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domingo, 9 de novembro de 2025

Classe Dominante

A sala de quem comanda

Outro dia, enquanto eu esperava no saguão de um prédio empresarial — daqueles com cheiro de carpete novo e café requentado — percebi algo curioso: há uma coreografia invisível entre quem entra e quem manda. O segurança aperta o crachá no peito, o estagiário olha o chão, o executivo fala alto ao telefone, como se o tom de voz também fosse um crachá simbólico. É ali, naquele pequeno teatro cotidiano, que a noção de classe dominante se revela — não apenas como um grupo de poder econômico, mas como uma cultura inteira que se expressa nos gestos, nas palavras, nas certezas.

Marx, claro, foi quem escancarou o termo: a classe dominante é aquela que controla os meios de produção e, por consequência, as ideias que circulam. “As ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante”, ele escreveu. Ou seja, não basta deter o capital — é preciso também administrar o imaginário. Não é só o dinheiro que compra o luxo; compra-se também o discurso, a moral, o gosto e até o senso de justiça.

Pierre Bourdieu aprofunda essa visão ao mostrar que a dominação não se mantém apenas pela força, mas pela violência simbólica. Ela acontece quando os dominados aceitam, quase sem perceber, o jogo do dominador. É quando o trabalhador acredita que não lê porque “não nasceu pra isso”, ou quando a estudante pobre sente vergonha do próprio sotaque na universidade. O poder mais eficaz é aquele que não precisa se impor: ele se infiltra, educa o olhar e define o que é “natural”.

Max Weber, por sua vez, lembra que a dominação pode se legitimar de modos distintos — pela tradição, pelo carisma ou pela legalidade racional. Hoje, o poder se legitima sobretudo pelo discurso da competência: quem domina não se apresenta mais como “rico” ou “herdeiro”, mas como “eficiente”, “empreendedor”, “inovador”. A ideologia da meritocracia é o novo terno bem passado da classe dominante: limpa, elegante, e perfeitamente ajustada para esconder a origem das desigualdades.

Mas o palco da dominação mudou de cenário. Se antes ela se manifestava nas fábricas e nos escritórios, hoje ela se exibe nas redes sociais. O feed se tornou o novo saguão de poder — um espaço onde se performa sucesso, felicidade e autoridade. A classe dominante aprendeu a usar o algoritmo como ferramenta de distinção: quanto mais visibilidade, mais poder simbólico. É uma espécie de Bourdieu digital, em que o capital cultural se mede por seguidores, e o capital econômico se mascara de estilo de vida.

O curioso é que muitos dos que assistem a esse espetáculo virtual acreditam estar participando dele. Curtir é o novo ajoelhar; compartilhar, o novo acenar respeitoso. As redes, que prometiam democratizar a voz, acabaram amplificando o poder de quem já tinha palco. O discurso do “todos podem” esconde o velho mecanismo: só fala quem é ouvido, e só é ouvido quem se encaixa no padrão dominante. A dominação, agora, veste filtros e hashtags.

E mesmo diante dessa estrutura, a maioria de nós sonha em subir de classe — e raramente em mudar o jogo. Sonhamos em ter um cargo de chefia, não em questionar o porquê de haver tantos chefiados. Essa é talvez a vitória mais sutil da classe dominante: transformar o desejo de liberdade em desejo de ascensão.

No fundo, a dominação não é apenas um fato econômico, mas um fenômeno espiritual, como sugeriria N. Sri Ram: ela nasce de uma consciência que se crê separada. Enquanto houver quem se perceba como superior por natureza ou posição, haverá dominação. O desafio não é abolir as classes apenas na economia, mas também na percepção — perceber o outro não como degrau, mas como espelho.

E, voltando ao saguão do prédio, talvez seja ali, nas pequenas reverências do cotidiano — e agora também nos silêncios virtuais — que a dominação se sustenta. O crachá, o tom de voz, o número de curtidas, o medo de não “pertencer” — tudo isso compõe a liturgia do poder. A classe dominante não mora apenas nas coberturas: ela mora nas cabeças e nos algoritmos.

