho, diante de uma decisão equivocada do chefe, a língua coça, mas a prudência segura. Em uma discussão de casal, há frases prontas para incendiar a situação, mas que ficam presas entre os dentes. Na fila do banco, diante de um comentário grosseiro, a vontade é retrucar, mas o corpo inteiro decide que é melhor não.

Mas o ato não é neutro. Guardar a palavra pode proteger, mas também pode sufocar. Há quem segure a língua tantas vezes que, aos poucos, vai apagando a própria voz — transformando-se num espectador da própria vida. E há quem não segure nunca, falando como se cada instante fosse uma última chance, acumulando inimigos e desgastes.

Rubem Alves sugeriria que a sabedoria está em saber quando o silêncio é um abrigo e quando é uma prisão. Segurar a língua, nesses termos, não é calar-se por medo, mas por escolha consciente: compreender que o tempo certo da palavra não é sempre o tempo da emoção.

Talvez seja esse o paradoxo: falar exige coragem, mas calar exige uma coragem ainda maior — a de confiar que nem toda verdade precisa ser dita para ser vivida.


sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Coisas pela Essência


Às vezes a gente se perde no excesso de verniz. Olhamos para um celular novo e vemos status; para um prato caro no restaurante e vemos sofisticação; para um discurso político e vemos a performance. Mas o que sobra quando tiramos essas camadas? O que é que fica quando o brilho passa? Talvez o exercício mais difícil do cotidiano seja justamente esse: perceber as coisas pela essência.

Na correria, reduzimos a vida ao imediato. Compramos o pão sem lembrar que ali existe o trabalho do padeiro, o trigo que brotou de uma terra, a água que atravessou rios, a paciência do tempo de fermentação. O pão é pão — mas também é uma história comprimida em miolo macio. O mesmo vale para as relações: não basta o sorriso rápido ou a frase bonita dita no grupo de mensagens. A essência está no cuidado, na presença silenciosa, no gesto simples que sustenta a confiança.

O problema é que a superfície grita mais alto do que a essência. É mais fácil medir alguém pelo carro que dirige do que pela serenidade com que enfrenta as dificuldades. É mais simples classificar um trabalho pelo salário do que pela contribuição que ele dá ao bem comum. A essência pede olhos treinados e paciência, pede coragem para atravessar as aparências.

Rubem Alves lembrava que “o essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração”, ecoando Saint-Exupéry, mas trazendo para o chão do nosso dia a dia. Ele dizia ainda que a essência das coisas está ligada ao encantamento: aquilo que não pode ser comprado, mas que, uma vez percebido, muda a forma como vivemos. Ver a essência é escutar a música que há por trás da letra, é saborear o silêncio entre as palavras, é reconhecer no outro não só um rosto, mas um universo.

Olhar para as coisas pela essência não é um exercício místico, é um hábito de humanidade. É perceber que a vida não se esgota na embalagem — e que o melhor da existência não se mede pelo que aparece, mas pelo que permanece.

Fernando Pessoa, em um dos fragmentos de seus escritos, dizia que “o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem”. Essa intensidade é justamente o toque da essência: não se mede em quantidade, mas em profundidade.

Então, olhar as coisas pela essência exige desacelerar, desmontar as camadas de aparência e chegar ao núcleo — como quem descasca uma fruta até encontrar o sabor mais puro.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Nutrir Sentimentos

No corre-corre do dia a dia, a gente costuma pensar em “nutrição” apenas como aquilo que alimenta o corpo: café da manhã, almoço, janta. Mas e o que alimenta o coração? Sentimentos também precisam ser nutridos — e talvez seja isso que mais negligenciamos.

O problema é que, diferente da comida, sentimentos não chegam prontos. Eles não se compram no mercado nem se aquecem no micro-ondas. Para florescerem, exigem tempo, cuidado e uma espécie de cozinha interior. O amor, por exemplo, não se mantém vivo só pelo “eu te amo” dito uma vez. Precisa de pequenos gestos, atenção, paciência, memória compartilhada. A amizade também: se não for regada, seca. Até a gratidão, se não for lembrada, se perde em meio às cobranças do cotidiano.

