Há quem esconda as rachaduras com tinta nova, como se disfarçar bastasse para curar. Mas o tempo insiste: o que está rachado precisa ser olhado, não escondido.
As
fissuras — emocionais, físicas, simbólicas — são parte de nós. Revelam onde
fomos atingidos, mas também onde resistimos. A beleza do kintsugi, a
arte japonesa de reparar cerâmica com ouro, está justamente nisso: o que foi
quebrado não volta a ser o mesmo, mas se torna mais belo por ter sido remendado
com cuidado.
Rachaduras
revelam o que a superfície tenta esconder — tanto nas paredes quanto nas
pessoas. Outro dia, reparei numa trinca fina na parede da sala, perto da
janela. No início, quis disfarçar com tinta, mas percebi que a marca continuava
ali, silenciosa, insistente. Foi quando me ocorreu que somos parecidos:
tentamos cobrir as rachaduras da alma com sorrisos e distrações, mas elas
voltam a aparecer, denunciando o que não foi realmente consertado. Às vezes, é
justamente pela fissura que a verdade se mostra — e, se tivermos coragem de
olhar de perto, percebemos que as rachaduras não destroem; elas apenas revelam
o que precisa de cuidado.
Leonardo
Boff
escreveu que “a fragilidade é o lugar onde o divino se manifesta”. E talvez
seja verdade: é nas imperfeições que o humano brilha. Fingir inteireza é fácil;
aceitar-se partido exige coragem.
Cada
rachadura é uma história que sobreviveu.
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