O
mundo comum não é o mundo ideal, nem o mundo sonhado. É esse aqui mesmo: a fila
do mercado, o bom dia meio automático no elevador, o grupo da família no
WhatsApp, o barulho da rua entrando pela janela. É nele que a vida insiste em acontecer
— mesmo quando a gente fantasia que a vida “de verdade” está em outro lugar.
Costumamos
desprezar o mundo comum porque ele não brilha. Ele não tem épica. Não vem com
trilha sonora. É feito de repetições: acordar, trabalhar, resolver pequenas
pendências, cansar, dormir. Mas é justamente aí que mora algo curioso: tudo o
que é decisivo passa por esse chão banal. As grandes escolhas quase sempre
nascem de situações pequenas, aparentemente insignificantes.
Percebo
isso quando converso com alguém no trabalho sobre um assunto qualquer e, no
meio da conversa, algo se desloca por dentro. Ou quando um gesto simples —
alguém segurando a porta, alguém escutando de verdade — reorganiza
silenciosamente o meu dia. O mundo comum não nos transforma por choque, mas por
atrito. Ele nos desgasta, mas também nos molda.
Hannah
Arendt falava do mundo comum como esse espaço
compartilhado onde aparecemos uns para os outros. Não é só o mundo físico, mas
o mundo das relações, das palavras trocadas, das ações visíveis. Quando esse
mundo se empobrece — quando ninguém escuta, quando tudo vira ruído — a vida
pública adoece, e a vida interior vai junto. Sem mundo comum, cada um fica
preso na própria bolha, acreditando que pensa sozinho o que, na verdade, apenas
repete.
No
cotidiano, isso aparece de forma quase cômica: todos reclamam das mesmas
coisas, fazem as mesmas piadas, reproduzem as mesmas indignações prontas.
Parece diversidade, mas é só um coro desafinado. O mundo comum vira um eco, não
um encontro.
Talvez
o desafio não seja fugir dele, mas reaprender a habitá-lo. Estar presente de
verdade numa conversa trivial. Não tratar o dia como um intervalo entre dois
momentos “importantes”. O mundo comum pede atenção — não intensidade. Pede
constância, não heroísmo.
No
fim das contas, não é fora do mundo comum que nos tornamos quem somos. É nele.
Com suas repetições, suas pequenas frustrações, suas alegrias discretas. Quem
despreza o mundo comum costuma acabar vivendo num mundo imaginário. Quem
aprende a escutá-lo descobre que, mesmo silencioso, ele está sempre dizendo
algo.