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quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Anestesia Social

Tem dias que a gente olha em volta e parece que todo mundo está meio desligado — como se a cidade fosse um grande hospital e o cotidiano estivesse passando anestesia na gente. Não dói, não incomoda, mas também não se sente muita coisa. Acordamos, trabalhamos, rolamos a tela do celular, rimos de memes, reclamamos um pouco do governo, e assim vai. O extraordinário virou rotina, e o incômodo foi dissolvido em pequenas doses de distração. É como se vivêssemos meio dormentes, para não sentir nem o peso da realidade nem o desconforto da mudança.

A anestesia social é justamente esse fenômeno: a suspensão das nossas reações, a neutralização das emoções coletivas, um jeito de evitar que algo se torne insuportável. Mas será que ela nos protege ou nos mantém submissos?

Pense numa fila de banco que demora uma hora. Todo mundo está insatisfeito, mas ninguém faz nada. Esperam. Mexem no celular. Falam mal em voz baixa. E no final, quando são atendidos, até agradecem. O mesmo acontece com salários que não acompanham o custo de vida, com injustiças políticas, com violências naturalizadas. Não se trata apenas de medo ou preguiça, mas de uma espécie de entorpecimento: a raiva é diluída, a indignação vira piada, e a esperança é adiada para depois.

Nas redes sociais, por exemplo, vemos notícias trágicas e, alguns segundos depois, um vídeo engraçado. O cérebro não tem tempo de processar a gravidade do que acabou de ler. Em menos de um minuto, passamos da guerra para o gato fofinho. É uma forma de anestesia digital. No trabalho, acontece algo semelhante: colegas explorados sorriem para manter o emprego, chefes abusivos são normalizados, e o descontentamento vira apenas conversa no cafezinho. Na política, a anestesia é ainda mais evidente: escândalos se empilham, mas não geram mobilização — geram memes. O riso vira um alívio temporário, e nada muda de fato.

O filósofo Herbert Marcuse, na sua crítica à sociedade industrial avançada, já falava disso. Ele chamava de “dessublimação repressiva”: quando o sistema libera pequenos prazeres, pequenas válvulas de escape, para evitar que as pessoas percebam que estão presas. Em outras palavras, damos risada, consumimos, nos distraímos — e seguimos anestesiados.

Mas há um problema nessa anestesia coletiva: ela não é uma cura. A dor que não sentimos continua lá, só que mascarada. Mais cedo ou mais tarde, a anestesia passa, e o impacto pode ser ainda maior. Sociedades que vivem adormecidas muitas vezes despertam de forma brusca, com explosões de revolta ou crises culturais.

A pergunta que fica é: precisamos mesmo sentir dor para mudar? Talvez sim. A dor é um sinal de que algo não vai bem. É o que nos faz retirar a mão do fogo. Quando a sociedade deixa de sentir, ela deixa de se proteger. A anestesia social é confortável, mas perigosa — porque impede que vejamos que algo precisa ser transformado.

Marcuse talvez dissesse que a tarefa do pensador, do artista, do educador é justamente tirar um pouco dessa anestesia, reativar a sensibilidade coletiva, para que possamos sentir de novo — e, sentindo, agir. Talvez o primeiro passo seja aprender a ficar desconfortável outra vez, a deixar que certas notícias nos toquem, que certas situações nos revoltem, que certos silêncios nos incomodem. Só assim a anestesia social perde o efeito, e a vida volta a pulsar.