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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Dessublimação Repressiva

O prazer como técnica de controle

Comecemos sem cerimônia: já não parece estranho que vivamos cercados de estímulos, prazeres rápidos, liberdade aparente — e, ainda assim, uma sensação difusa de esgotamento e conformismo persista? Como se algo estivesse profundamente errado não apesar do excesso de liberdade, mas por causa dele. É nesse terreno que emerge a ideia de “dessublimação repressiva”, formulada por Herbert Marcuse, um conceito que soa paradoxal à primeira vista: como pode a liberação dos desejos funcionar como um mecanismo de repressão?

Para entender o ponto, vale recuar à noção clássica de sublimação em Sigmund Freud. Na teoria freudiana, a sublimação é o processo pelo qual impulsos primitivos — sobretudo sexuais e agressivos — são transformados em atividades socialmente valorizadas, como arte, ciência ou filosofia. A cultura, nesse sentido, nasce de uma tensão: o desejo é reprimido, mas também redirecionado criativamente. Já Marcuse, escrevendo no contexto do capitalismo avançado do século XX, percebe uma mutação desse processo: em vez de sublimar, a sociedade passa a permitir a expressão direta de certos desejos — mas de forma controlada, superficial e integrada ao sistema de consumo.

Essa “dessublimação” não é libertação genuína. Ao contrário, é uma estratégia sofisticada de integração. O indivíduo é convidado a satisfazer seus impulsos — desde que o faça dentro dos circuitos mercadológicos e simbólicos previamente definidos. O prazer deixa de ser subversivo e torna-se funcional. O erotismo, por exemplo, é amplamente exibido, mas esvaziado de sua potência crítica; transforma-se em mercadoria, publicidade, algoritmo. A rebeldia é vendida como estilo de vida. O desejo é domesticado não pela proibição, mas pela saturação.

Aqui, a leitura de Friedrich Nietzsche ilumina um aspecto crucial: a cultura moderna tende a transformar forças vitais em formas de domesticação. Nietzsche denunciava uma moral que enfraquece a potência do indivíduo ao invés de intensificá-la. Em Marcuse, essa domesticação assume um formato mais sutil: não se trata mais de negar o desejo, mas de moldá-lo de tal modo que ele nunca ameace a ordem estabelecida. A vontade é canalizada para circuitos previsíveis, repetitivos, anestesiantes.

Por outro lado, Theodor Adorno e Max Horkheimer, ao analisarem a indústria cultural, já haviam apontado para esse fenômeno: a cultura de massa produz entretenimento que simula liberdade, mas na prática reforça padrões de comportamento. A novidade constante esconde uma repetição estrutural. O consumidor acredita escolher, mas suas escolhas são previamente moldadas.

Se deslocarmos essa análise para o presente, encontramos ecos intensificados na crítica de Byung-Chul Han. Para Han, vivemos numa “sociedade do desempenho”, na qual a repressão externa cede lugar à autoexploração. O sujeito acredita ser livre porque não há uma autoridade explícita que o oprima — mas essa liberdade é, na verdade, um imperativo de produtividade e otimização constante. Nesse cenário, a dessublimação repressiva assume uma nova forma: o prazer torna-se uma obrigação. É preciso desfrutar, mostrar, performar felicidade.

A tecnologia amplifica esse mecanismo. Plataformas digitais operam como dispositivos de dessublimação contínua: oferecem gratificação imediata, estímulos constantes, reconhecimento instantâneo. No entanto, essa abundância de prazer fragmenta a atenção, enfraquece a reflexão e dificulta qualquer forma de negatividade crítica — aquilo que, para Marcuse, seria essencial à emancipação. O sujeito não é impedido de desejar; ele é inundado por desejos pré-fabricados.

Há, portanto, uma dimensão política decisiva. A dessublimação repressiva funciona como uma técnica de governo: ao integrar o prazer ao sistema, neutraliza-se a possibilidade de resistência. Se o indivíduo sente que seus desejos estão sendo atendidos, por que questionaria a estrutura que os fornece? O conflito — motor da transformação — é amortecido. A crítica é absorvida como mais um produto.