O pensador brasileiro Rubem Alves dizia que “o corpo se alimenta de pão, mas a alma se alimenta de sonhos e de carinho”. Isso significa que sentimentos não são automáticos, não brotam sozinhos — são cultivados. A indiferença, por outro lado, é o “jejum” da alma, que nos deixa fracos sem percebermos.

No cotidiano, nutrir sentimentos pode ser coisa simples: mandar uma mensagem sem motivo aparente, escutar de verdade sem olhar para o celular, ou até parar cinco minutos para lembrar de algo que nos faz sorrir. É dar consistência àquilo que, sem cuidado, vira apenas sensação passageira.

O curioso é que nutrir sentimentos não é apenas dar; é também receber. Ao cuidar dos vínculos, fortalecemos a nós mesmos. Como uma planta que, ao ser regada, devolve sombra e oxigênio, o sentimento nutrido oferece abrigo.

Nutrir sentimentos é, portanto, um ato ético e estético. Ético porque reconhece no outro a importância de existir. Estético porque torna a vida mais bela, mais habitável. No fundo, é um modo de resistir à secura do mundo. Como lembrava Rubem Alves: “Aquilo que a memória amou, fica eterno.” E só fica eterno o que foi bem alimentado.


sábado, 29 de março de 2025

Criando os Filhos

Outro dia, observei um pai apressando o filho no parquinho. “Vamos logo! Mais uma vez no escorregador e acabou!” O menino nem teve tempo de protestar – só deslizou resignado, como se já soubesse que a vida adulta começa cedo demais. Essa cena me fez lembrar das ideias de Carl Honoré, autor do livro Under Pressure, onde ele critica a obsessão contemporânea por acelerar a infância. Será que estamos criando nossos filhos ou apenas gerenciando pequenas carreiras em desenvolvimento?

Honoré defende um conceito que deveria ser óbvio, mas que soa quase subversivo hoje em dia: criar filhos sem pressa. Em um mundo onde os pequenos são matriculados em cursos de mandarim antes de conseguirem amarrar os próprios sapatos e participam de agendas dignas de executivos de alto escalão, desacelerar parece um ato de resistência. Mas e se, em vez de tratarmos a infância como uma corrida, a víssemos como uma experiência em si mesma?

O paradoxo da superpreparação

Vivemos a era do “superfilho”: aquele que toca violino aos cinco anos, domina programação aos sete e já pensa em bolsa de estudos para Harvard antes mesmo da adolescência. Pais bem-intencionados tentam “otimizar” o tempo dos filhos, evitando qualquer desperdício de potencial. No entanto, será que essa busca incessante por prepará-los para o futuro não os impede de viver plenamente o presente?

O filósofo Byung-Chul Han aponta que a sociedade contemporânea vive no que ele chama de “sociedade do desempenho”, onde tudo precisa ser produtivo, até o lazer. Assim, a infância se torna uma fase de preparação, não um momento com valor próprio. O brincar livre, a conversa sem rumo e até o tédio são vistos como inimigos da eficiência, quando na verdade são essenciais para o desenvolvimento emocional e criativo.

Pais ansiosos, filhos ansiosos

Honoré sugere que o excesso de controle sobre a infância vem, em grande parte, da ansiedade dos próprios pais. Queremos protegê-los de frustrações, preparar o terreno para que tenham sucesso e evitar qualquer erro que possa comprometer suas futuras oportunidades. Mas, paradoxalmente, essa tentativa de blindagem pode torná-los menos resilientes e mais inseguros.

Aqui entra um conceito interessante do filósofo brasileiro Rubem Alves: ele dizia que educar é como ensinar a voar, e não construir gaiolas douradas. Se queremos que nossos filhos sejam independentes, precisamos deixá-los experimentar, errar, cair e levantar. A pressa em moldá-los para um futuro idealizado pode acabar roubando-lhes a chance de se descobrirem por si mesmos.

O tempo da infância

Se há algo que Honoré nos ensina, é que desacelerar não significa ser negligente, mas sim permitir que os filhos vivam a infância com plenitude. Deixá-los explorar o mundo sem um cronômetro na mão, aprender no seu próprio ritmo e se entediar de vez em quando pode ser mais educativo do que qualquer aula extracurricular.

