Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador encarar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador encarar. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Café com Desconhecido

Entrei no café sem pensar muito. Era só mais um desses intervalos que a gente inventa para não precisar continuar sendo quem está sendo. O lugar não tinha nada de especial — algumas mesas, um balcão, o som distante de xícaras se encontrando como pequenos acidentes domésticos.

Sentei.

Pedi um café.

E só então percebi que alguém já estava sentado à minha frente.

Não houve chegada, nem movimento de cadeira, nem aquele gesto mínimo que denuncia a presença de outro. Ele simplesmente estava ali, como se tivesse sempre estado. Não me assustei. E isso, olhando agora, talvez tenha sido o mais estranho.

— Você demorou — disse.

Não perguntei “para quê?”. Há perguntas que a gente evita não por falta de curiosidade, mas por excesso de reconhecimento.

Fiquei olhando para ele como se tentasse lembrar de onde o conhecia. Não era um rosto familiar, mas havia algo nele que dispensava apresentações — como quando se relê um trecho esquecido de um livro e, ainda assim, se sabe que aquilo já nos pertenceu.

O café chegou. O meu.

Ele não pediu nada.

— Você ainda toma sem açúcar — comentou, observando o vapor subir da xícara.

Assenti, mais por reflexo do que por concordância. Não lembrava de ter dito isso a ninguém. Nem mesmo a mim, talvez.

O silêncio se acomodou entre nós, mas não era desconfortável. Era um silêncio cheio — como se já estivesse preenchido por coisas que não precisavam mais ser ditas.

Foi então que resolvi perguntar:

— Estou no caminho certo?

Ele não respondeu de imediato. Passou o dedo pela borda da xícara, como quem testa a realidade de um objeto.

— Certo em relação a qual versão de você? — disse, por fim.

A pergunta ficou suspensa no ar, como o vapor do café que já começava a desaparecer. Tive vontade de rir, mas não havia humor ali. Apenas uma precisão incômoda.

Pensei nas escolhas que fiz, nas que adiei, nas que deixei escapar por distração ou medo. Pensei, sobretudo, naquelas que nunca chegaram a existir — não por impossibilidade, mas por falta de coragem.

— Existe uma versão mais verdadeira? — perguntei, quase em tom de defesa.

Ele inclinou levemente a cabeça, como quem considera a pergunta não pelo conteúdo, mas pela intenção.

— Você fala de verdade como se ela estivesse à sua frente, esperando ser escolhida. Mas e se ela for apenas o que resta depois que você se evita?

Aquilo me atingiu de um jeito estranho. Não era uma ideia nova, mas, dita ali, ganhava um peso diferente — como se deixasse de ser pensamento e se tornasse evidência.

Lembrei de uma frase de Søren Kierkegaard, sobre a angústia não ser um erro, mas a própria vertigem da liberdade. Talvez fosse isso: não o medo de escolher errado, mas o medo de perceber que qualquer escolha revela quem somos — ou quem insistimos em não ser.

— E se eu escolher mal? — insisti.

Ele sorriu de leve. Não um sorriso de superioridade, mas de quem já viu essa pergunta nascer muitas vezes.

— Você já escolheu — respondeu. — A questão é: você está disposto a reconhecer o que essa escolha fez de você?

O café já estava quase frio. Dei um gole. O gosto parecia mais amargo do que de costume, ou talvez mais honesto.

Olhei ao redor. O café continuava o mesmo. As pessoas entravam, saíam, pediam, pagavam. Ninguém parecia notar a presença dele. Ou talvez todos notassem — e escolhessem não ver.

— Você é… o quê? — arrisquei.

Ele não respondeu diretamente. Em vez disso, perguntou:

— Você viveria essa mesma vida novamente, exatamente assim?

A pergunta ecoou em mim com um peso antigo. Lembrei de Friedrich Nietzsche e sua provocação sobre o eterno retorno — não como teoria, mas como teste: se tudo tivesse que se repetir, você diria sim?

Não respondi.

Talvez porque a resposta já estivesse dada, nas pequenas concessões diárias, nas escolhas que fiz sem pensar e nas que deixei de fazer por pensar demais.

