Quando o parecer vence o ser
Há
valores que se sustentam pelo peso do que são; outros, pelo brilho do que
parecem. O valor sofístico nasce exatamente nesse intervalo escorregadio entre verdade
e convencimento, entre conteúdo e performance. Ele não
nega a verdade — apenas a considera secundária. O que importa é o efeito
produzido: adesão, impacto, vitória no discurso.
Na
Grécia Antiga, os sofistas foram os primeiros a compreender algo profundamente
moderno: a verdade, quando entra na arena pública, precisa de forma para
sobreviver. Górgias, Protágoras e companhia sabiam que ideias
nuas raramente convencem. É preciso vesti-las. A crítica platônica, porém,
apontava o perigo: quando a retórica se emancipa da verdade, o valor passa a
residir não no que é dito, mas no modo como se diz.
Esse
deslocamento é o núcleo do valor sofístico.
Valor
sem essência
O
valor sofístico não é exatamente falso. Ele é independente da verdade.
Algo pode ser verdadeiro e ainda assim não ter valor sofístico algum — se não
convencer. Da mesma forma, algo pode ser frágil, raso ou até enganoso, mas
adquirir enorme valor sofístico se for bem apresentado.
Aqui,
o valor deixa de ser ontológico (ligado ao ser) e torna-se relacional:
vale aquilo que funciona em determinado contexto. É um valor pragmático,
instrumental. Aristóteles já distinguia a retórica da dialética
justamente por isso: a retórica opera no campo do provável, não do necessário.
O
sofista entende que, no mundo humano, o necessário raramente governa. Quem
governa é o verossímil.
A
estética do argumento
O
valor sofístico é estético antes de ser ético. Ele se ancora no ritmo da fala,
na segurança do tom, na escolha das palavras, na autoridade simbólica de quem
fala. Pierre Bourdieu chamaria isso de capital simbólico:
o poder de ser levado a sério antes mesmo de ser compreendido.
Por
isso, muitas ideias não fracassam por serem ruins, mas por serem mal encenadas.
Outras prosperam não por sua profundidade, mas por sua embalagem discursiva.
O valor sofístico transforma o argumento em espetáculo — e o espetáculo, em
critério de valor.
Guy
Debord diria que, nesse processo, o conteúdo se dissolve na
aparência. Baudrillard iria além: já não se trata sequer de
aparência, mas de simulação — argumentos que não remetem a nenhuma
realidade sólida, apenas a outros discursos igualmente performáticos.
O
retorno triunfal na modernidade
Se
Platão estivesse vivo hoje, provavelmente não escreveria A
República, mas um tratado sobre redes sociais. Nunca o valor sofístico foi
tão eficiente. Likes, engajamento, viralização: métricas puramente sofísticas.
Não medem verdade, apenas aderência.
O
discurso político, o marketing pessoal, o debate moral online — tudo opera
segundo a lógica do valor sofístico. O argumento não precisa ser bom; precisa
ser compartilhável. Não precisa ser justo; precisa ser afirmativo.
Não precisa ser verdadeiro; precisa ser convincente em 30 segundos.
Nesse
cenário, o valor deixa de ser algo a ser descoberto e passa a ser algo a ser fabricado.
O
dilema ético
O
problema do valor sofístico não é sua existência — ele é inevitável. Toda
comunicação envolve forma, persuasão, escolha estratégica. O problema surge
quando ele se torna exclusivo, quando substitui qualquer compromisso com
a verdade, o bem ou a responsabilidade.
Platão
temia exatamente isso: uma sociedade governada não pelos mais justos, mas pelos
mais eloquentes. Uma sociedade onde a opinião bem vestida vence o pensamento
mal articulado. Onde parecer supera ser.
No
entanto, rejeitar completamente o valor sofístico é ingenuidade. O desafio
contemporâneo talvez não seja eliminá-lo, mas domesticá-lo: fazer com
que a forma sirva ao conteúdo, e não o devore.
Um
valor espelhado
Talvez
a questão mais inquietante seja esta: o valor sofístico não está apenas “lá
fora”, nos discursos dos outros. Ele habita nossas escolhas diárias. Quando
preferimos a resposta inteligente à resposta honesta. Quando escolhemos parecer
coerentes em vez de admitir dúvida. Quando defendemos uma ideia não porque
acreditamos nela, mas porque já a defendemos em público.
Nesse
ponto, o valor sofístico deixa de ser um problema filosófico abstrato e se
torna um problema existencial.
O
valor sofístico é um espelho desconfortável. Ele revela que, no mundo humano, o
valor raramente é puro. Ele é negociado, encenado, disputado. A questão
decisiva não é se usaremos a retórica — isso é inevitável — mas a serviço de
quê.
Entre
convencer e compreender, entre vencer o debate e aprofundar o pensamento, o
valor sofístico sempre oferecerá o caminho mais curto. Cabe a nós decidir se o
atalho vale o preço.
Porque,
no fim, há uma diferença silenciosa — mas decisiva — entre ter valor e parecer
valioso.