No Brasil, esse fenômeno assume cores próprias. A elite econômica, herdeira de uma estrutura colonial e patrimonialista, mantém seu poder não apenas pelo capital acumulado, mas pela influência sobre o discurso público — especialmente via mídia e política. Como diria Jessé Souza, em A elite do atraso, há um “consórcio simbólico” entre a elite financeira, a elite jurídica e os meios de comunicação, que naturaliza a desigualdade e transforma privilégios em virtudes. A classe dominante brasileira é mestre em reembalar o velho autoritarismo com vocabulário moderno: fala em “liberdade de mercado” enquanto mantém o povo cativo na dependência e no medo.

Vivemos, assim, uma forma tropical de dominação simbólica, em que o poder se mascara de competência e o privilégio se disfarça de mérito. O resultado é um país que acredita estar se modernizando, enquanto repete as hierarquias de sempre.

Talvez a verdadeira revolução comece quando, ao atravessar o saguão — físico, digital ou institucional —, deixarmos de abaixar os olhos.

sábado, 12 de julho de 2025

Priming

A sugestão invisível do ser



Estava sorvendo meu mate quente entre as mãos e, sem perceber, já estava me sentindo mais aberto à conversa. Algo no calor, no vapor subindo, na pausa do gesto, parecia me convidar ao acolhimento. Logo pensei, não é só costume ou tradição — é como se o corpo, ao sentir o calor, se lembrasse de como é bom confiar. E é aí que me veio a história do priming: aquele efeito curioso em que estímulos sutis moldam nossos pensamentos e atitudes, mesmo sem a gente notar. Como um mate que, antes de esquentar por dentro, aquece por fora e muda o jeito que olhamos o outro.

Vivemos sob a impressão de que escolhemos. A cada passo, a cada palavra, imaginamos que uma vontade sólida nos guia, que um “eu” pensante, firme e indivisível, decide o rumo da vida. No entanto, a teoria do priming, oriunda da psicologia cognitiva, oferece um espelho desconcertante: talvez não sejamos tão senhores de nossas decisões quanto acreditamos.

Priming é a influência sutil — e muitas vezes inconsciente — de estímulos prévios sobre nossas ações e pensamentos. Ao sermos expostos a uma palavra, imagem ou ideia, reagimos ao mundo de maneira alterada, mesmo sem nos darmos conta disso. A mente responde a sugestões silenciosas. Mas o que esse fenômeno revela filosoficamente?

I. O eu moldável: sujeito ou efeito?

O conceito de sujeito autônomo, herança iluminista, pressupõe uma consciência centrada, capaz de deliberar racionalmente. No entanto, se um simples cartaz com palavras de gentileza aumenta a probabilidade de alguém ser educado, o que resta da liberdade?

O filósofo francês Michel Foucault já desconfiava da ilusão de um sujeito fixo. Para ele, somos atravessados por discursos, moldados por regimes de saber e poder. O priming, nesse contexto, seria a evidência científica de que nossos gestos nascem de gramáticas invisíveis, de redes simbólicas que operam abaixo da superfície da consciência.

II. Liberdade sob influência: a ilusão do espontâneo

Se somos suscetíveis a influências mínimas, o livre-arbítrio seria uma ficção? Não exatamente. O priming não determina, mas inclina. Como uma brisa que desvia levemente o curso de um barco, ele mostra que nossas decisões não surgem no vácuo. Elas são respostas condicionadas por contextos anteriores. A liberdade, então, não é absoluta — é situada, contextual, e talvez até relacional.

A verdadeira pergunta filosófica não é "somos livres?", mas: de que somos feitos? Se memórias, emoções e estímulos moldam nossos gestos, talvez a identidade não seja uma estrutura, mas um campo de forças, um jogo de sugestões internas e externas.