Mas essa lógica não é total nem definitiva. A própria saturação pode gerar fissuras. Quando o prazer se torna obrigatório, ele perde sua força; quando tudo é permitido, algo se esvazia. Surge então um mal-estar que não pode ser facilmente consumido ou descartado. Talvez aí resida a possibilidade de uma nova forma de sublimação — não no sentido clássico de repressão criativa, mas como reapropriação do desejo fora das lógicas de captura.

Retomar o desejo como potência crítica implica recuperar a capacidade de dizer não, de sustentar o vazio, de resistir à imediaticidade. Em outras palavras, implica reinserir a negatividade na experiência. Contra a dessublimação repressiva, não se trata de negar o prazer, mas de libertá-lo da função que lhe foi atribuída: a de manter tudo exatamente como está.

No fim, a pergunta permanece aberta: estamos realmente mais livres porque podemos desejar mais — ou apenas mais integrados a um sistema que aprendeu a desejar por nós?

 

domingo, 12 de abril de 2026

Tolerância Repressiva

A Aparência de Liberdade

Falar em tolerância costuma soar bonito — quase automático: ser tolerante é ser justo, aberto, civilizado. Mas quando Herbert Marcuse escreve sobre “tolerância repressiva”, ele vira essa ideia de cabeça para baixo. E o desconforto começa aí: e se aquilo que chamamos de tolerância for, na prática, uma forma sofisticada de manter tudo como está?


A tolerância que mantém o mundo intacto

Marcuse escreve seu ensaio Repressive Tolerance nos anos 1960, em meio a protestos, Guerra Fria e disputas ideológicas intensas. A crítica dele é direta: nas sociedades modernas, especialmente as democráticas liberais, a tolerância não é neutra — ela pode funcionar como instrumento de dominação.

A lógica é quase irônica. Ao permitir “todas as opiniões”, inclusive aquelas que sustentam desigualdades, preconceitos ou estruturas injustas, o sistema cria uma aparência de liberdade. Mas essa liberdade não é equilibrada. Algumas vozes têm megafones — mídia, poder econômico, influência política — enquanto outras mal conseguem ser ouvidas.

Assim, a tolerância indiscriminada não nivela o jogo; ela o congela.


Quando “ouvir todos os lados” vira um problema

No cotidiano, isso aparece de forma muito familiar. Imagine uma discussão sobre um tema social delicado — desigualdade, racismo, direitos. Em nome da tolerância, alguém diz: “vamos ouvir todos os lados”.

Parece justo. Mas Marcuse perguntaria: todos os lados têm o mesmo peso histórico, o mesmo acesso à fala, a mesma capacidade de influenciar?

Se um lado representa grupos historicamente oprimidos e o outro representa estruturas que os oprimem, tratar ambos como equivalentes pode ser menos justo do que parece. A tolerância, nesse caso, funciona como uma espécie de anestesia moral: ela suaviza conflitos que talvez precisassem ser enfrentados com mais clareza.


A neutralidade que favorece o mais forte

Para Marcuse, a chamada neutralidade institucional — da mídia, da educação, do debate público — muitas vezes não é neutra de verdade. Ao evitar tomar posição, ela tende a favorecer o status quo.

É como um jogo em que um time começa com vantagem enorme. Se o juiz decide “não interferir para ser imparcial”, ele, na prática, legitima a desigualdade inicial.

A tolerância repressiva, então, não reprime proibindo — ela reprime permitindo. Permite tudo, mas dentro de uma estrutura que já define quem vai vencer.


A ideia radical de intolerância seletiva

Aqui está o ponto mais polêmico do pensamento de Marcuse: ele sugere que, para haver uma sociedade realmente livre, pode ser necessário ser intolerante com discursos e práticas que perpetuam opressão.

Isso soa perigoso — e é mesmo um terreno delicado. Afinal, quem decide o que deve ou não ser tolerado?

Mas a provocação dele não é um convite ao autoritarismo simples. É uma crítica à ingenuidade de acreditar que toda forma de expressão, em qualquer contexto, contribui igualmente para a liberdade. Algumas, segundo ele, fazem o oposto.


No mundo de hoje

Se a gente traz isso para o presente, o tema fica ainda mais espinhoso. Redes sociais, algoritmos, polarização — tudo amplifica vozes de maneiras desiguais. A ideia de “dar espaço a todos” muitas vezes convive com campanhas de desinformação, discursos de ódio ou manipulação.