Talvez o maior presente que podemos dar a eles não seja um futuro brilhante, mas um presente vivido com significado. Afinal, quando foi que decidimos que crescer deveria ser uma maratona e não uma dança?


segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Admirável Desculpa

Se há uma habilidade humana que nunca sai de moda, é a arte de se desculpar. Não falo das desculpas formais e educadas, aquelas que soltamos automaticamente ao esbarrar em alguém no ônibus. Refiro-me às desculpas mais elaboradas, criadas quase como obras-primas, justificativas para aquilo que não fizemos, não fomos ou não conseguimos ser. Elas têm um quê de narrativa épica, um toque de autopiedade e, às vezes, até um aroma de redenção. Mas será que viver de desculpas nos leva a algum lugar?

Imagine a seguinte cena: você encontra um amigo que há tempos promete iniciar um novo projeto. Quando você pergunta como está o progresso, ele suspira profundamente e responde: "Ah, você sabe como é... a vida aconteceu." Essa frase, tão simples e cheia de significado, traduz a essência das desculpas: o descompasso entre o desejo e a realidade.

O papel das desculpas na vida cotidiana

As desculpas, admiravelmente, cumprem a função de proteger nossa imagem diante do outro – e, principalmente, de nós mesmos. Elas são uma camada protetora, uma espécie de escudo moral que nos impede de enfrentar, de maneira direta, nossos próprios fracassos ou limitações. Ao mesmo tempo, escondem uma verdade desconfortável: raramente a desculpa é apenas sobre o que ocorreu no mundo externo. Em sua essência, ela é uma narrativa que criamos para escapar da responsabilidade que, em última análise, é nossa.

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard abordou essa questão em seus escritos sobre o "desespero". Segundo ele, muitas vezes criamos mecanismos para evitar o enfrentamento da nossa própria condição existencial, seja atribuindo nossa falta de ação a forças externas, seja buscando consolo em justificativas que nos afastam da verdade interior. Para Kierkegaard, a desculpa é uma das muitas formas de fuga do "chamado do ser".

A desculpa como máscara e revelação

Curiosamente, as desculpas não são apenas mentiras piedosas. Elas também revelam muito sobre quem as profere. A escolha das palavras, os detalhes da justificativa, até mesmo o tom de voz usado – tudo isso pode ser lido como um mapa dos valores, prioridades e medos de uma pessoa.

Um exemplo clássico é o trabalhador que culpa o trânsito pelo atraso, quando na verdade sabia que acordar cinco minutos mais cedo resolveria o problema. A desculpa é, ao mesmo tempo, uma máscara para esconder a preguiça e uma revelação de que o compromisso com o horário, para essa pessoa, não tem tanta relevância.

Por outro lado, existem aquelas desculpas que se tornam quase virtudes. Quem nunca admirou um amigo que, ao reconhecer que não conseguiu cumprir algo, disse: "Eu me atrasei porque priorizei estar presente de verdade com minha família ontem à noite"? Essas desculpas carregam uma verdade maior: o reconhecimento de valores autênticos, mesmo diante de falhas aparentes.

A admirável desculpa: um novo olhar

Talvez o problema não esteja nas desculpas em si, mas no uso que fazemos delas. A desculpa pode ser um convite à reflexão, uma oportunidade de aprendizado e reconciliação com nossas falhas humanas. Quando assumimos que as desculpas não são soluções definitivas, mas caminhos para repensar nossas escolhas, elas ganham um novo sentido: deixam de ser fuga e se tornam uma forma de diálogo.

O pensador brasileiro Rubem Alves, em um de seus textos, reflete sobre a ideia de "não saber tudo". Para ele, admitir nossas limitações não é fraqueza, mas a chance de aprender algo novo. Talvez a admirável desculpa, quando bem utilizada, possa funcionar da mesma maneira – como um portal para a humildade e o autoconhecimento.

Afinal, desculpar-se, de forma admirável, pode ser menos sobre justificar o que deu errado e mais sobre aceitar que somos, em essência, seres falíveis. Transformar nossas desculpas em pontes para o entendimento – tanto de nós mesmos quanto dos outros – é uma das formas mais autênticas de exercer a humanidade. O desafio não está em criar a desculpa perfeita, mas em viver de forma a precisar menos dela.


terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Instigação Divina

Estava pensando outro dia, enquanto caminhava no parque ao entardecer, como certas perguntas simplesmente nos encontram. Não são questões que buscamos; elas se plantam na nossa mente, como se o universo, ou algo além, nos cutucasse com um “e aí, já pensou nisso?”. Essa sensação de ser provocado por algo maior, de sentir que existe uma conexão além do visível e do tangível, é o que chamarei aqui de instigação divina.

