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sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Inabalável Percepção

Às vezes, no meio da confusão do dia a dia — trânsito parado, notificações sem fim, opiniões que chegam como ondas quebrando uma depois da outra —percebo que a única coisa que de fato sustenta o nosso equilíbrio não é o silêncio do mundo, mas a firmeza da nossa percepção. Não aquela percepção apressada, meio impulsiva, que fazemos quando julgamos alguém pela primeira impressão. Mas a percepção que fica de pé mesmo quando tudo ao redor balança. A inabalável.

Comecei a pensar nisso outro dia, quando uma senhora no mercado, em plena pressa das férias de dezembro, derrubou sem querer uma pilha de panetones. A cena foi caótica: embalagens rolando, gente reclamando, funcionário correndo. Mas a senhora permaneceu calma, recolhendo um por um com uma serenidade que parecia deslocada da realidade. Não era indiferença — era percepção. Ela sabia o que realmente importava naquele instante: resolver o problema com tranquilidade. E aquilo, curiosamente, estabilizou até quem estava ao redor.

A percepção inabalável é algo que filósofos, especialmente os estoicos, valorizavam profundamente. Epicteto dizia que “não são as coisas que nos perturbam, mas os juízos que fazemos sobre elas”. Em outras palavras: o mundo não vai parar de jogar panetones pelo chão — mas a forma como percebemos e interpretamos esses eventos define a qualidade da nossa experiência.

No cotidiano, percebemos a diferença entre quem reage pela percepção firme e quem reage pela percepção instável:

  • No trabalho, quando aquele e-mail atravessado chega, há quem responda imediatamente, inflamado. E há quem pause, perceba o contexto, leia o que não foi dito, e escolha a resposta mais sensata.
  • Na vida familiar, sempre tem o parente que solta uma opinião que parece deslocada da mesa de jantar. Alguns explodem, outros percebem que aquilo fala mais sobre o mundo interno do parente do que sobre a realidade presente.
  • Nos relacionamentos, um comentário inocente pode ser interpretado como crítica — ou como apenas um modo torto de preocupação. A percepção é o filtro que define o rumo da conversa.

Mas não se trata apenas de autocontrole. A percepção inabalável é, antes de tudo, clareza: a capacidade de distinguir aparência e essência, ruído e sinal. É ver o que realmente está acontecendo, não o que nosso medo, ansiedade ou ego querem que esteja.

N. Sri Ram — um pensador que aprecio — dizia que o ser humano só encontra lucidez quando olha para o mundo com “a mente quieta e o coração aberto”, pois é assim que se percebe o que é verdadeiro além das ilusões que projetamos. Essa mente quieta não é ausência de movimento; é estabilidade interior para que a percepção não seja distorcida por tempestades internas.

Percepção inabalável é como uma bússola num bolso: não impede que o vento sopre, nem que o caminho seja tortuoso, mas garante que nunca percamos completamente o norte. E, curiosamente, quanto mais firme é a percepção, menos rígida se torna a pessoa. Porque a firmeza que interessa aqui não é dureza — é discernimento.

E talvez seja isso que falta na maior parte das nossas pequenas tragédias cotidianas: perceber melhor antes de agir pior. Ver antes de julgar. Cuidar antes de reagir.

A inabalável percepção não é um dom — é um hábito, cultivado aos poucos, entre um panetone que cai, uma palavra mal interpretada e um instante de lucidez que, quando aparece, muda tudo. Com o final de ano as famílias se reencontram e com isto confusões á vista. Então, muita calma nesta hora, é chegado momento de praticar nossa inabalável percepção.