Há dias em que tudo parece real demais. E, justamente por isso, começa a parecer falso.
Chamo
isso de irrealidade fechada: quando o mundo funciona, as pessoas cumprem seus
papéis, as frases saem prontas, os gestos são previsíveis — e, ainda assim,
nada atravessa a pele. É como viver dentro de um cenário perfeitamente montado,
mas com as portas trancadas por dentro.
A
irrealidade aberta é sonho, delírio, imaginação. A fechada é mais perigosa: é
quando a realidade se torna tão organizada que deixa de ser vivida. Tudo está
no lugar, menos eu.
No
cotidiano, ela aparece quando respondo “tudo bem” sem perguntar nada por
dentro. Quando trabalho, converso, caminho, sorrio — mas como quem repete um
roteiro. Não há conflito, não há surpresa, não há rachadura. E sem rachadura,
nada entra.
A
irrealidade fechada não nega o mundo. Ela o torna intransponível. O real vira
vitrine.
Jean
Baudrillard diria que vivemos no simulacro:
não na mentira, mas numa cópia sem original. Mas eu sinto algo ainda mais
íntimo: não é o mundo que é falso — é a minha relação com ele que se fechou.
Como
uma janela bem limpa, mas permanentemente trancada.
Percebo
isso em coisas pequenas. Na música que escuto sem ouvir. No livro que leio sem
ser tocado. Na conversa que termina sem deixar eco. Tudo acontece, mas nada
continua.
A
irrealidade fechada é um mundo sem depois.
E
talvez por isso ela seja tão confortável. Não exige risco. Não exige
interpretação. Não exige transformação. Basta circular.
Mas
há um custo: quando a realidade se fecha, a alma começa a procurar frestas em
lugares estranhos — no excesso, na distração, na nostalgia, na fantasia.
Eu
não quero fugir da realidade. Quero que ela volte a me atravessar.
Porque
o real só é real quando deixa marcas.
E
a irrealidade fechada é justamente isso: um mundo sem cicatrizes.
Talvez
viver seja, no fundo, aprender a reabrir o real. Mesmo que doa. Mesmo que
desorganize. Mesmo que nos tire do conforto de existir sem sentir.
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