Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador silencioso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador silencioso. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Desgarrados


Fiquei remoendo no pensamento a palavra “desgarrados”, certamente associada as minhas observações, percebi que nem toda solidão nasce da ausência de pessoas — algumas nascem da ausência de sentido. Comecei a notar rostos presentes e almas deslocadas, risos que não repousavam em ninguém, conversas que não encontravam morada. E então entendi que havia um tipo de humano que não estava perdido, mas desalojado por dentro. Não por fracasso, mas por excesso de lucidez. Foi desse incômodo silencioso, dessa sensação de não caber sem querer fugir, que surgiu a necessidade de pensar os desgarrados. Não como excluídos, mas como consciências que já não conseguem habitar as certezas que o mundo oferece.

Há pessoas que não se perdem — se desgarram. E há uma diferença profunda entre uma coisa e outra. Quem se perde quer voltar. Quem se desgarra, muitas vezes, nem sabe mais de onde saiu.

Os desgarrados não fazem barulho. Eles caminham à margem, com uma estranha mistura de lucidez e cansaço. Não pertencem por inteiro, mas também não se rebelam o suficiente para romper. São estrangeiros dentro da própria rotina.

O desgarro no cotidiano

O desgarrado pode estar na mesa do almoço em família e sentir-se visitante. Pode estar no trabalho e não se reconhecer no que faz. Pode estar entre amigos e ainda assim sentir solidão. Não por rejeição externa, mas por deslocamento interno.

Ele não se sente excluído. Ele se sente fora de eixo.

E isso é mais silencioso que a exclusão.

Desgarrar-se não é fraqueza

Vivemos numa cultura que exalta pertencimento: tribos, grupos, lados, rótulos, identidades rígidas. O desgarrado é visto como indeciso, estranho, instável. Mas talvez ele seja apenas alguém que percebeu cedo demais que nenhum lugar é completo.

Desgarrar-se é perceber que o mundo oferece papéis, mas não garante sentido.

Albert Camus descreveu esse estado como o sentimento do absurdo: o momento em que o ser humano percebe a distância entre o desejo de sentido e o silêncio do mundo. Para Camus, o desgarrado não é um derrotado, mas alguém que acordou. Ele não foge da vida, mas se recusa a mentir para ela. O desgarro, então, não é alienação — é lucidez sem anestesia.

O risco e a dignidade do desgarro

O risco do desgarrado é o cinismo. A dignidade é a honestidade. Ele pode cair na indiferença ou transformar o desencaixe em busca. O mesmo desgarro que isola também pode libertar.

Porque quem não pertence por inteiro a lugar nenhum pode, finalmente, pertencer a si.

Desgarrados não são vazios

Eles apenas não aceitam preenchimentos fáceis. Não se contentam com respostas prontas, com pertencimentos automáticos, com verdades herdadas. Eles carregam uma solidão que não é ausência — é espaço.

Espaço para pensar.

Espaço para sentir.

Espaço para reconstruir.

No fim, todos somos um pouco desgarrados

Em algum momento da vida, todos nos soltamos de algo: de uma crença, de uma pessoa, de uma versão de nós mesmos. Alguns chamam isso de crise. Outros chamam de maturidade. Talvez seja apenas o preço de deixar de viver emprestado.

Os desgarrados não têm mapa.

Mas têm direção: para dentro.

E às vezes, isso já é a forma mais rara de pertencimento.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Mundo Comum


O mundo comum não é o mundo ideal, nem o mundo sonhado. É esse aqui mesmo: a fila do mercado, o bom dia meio automático no elevador, o grupo da família no WhatsApp, o barulho da rua entrando pela janela. É nele que a vida insiste em acontecer — mesmo quando a gente fantasia que a vida “de verdade” está em outro lugar.

Costumamos desprezar o mundo comum porque ele não brilha. Ele não tem épica. Não vem com trilha sonora. É feito de repetições: acordar, trabalhar, resolver pequenas pendências, cansar, dormir. Mas é justamente aí que mora algo curioso: tudo o que é decisivo passa por esse chão banal. As grandes escolhas quase sempre nascem de situações pequenas, aparentemente insignificantes.

