Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador reveladoras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador reveladoras. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Rachaduras Revelam

Há quem esconda as rachaduras com tinta nova, como se disfarçar bastasse para curar. Mas o tempo insiste: o que está rachado precisa ser olhado, não escondido.

As fissuras — emocionais, físicas, simbólicas — são parte de nós. Revelam onde fomos atingidos, mas também onde resistimos. A beleza do kintsugi, a arte japonesa de reparar cerâmica com ouro, está justamente nisso: o que foi quebrado não volta a ser o mesmo, mas se torna mais belo por ter sido remendado com cuidado.

Rachaduras revelam o que a superfície tenta esconder — tanto nas paredes quanto nas pessoas. Outro dia, reparei numa trinca fina na parede da sala, perto da janela. No início, quis disfarçar com tinta, mas percebi que a marca continuava ali, silenciosa, insistente. Foi quando me ocorreu que somos parecidos: tentamos cobrir as rachaduras da alma com sorrisos e distrações, mas elas voltam a aparecer, denunciando o que não foi realmente consertado. Às vezes, é justamente pela fissura que a verdade se mostra — e, se tivermos coragem de olhar de perto, percebemos que as rachaduras não destroem; elas apenas revelam o que precisa de cuidado.

Leonardo Boff escreveu que “a fragilidade é o lugar onde o divino se manifesta”. E talvez seja verdade: é nas imperfeições que o humano brilha. Fingir inteireza é fácil; aceitar-se partido exige coragem.

Cada rachadura é uma história que sobreviveu.