A pergunta de Marcuse continua ecoando:

até que ponto tolerar tudo é, na verdade, uma forma de permitir que o intolerável prospere?


Um incômodo necessário

O ensaio de Marcuse não oferece soluções fáceis — e talvez esse seja seu maior valor. Ele não nos deixa confortáveis na posição de “sou tolerante, logo estou do lado certo”.

Pelo contrário, ele nos empurra para uma zona desconfortável: a de perceber que a tolerância, sem reflexão crítica, pode virar cumplicidade silenciosa.

No fim, fica uma tensão que não se resolve facilmente:

queremos liberdade de expressão, mas também queremos justiça.

E às vezes, como Marcuse sugere, essas duas coisas entram em conflito.

Talvez o desafio seja aprender a reconhecer quando a tolerância abre caminhos — e quando ela apenas mantém as portas trancadas, com aparência de estarem abertas.


quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Anestesia Social

Tem dias que a gente olha em volta e parece que todo mundo está meio desligado — como se a cidade fosse um grande hospital e o cotidiano estivesse passando anestesia na gente. Não dói, não incomoda, mas também não se sente muita coisa. Acordamos, trabalhamos, rolamos a tela do celular, rimos de memes, reclamamos um pouco do governo, e assim vai. O extraordinário virou rotina, e o incômodo foi dissolvido em pequenas doses de distração. É como se vivêssemos meio dormentes, para não sentir nem o peso da realidade nem o desconforto da mudança.

A anestesia social é justamente esse fenômeno: a suspensão das nossas reações, a neutralização das emoções coletivas, um jeito de evitar que algo se torne insuportável. Mas será que ela nos protege ou nos mantém submissos?

Pense numa fila de banco que demora uma hora. Todo mundo está insatisfeito, mas ninguém faz nada. Esperam. Mexem no celular. Falam mal em voz baixa. E no final, quando são atendidos, até agradecem. O mesmo acontece com salários que não acompanham o custo de vida, com injustiças políticas, com violências naturalizadas. Não se trata apenas de medo ou preguiça, mas de uma espécie de entorpecimento: a raiva é diluída, a indignação vira piada, e a esperança é adiada para depois.

Nas redes sociais, por exemplo, vemos notícias trágicas e, alguns segundos depois, um vídeo engraçado. O cérebro não tem tempo de processar a gravidade do que acabou de ler. Em menos de um minuto, passamos da guerra para o gato fofinho. É uma forma de anestesia digital. No trabalho, acontece algo semelhante: colegas explorados sorriem para manter o emprego, chefes abusivos são normalizados, e o descontentamento vira apenas conversa no cafezinho. Na política, a anestesia é ainda mais evidente: escândalos se empilham, mas não geram mobilização — geram memes. O riso vira um alívio temporário, e nada muda de fato.

O filósofo Herbert Marcuse, na sua crítica à sociedade industrial avançada, já falava disso. Ele chamava de “dessublimação repressiva”: quando o sistema libera pequenos prazeres, pequenas válvulas de escape, para evitar que as pessoas percebam que estão presas. Em outras palavras, damos risada, consumimos, nos distraímos — e seguimos anestesiados.

Mas há um problema nessa anestesia coletiva: ela não é uma cura. A dor que não sentimos continua lá, só que mascarada. Mais cedo ou mais tarde, a anestesia passa, e o impacto pode ser ainda maior. Sociedades que vivem adormecidas muitas vezes despertam de forma brusca, com explosões de revolta ou crises culturais.

A pergunta que fica é: precisamos mesmo sentir dor para mudar? Talvez sim. A dor é um sinal de que algo não vai bem. É o que nos faz retirar a mão do fogo. Quando a sociedade deixa de sentir, ela deixa de se proteger. A anestesia social é confortável, mas perigosa — porque impede que vejamos que algo precisa ser transformado.

Marcuse talvez dissesse que a tarefa do pensador, do artista, do educador é justamente tirar um pouco dessa anestesia, reativar a sensibilidade coletiva, para que possamos sentir de novo — e, sentindo, agir. Talvez o primeiro passo seja aprender a ficar desconfortável outra vez, a deixar que certas notícias nos toquem, que certas situações nos revoltem, que certos silêncios nos incomodem. Só assim a anestesia social perde o efeito, e a vida volta a pulsar.