Entrei no café sem pensar muito. Era só mais um desses intervalos que a gente inventa para não precisar continuar sendo quem está sendo. O lugar não tinha nada de especial — algumas mesas, um balcão, o som distante de xícaras se encontrando como pequenos acidentes domésticos.
Sentei.
Pedi um
café.
E só
então percebi que alguém já estava sentado à minha frente.
Não
houve chegada, nem movimento de cadeira, nem aquele gesto mínimo que denuncia a
presença de outro. Ele simplesmente estava ali, como se tivesse sempre estado.
Não me assustei. E isso, olhando agora, talvez tenha sido o mais estranho.
— Você
demorou — disse.
Não
perguntei “para quê?”. Há perguntas que a gente evita não por falta de
curiosidade, mas por excesso de reconhecimento.
Fiquei
olhando para ele como se tentasse lembrar de onde o conhecia. Não era um rosto
familiar, mas havia algo nele que dispensava apresentações — como quando se
relê um trecho esquecido de um livro e, ainda assim, se sabe que aquilo já nos
pertenceu.
O café
chegou. O meu.
Ele não
pediu nada.
— Você
ainda toma sem açúcar — comentou, observando o vapor subir da xícara.
Assenti,
mais por reflexo do que por concordância. Não lembrava de ter dito isso a
ninguém. Nem mesmo a mim, talvez.
O
silêncio se acomodou entre nós, mas não era desconfortável. Era um silêncio
cheio — como se já estivesse preenchido por coisas que não precisavam mais ser
ditas.
Foi
então que resolvi perguntar:
— Estou
no caminho certo?
Ele não
respondeu de imediato. Passou o dedo pela borda da xícara, como quem testa a
realidade de um objeto.
— Certo
em relação a qual versão de você? — disse, por fim.
A
pergunta ficou suspensa no ar, como o vapor do café que já começava a
desaparecer. Tive vontade de rir, mas não havia humor ali. Apenas uma precisão
incômoda.
Pensei
nas escolhas que fiz, nas que adiei, nas que deixei escapar por distração ou
medo. Pensei, sobretudo, naquelas que nunca chegaram a existir — não por
impossibilidade, mas por falta de coragem.
— Existe
uma versão mais verdadeira? — perguntei, quase em tom de defesa.
Ele
inclinou levemente a cabeça, como quem considera a pergunta não pelo conteúdo,
mas pela intenção.
— Você
fala de verdade como se ela estivesse à sua frente, esperando ser escolhida.
Mas e se ela for apenas o que resta depois que você se evita?
Aquilo
me atingiu de um jeito estranho. Não era uma ideia nova, mas, dita ali, ganhava
um peso diferente — como se deixasse de ser pensamento e se tornasse evidência.
Lembrei
de uma frase de Søren Kierkegaard, sobre a angústia não ser um erro, mas
a própria vertigem da liberdade. Talvez fosse isso: não o medo de escolher
errado, mas o medo de perceber que qualquer escolha revela quem somos — ou quem
insistimos em não ser.
— E se
eu escolher mal? — insisti.
Ele
sorriu de leve. Não um sorriso de superioridade, mas de quem já viu essa
pergunta nascer muitas vezes.
— Você
já escolheu — respondeu. — A questão é: você está disposto a reconhecer o que
essa escolha fez de você?
O café
já estava quase frio. Dei um gole. O gosto parecia mais amargo do que de
costume, ou talvez mais honesto.
Olhei ao
redor. O café continuava o mesmo. As pessoas entravam, saíam, pediam, pagavam.
Ninguém parecia notar a presença dele. Ou talvez todos notassem — e escolhessem
não ver.
— Você
é… o quê? — arrisquei.
Ele não
respondeu diretamente. Em vez disso, perguntou:
— Você
viveria essa mesma vida novamente, exatamente assim?
A
pergunta ecoou em mim com um peso antigo. Lembrei de Friedrich Nietzsche
e sua provocação sobre o eterno retorno — não como teoria, mas como teste: se
tudo tivesse que se repetir, você diria sim?
Não
respondi.
Talvez
porque a resposta já estivesse dada, nas pequenas concessões diárias, nas
escolhas que fiz sem pensar e nas que deixei de fazer por pensar demais.
Quando
levantei os olhos novamente, ele ainda estava ali. Mas havia algo diferente —
não nele, em mim. Como se a conversa tivesse deslocado alguma peça interna que
eu nem sabia que existia.
— Você
vai embora? — perguntei.
— Eu
nunca chego — disse. — Nem vou.
Paguei o
café. Levantei.
Antes de
sair, olhei para a mesa. Duas xícaras.
Por um
instante, pensei em perguntar ao atendente se havia servido mais alguém ali.
Mas desisti. Algumas confirmações empobrecem a experiência.
Saí para
a rua.
O
movimento continuava o mesmo, como se nada tivesse acontecido. E, no entanto,
havia uma diferença sutil — como quando se percebe que algo sempre esteve ali,
mas só agora se tornou visível.
Caminhei
alguns metros e, por impulso, olhei para trás.
A mesa
estava vazia.
Ou
talvez sempre estivesse.
Segui
andando, com a estranha sensação de que algo tinha ficado naquele café.
Talvez o
café.
Talvez
uma versão de mim que, por um instante, tive coragem de encarar — e depois
deixei sentada ali, esperando que eu volte.

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