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terça-feira, 28 de outubro de 2025

Falando Sério

O Peso das Palavras no Teatro da Vida

Outro dia, enquanto esperava um café, ouvi alguém dizer: “Falando sério agora...” e, no instante seguinte, a conversa mudou de tom. Como se, até ali, tudo tivesse sido um ensaio, um jogo de cena. Parece que vivemos entre dois registros: o do riso, da leveza, do improviso – e o da seriedade, daquilo que pesa, que compromete. Mas o que exatamente significa “falar sério”? E será que só há verdade no que é dito em tom grave?

Na tradição filosófica, a seriedade sempre teve um status ambíguo. Platão, por exemplo, desconfiava da ironia dos sofistas, que brincavam com as palavras, manipulando significados ao seu bel-prazer. Já Nietzsche, ao contrário, acusava a seriedade moral de ser uma grande farsa, um disfarce para a hipocrisia. Afinal, falar sério é dizer a verdade ou apenas assumir uma postura que convence os outros de que a verdade está ali?

Nos gestos cotidianos, levamos a seriedade como um sinal de credibilidade. No trabalho, no noticiário, nos discursos políticos – tudo aquilo que carrega um tom solene tende a ser visto como mais confiável. Mas há algo curioso nisso: a seriedade pode ser uma máscara, um artifício retórico. Um professor pode ser formal e enfadonho, e ainda assim não transmitir nada de substancial. Um líder pode parecer compenetrado e comprometido, mas estar apenas encenando uma performance de autoridade.

Por outro lado, o riso e a leveza, frequentemente desprezados, carregam muitas vezes uma forma de verdade mais crua. O humor tem uma capacidade ímpar de desnudar o absurdo da existência, de apontar contradições que a seriedade prefere esconder. Como disse Millôr Fernandes, “o humor é a mais séria das atitudes”. A ironia pode ser mais reveladora do que qualquer discurso grave, e um palhaço pode dizer verdades que um juiz jamais ousaria pronunciar.

Talvez, no fim das contas, a questão não seja falar sério ou não, mas sim falar com autenticidade. A verdade não tem um tom fixo, e o peso das palavras não depende de sua solenidade. O que realmente importa é se o que dizemos tem substância ou se estamos apenas encenando para uma plateia. Porque, sejamos francos, o mundo está cheio de gente que fala sério... e não diz absolutamente nada.