Mas, o que seria exatamente essa instigação? Um sopro de curiosidade vindo de algum canto metafísico? Uma voz silenciosa que nos faz olhar para o céu, perguntar o que estamos fazendo ou buscar um propósito maior? Ou talvez seja apenas a nossa mente, inquieta por natureza, tentando projetar sentido onde não há nada além de caos e acaso?

O Chamado Que Não Se Cala

Historicamente, a humanidade sempre tentou responder às instigações divinas. Desde as primeiras pinturas rupestres até as catedrais góticas e os tratados filosóficos, essa busca por algo transcendente parece estar no DNA humano. Santo Agostinho, por exemplo, falava que o coração humano não descansa até encontrar Deus. Mas será que essa busca é genuína ou apenas uma necessidade de preencher o vazio existencial com algum tipo de narrativa?

Mesmo na vida cotidiana, sentimos essas instigações. Aquela dúvida que surge ao olhar para o céu estrelado: “Será que há algo me observando?” Ou aquela intuição inexplicável que nos faz mudar de caminho no último momento, como se um lampejo de algo maior nos protegesse ou nos guiasse.

Filosofia e Mistério

Para o filósofo francês Gabriel Marcel, a experiência do mistério é central na vida humana. Ele distinguia problemas de mistérios: problemas são coisas que podemos resolver, enquanto mistérios são realidades em que estamos mergulhados e que nos ultrapassam. A instigação divina talvez se encaixe nessa segunda categoria. Não é algo para resolvermos, mas para sentirmos e vivermos.

Por outro lado, Friedrich Nietzsche nos alertava para o perigo de criar ilusões reconfortantes. Ele argumentava que o ser humano, na sua fraqueza, frequentemente inventa deuses para evitar encarar a brutalidade da existência. A instigação divina, nesse sentido, poderia ser tanto um impulso genuíno quanto uma armadilha da nossa imaginação.

No Cotidiano, um Eco

Na rotina, essas provocações aparecem em momentos inesperados. Uma criança que faz uma pergunta desconcertante sobre a vida. Uma música que desperta uma saudade de algo que nem sabemos o que é. Uma crise que nos faz questionar tudo o que acreditávamos. Nessas horas, a instigação divina não é uma voz clara, mas um sussurro. Não é uma ordem, mas um convite.

Talvez o maior valor da instigação divina esteja justamente em não termos certeza do que ela é. Seria a centelha de algo maior ou apenas um truque do nosso cérebro? Não importa. O que importa é que ela nos move, nos faz sair da inércia e olhar para o desconhecido com coragem e curiosidade.

Como bem disse o filósofo brasileiro Rubem Alves, “O que sustenta a alma é o invisível”. Talvez a instigação divina seja isso: um lembrete de que o mistério, por mais inquietante que seja, é o que torna a vida infinitamente rica.


sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Paradoxo da Efemeridade

Às vezes, me pego refletindo sobre os pequenos gestos do cotidiano, aqueles que parecem não ter grande impacto. É como o hábito de arrumar a cama todas as manhãs, sabendo que à noite ela será desfeita novamente, ou como varrer folhas secas do quintal, apenas para vê-las retornarem com o próximo vento. Esses atos, à primeira vista, parecem esforços insignificantes e efêmeros. No entanto, são eles que compõem boa parte do nosso dia a dia.

O que nos motiva a continuar? Será que são apenas questões de hábito, ou existe algo mais profundo no ato de insistir, mesmo quando o resultado é passageiro? Há uma certa beleza em fazer algo sabendo que seu efeito será temporário, como se essas pequenas ações fossem uma forma de resistir ao caos do mundo, uma tentativa silenciosa de criar ordem, ainda que fugaz.

Nietzsche, ao falar do eterno retorno, parece abordar esse ciclo de repetição. Ele sugere que, se tivéssemos que reviver nossa vida infinitamente, com todos os seus altos e baixos, nós a aceitaríamos da mesma forma? Se tivéssemos a garantia de que nossos esforços insignificantes se repetiriam para sempre, continuaríamos a agir da mesma maneira? Talvez o que hoje vemos como insignificante ganhasse outra perspectiva, mais plena e valorosa.