Quando levantei os olhos novamente, ele ainda estava ali. Mas havia algo diferente — não nele, em mim. Como se a conversa tivesse deslocado alguma peça interna que eu nem sabia que existia.

— Você vai embora? — perguntei.

— Eu nunca chego — disse. — Nem vou.

Paguei o café. Levantei.

Antes de sair, olhei para a mesa. Duas xícaras.

Por um instante, pensei em perguntar ao atendente se havia servido mais alguém ali. Mas desisti. Algumas confirmações empobrecem a experiência.

Saí para a rua.

O movimento continuava o mesmo, como se nada tivesse acontecido. E, no entanto, havia uma diferença sutil — como quando se percebe que algo sempre esteve ali, mas só agora se tornou visível.

Caminhei alguns metros e, por impulso, olhei para trás.

A mesa estava vazia.

Ou talvez sempre estivesse.

Segui andando, com a estranha sensação de que algo tinha ficado naquele café.

Talvez o café.

Talvez uma versão de mim que, por um instante, tive coragem de encarar — e depois deixei sentada ali, esperando que eu volte.


quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Bruxa Solta

A expressão "a bruxa está à solta" invoca uma atmosfera de caos, algo difícil de prever, uma revolta silenciosa que toma as ruas ou mesmo a vida pessoal. Ela sugere que forças invisíveis estão em jogo, moldando circunstâncias e humores sem que possamos facilmente entender o porquê. Parece apropriado trazer uma análise filosófica para essa ideia – porque a expressão já carrega em si a noção de que a realidade visível pode não ser tudo o que está acontecendo.

A bruxa, historicamente, representa tanto o poder oculto quanto a resistência ao poder estabelecido. Por isso, quando se diz que “a bruxa está à solta,” pode ser que estamos sentindo no ar as tensões do que foi reprimido, das verdades ditas entre dentes, dos sentimentos sufocados que procuram um modo de escapar. A filósofa francesa Simone de Beauvoir uma vez disse que as mulheres eram “os outros” de uma sociedade dominada por um “sujeito” masculino; se a bruxa é um símbolo desse “outro,” então sua soltura é também um ato de resgate do que foi marginalizado.

Em termos existenciais, a ideia de que há uma "bruxa solta" nos confronta com nossos medos inconscientes e nossas zonas de sombra. Jung já falava da sombra como tudo aquilo que escondemos ou reprimimos – mas que, cedo ou tarde, precisa vir à tona. Talvez “a bruxa à solta” não seja apenas um símbolo de algo externo, mas de uma parte de nós mesmos que precisa ser confrontada. As angústias que escondemos, os desejos que não realizamos, os sonhos que abandonamos podem se personificar na “bruxa,” e, quando solta, ela é o reflexo do que evitamos, mas que sempre volta de maneira quase imprevista.

É interessante pensar em como essa expressão se aplica às tensões da vida moderna. Em momentos de crise, a bruxa parece tomar as ruas, as mídias sociais, as rodas de conversa, espalhando uma espécie de mal-estar coletivo. Há algo que fica solto – seja a raiva, o ressentimento ou mesmo o medo. Slavoj Žižek, filósofo esloveno, diz que o medo e a incerteza nas sociedades contemporâneas muitas vezes resultam da falta de estruturas estáveis e de significados duradouros. Quando essas estruturas falham, o que se solta é um ressentimento reprimido, uma energia caótica que busca expressar aquilo que a razão não pode explicar.

No fundo, a “bruxa à solta” talvez seja também uma advertência sobre nossa necessidade de lidar com os mistérios do humano, com aquilo que ultrapassa o entendimento fácil e que, muitas vezes, tentamos racionalizar e controlar. Ela lembra que nem tudo na vida pode ser domesticado e que parte do crescimento humano vem justamente de enfrentar o inexplicável e o que, dentro de nós, se recusa a obedecer as ordens da lógica.

Portanto, “a bruxa está à solta” pode ser um convite para encarar de frente o desconhecido, aquele caos que não conseguimos, nem devemos, reduzir a uma ordem fácil e superficial. Ela nos diz para respeitar o mistério, entender que há forças incontroláveis, tanto no mundo quanto em nós mesmos – e que, por mais incômodo que seja, essas forças também são parte do que nos torna completos.