Fiquei
remoendo no pensamento a palavra “desgarrados”, certamente associada as minhas
observações, percebi que nem toda solidão nasce da ausência de pessoas —
algumas nascem da ausência de sentido. Comecei a notar rostos presentes e almas
deslocadas, risos que não repousavam em ninguém, conversas que não encontravam
morada. E então entendi que havia um tipo de humano que não estava perdido, mas
desalojado por dentro. Não por fracasso, mas por excesso de lucidez. Foi desse
incômodo silencioso, dessa sensação de não caber sem querer fugir, que surgiu a
necessidade de pensar os desgarrados. Não como excluídos, mas como consciências
que já não conseguem habitar as certezas que o mundo oferece.
Há
pessoas que não se perdem — se desgarram. E há uma diferença profunda entre uma
coisa e outra. Quem se perde quer voltar. Quem se desgarra, muitas vezes, nem
sabe mais de onde saiu.
Os
desgarrados não fazem barulho. Eles caminham à margem, com uma estranha mistura
de lucidez e cansaço. Não pertencem por inteiro, mas também não se rebelam o
suficiente para romper. São estrangeiros dentro da própria rotina.
O
desgarro no cotidiano
O
desgarrado pode estar na mesa do almoço em família e sentir-se visitante. Pode
estar no trabalho e não se reconhecer no que faz. Pode estar entre amigos e
ainda assim sentir solidão. Não por rejeição externa, mas por deslocamento
interno.
Ele
não se sente excluído. Ele se sente fora de eixo.
E
isso é mais silencioso que a exclusão.
Desgarrar-se
não é fraqueza
Vivemos
numa cultura que exalta pertencimento: tribos, grupos, lados, rótulos,
identidades rígidas. O desgarrado é visto como indeciso, estranho, instável.
Mas talvez ele seja apenas alguém que percebeu cedo demais que nenhum lugar é
completo.
Desgarrar-se
é perceber que o mundo oferece papéis, mas não garante sentido.
Albert
Camus descreveu esse estado como o sentimento do absurdo: o
momento em que o ser humano percebe a distância entre o desejo de sentido e o
silêncio do mundo. Para Camus, o desgarrado não é um derrotado, mas alguém que
acordou. Ele não foge da vida, mas se recusa a mentir para ela. O desgarro,
então, não é alienação — é lucidez sem anestesia.
O
risco e a dignidade do desgarro
O
risco do desgarrado é o cinismo. A dignidade é a honestidade. Ele pode cair na
indiferença ou transformar o desencaixe em busca. O mesmo desgarro que isola
também pode libertar.
Porque
quem não pertence por inteiro a lugar nenhum pode, finalmente, pertencer a si.
Desgarrados
não são vazios
Eles
apenas não aceitam preenchimentos fáceis. Não se contentam com respostas
prontas, com pertencimentos automáticos, com verdades herdadas. Eles carregam
uma solidão que não é ausência — é espaço.
Espaço
para pensar.
Espaço
para sentir.
Espaço
para reconstruir.
No
fim, todos somos um pouco desgarrados
Em
algum momento da vida, todos nos soltamos de algo: de uma crença, de uma
pessoa, de uma versão de nós mesmos. Alguns chamam isso de crise. Outros chamam
de maturidade. Talvez seja apenas o preço de deixar de viver emprestado.
Os
desgarrados não têm mapa.
Mas
têm direção: para dentro.
E
às vezes, isso já é a forma mais rara de pertencimento.