A Aparência de Liberdade
Falar
em tolerância costuma soar bonito — quase automático: ser tolerante é ser
justo, aberto, civilizado. Mas quando Herbert Marcuse escreve sobre “tolerância
repressiva”, ele vira essa ideia de cabeça para baixo. E o desconforto
começa aí: e se aquilo que chamamos de tolerância for, na prática, uma forma
sofisticada de manter tudo como está?
A
tolerância que mantém o mundo intacto
Marcuse
escreve
seu ensaio Repressive Tolerance nos anos 1960, em meio a
protestos, Guerra Fria e disputas ideológicas intensas. A crítica dele é
direta: nas sociedades modernas, especialmente as democráticas liberais, a
tolerância não é neutra — ela pode funcionar como instrumento de dominação.
A
lógica é quase irônica. Ao permitir “todas as opiniões”, inclusive aquelas que
sustentam desigualdades, preconceitos ou estruturas injustas, o sistema cria
uma aparência de liberdade. Mas essa liberdade não é equilibrada. Algumas vozes
têm megafones — mídia, poder econômico, influência política — enquanto outras
mal conseguem ser ouvidas.
Assim,
a tolerância indiscriminada não nivela o jogo; ela o congela.
Quando
“ouvir todos os lados” vira um problema
No
cotidiano, isso aparece de forma muito familiar. Imagine uma discussão sobre um
tema social delicado — desigualdade, racismo, direitos. Em nome da tolerância,
alguém diz: “vamos ouvir todos os lados”.
Parece
justo. Mas Marcuse perguntaria: todos os lados têm o mesmo peso histórico, o
mesmo acesso à fala, a mesma capacidade de influenciar?
Se
um lado representa grupos historicamente oprimidos e o outro representa
estruturas que os oprimem, tratar ambos como equivalentes pode ser menos justo
do que parece. A tolerância, nesse caso, funciona como uma espécie de anestesia
moral: ela suaviza conflitos que talvez precisassem ser enfrentados com mais
clareza.
A
neutralidade que favorece o mais forte
Para
Marcuse, a chamada neutralidade institucional — da mídia, da educação, do
debate público — muitas vezes não é neutra de verdade. Ao evitar tomar posição,
ela tende a favorecer o status quo.
É
como um jogo em que um time começa com vantagem enorme. Se o juiz decide “não
interferir para ser imparcial”, ele, na prática, legitima a desigualdade
inicial.
A
tolerância repressiva, então, não reprime proibindo — ela reprime permitindo.
Permite tudo, mas dentro de uma estrutura que já define quem vai vencer.
A
ideia radical de intolerância seletiva
Aqui
está o ponto mais polêmico do pensamento de Marcuse: ele sugere que, para haver
uma sociedade realmente livre, pode ser necessário ser intolerante com
discursos e práticas que perpetuam opressão.
Isso
soa perigoso — e é mesmo um terreno delicado. Afinal, quem decide o que deve ou
não ser tolerado?
Mas
a provocação dele não é um convite ao autoritarismo simples. É uma crítica à
ingenuidade de acreditar que toda forma de expressão, em qualquer contexto,
contribui igualmente para a liberdade. Algumas, segundo ele, fazem o oposto.
No
mundo de hoje
Se
a gente traz isso para o presente, o tema fica ainda mais espinhoso. Redes
sociais, algoritmos, polarização — tudo amplifica vozes de maneiras desiguais.
A ideia de “dar espaço a todos” muitas vezes convive com campanhas de
desinformação, discursos de ódio ou manipulação.
A
pergunta de Marcuse continua ecoando:
até
que ponto tolerar tudo é, na verdade, uma forma de permitir que o intolerável
prospere?
Um
incômodo necessário
O
ensaio de Marcuse não oferece soluções fáceis — e talvez esse seja seu maior
valor. Ele não nos deixa confortáveis na posição de “sou tolerante, logo estou
do lado certo”.
Pelo
contrário, ele nos empurra para uma zona desconfortável: a de perceber que a
tolerância, sem reflexão crítica, pode virar cumplicidade silenciosa.
No
fim, fica uma tensão que não se resolve facilmente:
queremos
liberdade de expressão, mas também queremos justiça.
E
às vezes, como Marcuse sugere, essas duas coisas entram em conflito.
Talvez
o desafio seja aprender a reconhecer quando a tolerância abre caminhos — e
quando ela apenas mantém as portas trancadas, com aparência de estarem abertas.