Percebo isso quando converso com alguém no trabalho sobre um assunto qualquer e, no meio da conversa, algo se desloca por dentro. Ou quando um gesto simples — alguém segurando a porta, alguém escutando de verdade — reorganiza silenciosamente o meu dia. O mundo comum não nos transforma por choque, mas por atrito. Ele nos desgasta, mas também nos molda.

Hannah Arendt falava do mundo comum como esse espaço compartilhado onde aparecemos uns para os outros. Não é só o mundo físico, mas o mundo das relações, das palavras trocadas, das ações visíveis. Quando esse mundo se empobrece — quando ninguém escuta, quando tudo vira ruído — a vida pública adoece, e a vida interior vai junto. Sem mundo comum, cada um fica preso na própria bolha, acreditando que pensa sozinho o que, na verdade, apenas repete.

No cotidiano, isso aparece de forma quase cômica: todos reclamam das mesmas coisas, fazem as mesmas piadas, reproduzem as mesmas indignações prontas. Parece diversidade, mas é só um coro desafinado. O mundo comum vira um eco, não um encontro.

Talvez o desafio não seja fugir dele, mas reaprender a habitá-lo. Estar presente de verdade numa conversa trivial. Não tratar o dia como um intervalo entre dois momentos “importantes”. O mundo comum pede atenção — não intensidade. Pede constância, não heroísmo.

No fim das contas, não é fora do mundo comum que nos tornamos quem somos. É nele. Com suas repetições, suas pequenas frustrações, suas alegrias discretas. Quem despreza o mundo comum costuma acabar vivendo num mundo imaginário. Quem aprende a escutá-lo descobre que, mesmo silencioso, ele está sempre dizendo algo.

domingo, 3 de agosto de 2025

Acomismo

O mundo que se desfez de seu centro

Na correria do dia a dia, às vezes parece que tudo está acontecendo ao mesmo tempo e em nenhum lugar. A mesa do café virou escritório, o celular virou praça pública, e o que antes era sagrado, como o silêncio, virou luxo raro. A vida moderna parece viver um esvaziamento sutil, como se algo central tivesse sido removido. É aí que entra o conceito de acomismo — um estado em que o mundo já não é mais compreendido como cosmos, ou seja, como um todo ordenado, com centro, direção ou sentido.

O termo "acomismo" pode ser entendido como a ausência de cosmos, ou a perda da ideia de um mundo organizado por princípios compartilhados. O cosmos, para os gregos, era beleza, ordem e harmonia. Era o mundo visto como uma jóia que reluz com sentido. Acomismo, por contraste, é o mundo sem narrativa comum, fragmentado, onde cada um vive em sua bolha algorítmica, onde até os afetos são customizados.

O filósofo francês Michel Foucault nos ajuda a pensar essa condição quando afirma que o homem moderno é um ser "descentrado". Em suas palavras, no prefácio de As Palavras e as Coisas, ele diz que talvez o homem moderno esteja próximo de seu fim — “como uma figura desenhada na areia à beira-mar”. Para Foucault, as estruturas que sustentavam o saber e o sujeito foram implodidas. O acomismo seria, então, a vida no pós-terremoto, quando o chão já não dá mais garantias.

Na prática, vivemos o acomismo quando percebemos que não há mais autoridade comum que organize a convivência — a verdade virou questão de gosto, a política virou torcida, a ética virou marca pessoal. Em vez de compartilharmos um mundo, nos conectamos por afinidades imediatas, mas nos desencontramos no essencial. Acomismo é essa sensação de viver numa realidade que perdeu o contorno do real.

Mas há uma possibilidade nesse esvaziamento: ao percebermos o acomismo, podemos desejar reconstituir algum tipo de centro — não o antigo, hierárquico e imposto, mas um centro construído a partir do encontro, da escuta e da responsabilidade comum. Pode ser um reencantamento silencioso, uma busca modesta, talvez, por uma nova forma de cosmos — menos cósmica, mais cotidiana.

No fundo, talvez o acomismo não seja apenas a ruína, mas o intervalo em que decidimos se vamos continuar como poeira flutuando… ou se vamos, juntos, desenhar novamente a figura do mundo.