O Peso das Palavras no Teatro da Vida
Outro
dia, enquanto esperava um café, ouvi alguém dizer: “Falando sério agora...” e,
no instante seguinte, a conversa mudou de tom. Como se, até ali, tudo tivesse
sido um ensaio, um jogo de cena. Parece que vivemos entre dois registros: o do
riso, da leveza, do improviso – e o da seriedade, daquilo que pesa, que
compromete. Mas o que exatamente significa “falar sério”? E será que só há
verdade no que é dito em tom grave?
Na
tradição filosófica, a seriedade sempre teve um status ambíguo. Platão,
por exemplo, desconfiava da ironia dos sofistas, que brincavam com as palavras,
manipulando significados ao seu bel-prazer. Já Nietzsche, ao contrário,
acusava a seriedade moral de ser uma grande farsa, um disfarce para a
hipocrisia. Afinal, falar sério é dizer a verdade ou apenas assumir uma postura
que convence os outros de que a verdade está ali?
Nos
gestos cotidianos, levamos a seriedade como um sinal de credibilidade. No
trabalho, no noticiário, nos discursos políticos – tudo aquilo que carrega um
tom solene tende a ser visto como mais confiável. Mas há algo curioso nisso: a
seriedade pode ser uma máscara, um artifício retórico. Um professor pode ser
formal e enfadonho, e ainda assim não transmitir nada de substancial. Um líder
pode parecer compenetrado e comprometido, mas estar apenas encenando uma
performance de autoridade.
Por
outro lado, o riso e a leveza, frequentemente desprezados, carregam muitas
vezes uma forma de verdade mais crua. O humor tem uma capacidade ímpar de
desnudar o absurdo da existência, de apontar contradições que a seriedade
prefere esconder. Como disse Millôr Fernandes, “o humor é a mais séria
das atitudes”. A ironia pode ser mais reveladora do que qualquer discurso
grave, e um palhaço pode dizer verdades que um juiz jamais ousaria pronunciar.
Talvez,
no fim das contas, a questão não seja falar sério ou não, mas sim falar com
autenticidade. A verdade não tem um tom fixo, e o peso das palavras não depende
de sua solenidade. O que realmente importa é se o que dizemos tem substância ou
se estamos apenas encenando para uma plateia. Porque, sejamos francos, o mundo
está cheio de gente que fala sério... e não diz absolutamente nada.