III. Priming como estética do mundo: o invisível que age

Há algo poético no fato de que uma palavra lida em silêncio possa modificar uma atitude. É como se o mundo sussurrasse possibilidades, e nós, atentos ou não, dançássemos ao ritmo de suas sugestões.

Nesse sentido, o priming toca a filosofia de Merleau-Ponty, quando este afirma que o corpo é a abertura ao mundo — não há separação radical entre o sujeito e o ambiente. O corpo percebe, responde, antecipa. Ele não espera a consciência: ele age. O priming, então, é uma forma de estética da existência — o modo como o mundo nos pinta, antes mesmo de sabermos que estamos na tela.

IV. Filosofia do cuidado: cultivar o invisível

Se somos permeáveis ao que nos rodeia, talvez a ética esteja em cuidar do ambiente que nos constitui. Escolher palavras, imagens, sons e silêncios que nos moldem de maneira mais consciente. Assim como a alimentação influencia o corpo, os estímulos moldam o espírito.

A filosofia contemporânea não pode ignorar o priming — não como mais um fenômeno psicológico, mas como uma chave para repensar o que significa ser humano num tempo em que o inconsciente se revela moldável, acessível e, muitas vezes, manipulado.

A liberdade depois do priming

O priming não anula a liberdade; ele a problematiza. Mostra que a autonomia talvez esteja menos em resistir a influências e mais em compreendê-las. Saber que somos atravessados por sinais invisíveis é o primeiro passo para cultivar uma consciência mais ampla e gentil.

O filósofo não é mais apenas o que pensa, mas o que se pergunta: “o que está pensando por mim neste exato momento?”

domingo, 1 de junho de 2025

Superstição e Crença

 

Quando bater na madeira é mais do que um gesto...

Tem gente que nem acredita em nada, mas bate na madeira do mesmo jeito. Só por via das dúvidas. É como se dissesse: “vai que, né?”. No fundo, ninguém quer brincar com o destino, mesmo quando jura que o destino não existe.

No dia a dia, superstição e crença andam lado a lado, tropeçando uma na outra feito gente numa calçada estreita. Uma é aquela velha senhora que leva um galhinho de arruda atrás da orelha. A outra, um jovem de óculos de realidade aumentada que acredita em inteligência artificial como oráculo. Ambas, no fim das contas, estão tentando responder à mesma coisa: como viver num mundo que não se explica todo?

Entre o invisível e o improvável

Superstições são gestos herdados, fragmentos de um saber que não passou pelo crivo da ciência, mas que sobreviveu ao tempo. Elas não prometem verdades, mas oferecem alívio. Já a crença é mais estrutural — é como uma casa onde o sujeito se abriga. Pode ter teto de religião, parede de filosofia, ou chão de misticismo. Às vezes, é uma cabana improvisada; às vezes, uma catedral inteira.

A religião oferece um Deus, um plano, um sentido maior. O misticismo não se preocupa tanto com dogmas, mas com vibrações, energias, ciclos. A fé, por sua vez, pode existir sem nome nem endereço fixo: acreditar que vai dar certo, que existe algo além, que o amor cura — isso já é fé.

E a ciência popular? É aquele remédio de vó que funciona “porque sempre funcionou”, mesmo que nenhum estudo comprove. É o chá de boldo, a canja para gripe, o sabugo de milho para dor de ouvido. Não está nos livros, mas está na boca do povo — e na prática de quem quer sobreviver com o que tem.

A inovação está na pergunta, não na resposta

A filosofia tradicional sempre quis separar razão e crença. Mas e se a gente inovar e perguntar: e se toda crença, superstição ou ciência for apenas formas diferentes de lidar com a ignorância? E se bater na madeira, fazer um gráfico, acender uma vela ou consultar um oráculo forem variações de um mesmo gesto humano — o de procurar sentido onde o mundo parece mudo?