Ao mesmo tempo, há algo de profundamente humano em se engajar em ações que sabemos serem transitórias. Esse é o paradoxo da efemeridade: tudo o que fazemos, no fundo, pode ser considerado passageiro, mas ainda assim buscamos significado. Um exemplo é a jardinagem. Um jardineiro planta flores sabendo que elas murcharão em algumas semanas, mas o prazer e a dedicação estão na própria jornada, não no resultado final. A natureza cíclica da vida nos ensina que o valor de algo não está necessariamente em sua durabilidade, mas na presença e no cuidado dedicado àquele momento.

O filósofo brasileiro Rubem Alves certa vez comentou sobre a efemeridade ao dizer que a beleza da vida está no fato de que ela não dura para sempre. Talvez seja essa finitude que dá sentido às nossas ações. Não fazemos as coisas porque elas durarão para sempre, mas porque, justamente por serem efêmeras, elas merecem nossa atenção.

Em um mundo que valoriza tanto o permanente e o duradouro, os esforços insignificantes e efêmeros podem ser uma forma de reconectar com o que é essencial. Eles nos lembram que, em última instância, a vida não é sobre acumular feitos eternos, mas sobre viver intensamente os momentos transitórios, aqueles que desaparecem no instante seguinte.

Assim, ao varrer as folhas do quintal ou arrumar a cama, estamos, de certa forma, reafirmando nossa presença no mundo, afirmando que, mesmo em meio ao caos e à transitoriedade, nossas ações, por mais simples que sejam, têm seu valor. E talvez, no final das contas, não seja o que fazemos que importa, mas o simples fato de fazermos, de nos engajarmos, de resistirmos. Afinal, como Alves sugeria, é na efemeridade que encontramos a beleza da existência.


terça-feira, 17 de setembro de 2024

Pescador de Ilusões

Canção de O Rappa

 

Se meus joelhos não doessem mais
Diante de um bom motivo
Que me traga fé, que me traga fé

Se por alguns segundos eu observar
E só observar
A isca e o anzol, a isca e o anzol
A isca e o anzol, a isca e o anzol
Ainda assim estarei pronto pra comemorar
Se eu me tornar menos faminto
E curioso, curioso
O mar escuro, trará o medo lado a lado
Com os corais mais coloridos

Valeu a pena, ê ê
Valeu a pena, ê ê
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões

Valeu a pena, ê ê
Valeu a pena, ê ê
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões

Se eu ousar catar
Na superfície de qualquer manhã
As palavras de um livro sem final
Sem final, sem final, sem final, final

Valeu a pena, ê ê
Valeu a pena, ê ê
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões

Valeu a pena, ê ê
Valeu a pena, ê ê
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões

Se eu ousar catar
Na superfície de qualquer manhã
As palavras de um livro sem final
Sem final, sem final, sem final, final

Valeu a pena, ê ê
Valeu a pena, ê ê
Sou pescador de ilusões

Valeu a pena, ê ê
Valeu a pena, ê ê
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões

Valeu a pena
Valeu a pena
Sou pescador de ilusões

Valeu a pena
Valeu a pena
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões

Valeu a pena

Fonte: LyricFind

Compositores: Alexandre Menezes / Lauro Jose De Farias / Marcelo Falcão Custodio / Marcelo Fontes Do Nascimento Santana / Marcelo Lobato

Há algo na melodia de uma música que nos conduz suavemente para um universo de ilusões. Assim como um pescador lança sua rede no mar, guiado pelo som das ondas, somos também levados por acordes e versos que nos fazem sonhar. Na música "Pescador de Ilusões", dos Rappa, essa metáfora ganha corpo, revelando o desejo incessante de encontrar algo que preencha o vazio, que dê sentido à travessia. Mas, assim como na vida, nem sempre a rede traz aquilo que esperamos. Entre o balanço da melodia e a realidade que nos escapa, seguimos, afinal, pescadores de ilusões.

