Tem
dias em que a gente não entende o próprio corpo. Você está ali, aparentemente
normal, e de repente — pronto — algo acontece por dentro. Um frio leve, uma
agitação, como se pequenos movimentos invisíveis atravessassem o ventre. Não é
dor, não é exatamente prazer. É outra coisa. É como se o corpo estivesse
dizendo algo antes mesmo da mente conseguir formular uma frase.
Chamamos
isso de “borboletas no estômago”. Mas talvez essa imagem seja menos uma
metáfora e mais uma pista.
O
corpo que pensa antes de nós
A
gente gosta de acreditar que pensa primeiro e sente depois. Que decide
racionalmente e o corpo apenas acompanha. Mas basta um encontro inesperado, uma
mensagem aguardada, ou até o simples nome de alguém aparecer na tela, para
perceber: não é bem assim.
O
corpo antecipa.
Antes
da ideia, vem o tremor. Antes da certeza, vem a inquietação. Como diria Friedrich
Nietzsche, há uma “grande razão” no corpo que a consciência raramente
alcança. As borboletas, então, seriam uma espécie de linguagem pré-verbal — uma
forma de conhecimento que não passa pela lógica, mas que ainda assim sabe.
Entre
o desejo e o desconhecido
As
borboletas aparecem, quase sempre, quando estamos diante de algo que importa. E
isso é curioso. Elas não surgem na repetição, no hábito, no previsível. Elas
surgem no risco.
Amar
alguém, por exemplo, é um risco. Não há garantias, não há contrato que segure o
outro. É por isso que o corpo reage: ele percebe a instabilidade antes que
possamos racionalizar.
Aqui,
a filosofia existencial pode ajudar. Jean-Paul Sartre falava da angústia
como a sensação de estar diante da própria liberdade. As borboletas no estômago
são uma versão mais sutil dessa angústia — não paralisante, mas vibrante. Elas
indicam que algo está aberto, que o futuro ainda não está decidido.
E
talvez seja exatamente isso que nos desestabiliza: a possibilidade.
No
cotidiano, isso aparece de formas simples. Antes de uma entrevista de emprego.
Ao falar em público. Ao esperar uma resposta importante. Ou até naquele
instante banal — mas carregado — em que você está prestes a dizer algo que pode
mudar uma relação.
O
corpo treme porque sabe: depois disso, nada será exatamente igual.
As
borboletas como bússola
A
tendência moderna é tentar eliminar esse tipo de sensação. Controlar, medicar,
racionalizar. Queremos segurança, previsibilidade, estabilidade. Mas ao fazer
isso, talvez estejamos eliminando também uma forma importante de orientação.
Porque
as borboletas apontam.
Elas
não dizem “vá” ou “não vá”, mas indicam que há algo vivo ali. Algo que importa.
Algo que toca o centro da experiência.
Nesse
sentido, ignorá-las completamente pode ser tão problemático quanto segui-las
cegamente. O desafio não é eliminar o desconforto, mas escutá-lo.
Há
uma sabedoria nisso que Blaise Pascal sugeria quando dizia que “o coração tem
razões que a própria razão desconhece”. Talvez o estômago também tenha.
Viver
é aceitar o voo
No
fim das contas, as borboletas no estômago são um lembrete de que estamos vivos
— e de que viver não é um estado estável. É movimento. É incerteza. É abertura.
Elas
aparecem quando estamos à beira de algo que pode nos transformar. E talvez seja
por isso que incomodam tanto: porque carregam a promessa de mudança.
A
questão não é se livrar delas.
É
aprender a conviver com esse pequeno voo interno — sabendo que, toda vez que
ele acontece, a vida está nos chamando para fora daquilo que já está decidido.
E,
convenhamos, quase tudo que vale a pena começa assim: meio incerto, meio
instável… e cheio de borboletas.

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