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domingo, 18 de janeiro de 2026

Irrealidade Fechada

Há dias em que tudo parece real demais. E, justamente por isso, começa a parecer falso.

Chamo isso de irrealidade fechada: quando o mundo funciona, as pessoas cumprem seus papéis, as frases saem prontas, os gestos são previsíveis — e, ainda assim, nada atravessa a pele. É como viver dentro de um cenário perfeitamente montado, mas com as portas trancadas por dentro.

A irrealidade aberta é sonho, delírio, imaginação. A fechada é mais perigosa: é quando a realidade se torna tão organizada que deixa de ser vivida. Tudo está no lugar, menos eu.

No cotidiano, ela aparece quando respondo “tudo bem” sem perguntar nada por dentro. Quando trabalho, converso, caminho, sorrio — mas como quem repete um roteiro. Não há conflito, não há surpresa, não há rachadura. E sem rachadura, nada entra.

A irrealidade fechada não nega o mundo. Ela o torna intransponível. O real vira vitrine.

Jean Baudrillard diria que vivemos no simulacro: não na mentira, mas numa cópia sem original. Mas eu sinto algo ainda mais íntimo: não é o mundo que é falso — é a minha relação com ele que se fechou.

Como uma janela bem limpa, mas permanentemente trancada.

Percebo isso em coisas pequenas. Na música que escuto sem ouvir. No livro que leio sem ser tocado. Na conversa que termina sem deixar eco. Tudo acontece, mas nada continua.

A irrealidade fechada é um mundo sem depois.

E talvez por isso ela seja tão confortável. Não exige risco. Não exige interpretação. Não exige transformação. Basta circular.

Mas há um custo: quando a realidade se fecha, a alma começa a procurar frestas em lugares estranhos — no excesso, na distração, na nostalgia, na fantasia.

Eu não quero fugir da realidade. Quero que ela volte a me atravessar.

Porque o real só é real quando deixa marcas.

E a irrealidade fechada é justamente isso: um mundo sem cicatrizes.

Talvez viver seja, no fundo, aprender a reabrir o real. Mesmo que doa. Mesmo que desorganize. Mesmo que nos tire do conforto de existir sem sentir.