Assim como na canção "Pescador de Ilusões", em que a busca por um ideal parece ser guiada por uma esperança quase inalcançável, muitos hoje lançam suas redes no vasto oceano das mídias sociais, buscando algo mais: likes, seguidores, influência. No entanto, nem sempre essa pesca é feita de forma honesta. Muitas vezes, aqueles que parecem guiar seus seguidores estão, na verdade, pescando ilusões para alimentar suas próprias narrativas, construindo realidades distorcidas que só existem no filtro da tela. São mestres em manipular, criando falsas histórias que prometem um ideal inalcançável ou uma solução mágica para os problemas da vida. Nessa maré digital, fica difícil separar o real do ilusório, e muitos acabam enredados por essas falsas promessas, navegando sem perceber que estão sendo guiados por uma correnteza enganosa.

Nas redes sociais, a metáfora da isca e do anzol se encaixa perfeitamente no jogo de manipulação que muitos praticam. A isca, brilhante e atraente, pode ser aquela postagem cheia de frases motivacionais ou a promessa de um estilo de vida perfeito, cuidadosamente projetada para captar a atenção. O anzol, no entanto, está escondido, esperando que o seguidor, seduzido pela ilusão, morda. Assim como o pescador que lança a isca no mar, certos influenciadores lançam suas narrativas para atrair seguidores, enganchando-os em falsas realidades que, uma vez fisgadas, podem ser difíceis de escapar. O ciclo de desinformação e manipulação se perpetua, e quem morde a isca muitas vezes não percebe o anzol cravado nas profundezas de suas expectativas e esperanças.

"Pescar ilusões é um trabalho tão necessário quanto a pesca do alimento. A alma tem fome, e ela não se sacia apenas com o pão que se come." Essas palavras poderiam ser de qualquer sonhador que, na busca por algo maior, se lança nas águas da imaginação e do desejo. Mas o que significa, afinal, ser um pescador de ilusões?

No cotidiano, somos todos, em algum momento, esses pescadores. Entramos em nossos barcos – que podem ser nossos projetos, nossas esperanças, nossos relacionamentos – e lançamos nossas redes, acreditando que pegaremos algo de valor. Pode ser o emprego ideal, o relacionamento perfeito, a casa dos sonhos. A ilusão se mistura com a expectativa e, muitas vezes, ao puxarmos a rede, encontramos nada além de água, vazia, refletindo apenas o céu distante.

O filósofo brasileiro Rubem Alves tinha uma visão muito particular sobre as ilusões. Para ele, as ilusões não são meras mentiras, mas sim projeções de desejos profundos. Ele dizia que as ilusões são como os brinquedos da infância: eles não são reais no sentido estrito da palavra, mas desempenham um papel essencial na formação do ser. É através das ilusões que sonhamos e, ao sonharmos, damos novos significados à nossa realidade.

Alves também acreditava que, para ser feliz, é preciso saber lidar com o vazio das redes vazias. Afinal, quantas vezes buscamos algo que, ao final, se revela ilusório? E quantas dessas vezes somos capazes de ver, naquilo que não conseguimos alcançar, um ensinamento, um caminho para algo maior? O pescador de ilusões precisa ser também um artesão da frustração, transformando o não em outra oportunidade de lançar a rede.

No dia a dia, isso se manifesta quando, por exemplo, idealizamos um relacionamento e descobrimos que a outra pessoa não corresponde às expectativas. A ilusão era nossa companheira, alimentada pelas histórias que criamos em nossas cabeças. Quando a realidade surge, às vezes dura e implacável, há quem jogue tudo fora, desesperado. Mas o verdadeiro pescador de ilusões percebe que aquele vazio tem valor. Rubem Alves diria que é o vazio que nos ensina a ajustar nossas redes, a refinar nossos desejos.

A verdade é que, sem ilusões, talvez não tivéssemos coragem de viver. Elas nos impulsionam a sair do lugar, a buscar, a arriscar. Elas são o vento que enche as velas de nossas embarcações. Mas, como o vento, elas são voláteis e, muitas vezes, nos conduzem para mares que não esperávamos. O desafio é aprender a navegar, não tanto em busca do peixe, mas pelo simples ato de pescar.

Ao fim do dia, o pescador de ilusões volta à praia, às vezes com as mãos vazias, mas o coração cheio de histórias. E quem sabe, é nessa jornada que ele encontra, de fato, o que sempre procurou: não o objeto de seus desejos, mas a si mesmo, entre as ondas e o horizonte.