O filósofo Ernst Cassirer dizia que o ser humano é antes de tudo um animal simbólico — a gente não vive só de fatos, vive de significados. O que a superstição e a crença revelam não é ignorância, mas sensibilidade. É a percepção de que há uma camada do real que escapa às fórmulas, mas não escapa ao sentimento.

No fim, acreditar é um ato de imaginação. E talvez seja esse o maior poder humano: preencher com histórias, gestos, rituais e afetos aquilo que a lógica não explica por completo. Afinal, nem tudo que é real precisa ser comprovado; basta ser vivido.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

Renascimentos Simbólicos

Você já teve a sensação de que, em determinados momentos da vida, passou por uma espécie de "renascimento"? Esses momentos podem não envolver mudanças drásticas, mas são significativos o suficiente para redefinir quem somos e como enxergamos o mundo. Esses renascimentos simbólicos acontecem com frequência e podem ser desencadeados por uma série de situações cotidianas.

Pequenos Grandes Momentos de Renascimento

Mudança de Carreira: Imagina que você trabalhou por anos em uma área específica, mas um dia decide seguir uma paixão antiga, como abrir uma pequena cafeteria ou tornar-se artista. Esse tipo de transição representa um renascimento simbólico. É o deixar para trás um velho eu para dar espaço a um novo.

Fim de Relacionamentos: Terminar um relacionamento amoroso pode ser extremamente doloroso, mas também abre a porta para um recomeço. Aos poucos, você reconstrói sua vida, redescobre interesses esquecidos e talvez até encontre um novo amor. Esse processo é um renascimento, onde você emerge mais forte e consciente de si.

Superação de Desafios Pessoais: Enfrentar uma doença grave, passar por dificuldades financeiras ou lidar com a perda de um ente querido são situações que testam nossa resiliência. A superação desses desafios pode nos transformar profundamente, resultando em um novo começo, uma nova perspectiva sobre a vida.

Reflexão Filosófica: O Pensamento de Nietzsche

Para entender melhor esses renascimentos simbólicos, podemos recorrer ao pensamento de Friedrich Nietzsche. Ele é conhecido por sua filosofia do eterno retorno e do "Übermensch" (super-homem), conceitos que, de certa forma, se alinham com a ideia de renascimento.

Nietzsche sugere que a vida é um ciclo constante de morte e renascimento, onde as dificuldades e desafios servem como catalisadores para nosso crescimento pessoal. Ele acredita que ao confrontar e superar os obstáculos da vida, nos tornamos mais fortes e nos aproximamos do ideal do "Übermensch". Esse conceito pode ser visto como um renascimento simbólico, onde a transformação pessoal é a chave para uma vida plena e autêntica.

Cotidiano e Transformações

Voltando ao nosso dia a dia, esses renascimentos simbólicos não precisam ser grandiosos ou dramáticos. Às vezes, um simples momento de introspecção pode ser suficiente. Imagine alguém que, após anos de correria e estresse, decide incorporar a meditação em sua rotina diária. Esse pequeno ato pode resultar em uma transformação significativa na maneira como essa pessoa lida com o estresse e se conecta consigo mesma.

Outros exemplos podem incluir a decisão de mudar hábitos alimentares, começar a praticar um novo esporte, ou até mesmo a adoção de um hobby que sempre teve vontade de explorar. Cada uma dessas ações, por menor que pareça, representa um renascimento simbólico, um passo em direção a uma versão renovada de si mesmo.

Renascimentos simbólicos são partes essenciais de nossas vidas. Eles nos permitem crescer, aprender e nos adaptar às mudanças inevitáveis que enfrentamos. Seja através de grandes decisões ou pequenas mudanças cotidianas, cada renascimento nos aproxima de uma versão mais autêntica e realizada de nós mesmos. Como Nietzsche sugere, é na superação dos desafios que encontramos a verdadeira essência do nosso ser, renascendo continuamente em busca do nosso potencial máximo.