Link Música “Pescador de Ilusões” do Rappa:

https://www.youtube.com/watch?v=9GhWFIgaqL0

sábado, 14 de setembro de 2024

É Tarde Demais?

Há momentos na vida em que a sensação de “é tarde demais” bate com força. Talvez seja uma porta que se fechou, uma oportunidade perdida, ou a percepção de que o tempo que passou não volta. Quem nunca se pegou pensando que deveria ter feito algo diferente? O curioso é que, quando esse sentimento nos invade, ele traz consigo uma sensação de impotência que, muitas vezes, é exagerada pela nossa própria mente.

Nietzsche, em "A Gaia Ciência", propôs um conceito interessante chamado eterno retorno. Segundo ele, deveríamos viver nossas vidas como se tivéssemos que repeti-las infinitamente, com todas as escolhas, erros e acertos. Imagine só: tudo que você fez até agora teria que ser repetido eternamente. Isso transforma a ideia de “é tarde demais” em algo completamente diferente. Se temos que repetir nossas vidas, talvez o que enxergamos como um erro ou uma perda irreparável seja, na verdade, apenas uma parte inevitável de quem somos. A grande pergunta de Nietzsche para nossa reflexão é a seguinte: "Você está vivendo a sua vida de maneira que estaria disposto a vivê-la repetidamente?" Em suma, no ciclo do eterno retorno, não existe a possibilidade de mudar o passado ou viver de maneira diferente em outra vida. O que existe é o convite a viver com tal intensidade e consciência que cada momento seja digno de ser repetido eternamente.

A vida é cheia de pontos sem retorno. Pense na decisão de não seguir uma carreira que, anos depois, parece a mais óbvia, ou em relações que acabaram antes que pudessem florescer por completo. Esses momentos moldam o presente, mas é interessante notar como tendemos a supervalorizar o passado, colocando-o como um território de oportunidades perdidas, enquanto o presente, esse agora, escapa como água entre os dedos.

Há um conforto paradoxal no "tarde demais". Ele parece nos livrar da responsabilidade de fazer algo agora, como se o destino já estivesse traçado. Mas será que isso é verdade? Sartre, com sua filosofia existencialista, diria que nossa liberdade é inescapável. Para ele, estamos condenados a ser livres, o que significa que, enquanto estamos vivos, sempre há a possibilidade de escolha. O “tarde demais”, sob essa perspectiva, é uma fuga da responsabilidade. Podemos ter perdido algo, sim, mas isso não significa que estamos presos em um ciclo de inércia.

No cotidiano, vivemos várias pequenas versões desse dilema. A dieta que não começamos, o livro que nunca terminamos de ler, a conversa importante que deixamos para amanhã. Tudo parece se acumular em uma pilha de adiamentos, como se o tempo fosse uma fonte infinita de segundas chances. Mas e se não for?

O filósofo, pedagogo, poeta, contador de histórias, ensaísta, teólogo, acadêmico, psicanalista brasileiro Rubem Alves oferece uma perspectiva interessante sobre o tempo em seus textos. Ele sugere que o tempo é mais sobre a qualidade do que sobre a quantidade. Talvez, quando dizemos "é tarde demais", estamos, na verdade, nos referindo ao medo de que não aproveitamos o tempo com a profundidade que gostaríamos. Ele nos lembra que a vida não é apenas sobre a duração das coisas, mas sobre a intensidade e o significado que atribuímos a cada momento.

Talvez nunca seja verdadeiramente tarde demais. Ou, talvez, seja — mas isso não precisa ser algo que nos paralise. Se Nietzsche está certo sobre o eterno retorno, então cada escolha, cada fracasso, cada momento de “tarde demais” é simplesmente parte do ciclo. Se Sartre está certo, então, mesmo em meio à sensação de perda, podemos sempre escolher outra direção. E, se Rubem Alves tem razão, o que importa é como vivemos o tempo que nos resta, não quanto tempo ele é.

Então, quando a ideia de “é tarde demais” te visitar, pode valer a pena perguntar: tarde demais para quê? Tarde demais para viver? Para mudar? Ou será que estamos apenas descobrindo o momento certo para nos reinventarmos?