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sábado, 23 de maio de 2026

Círculo Mágico


Entre o café e o invisível: pequenos rituais para sustentar o real

 

Tem dias em que tudo parece igual: o mesmo caminho, o mesmo trabalho, as mesmas conversas que começam e terminam sem deixar vestígio. Mas, de repente — quase sem aviso — algo muda. Não no mundo, mas no modo como você entra nele.

Você senta em uma cafeteria, segura a xícara ainda quente, e por alguns minutos o tempo desacelera. As vozes ao redor viram pano de fundo. O celular perde a urgência. Ali, sem perceber, você traçou um círculo mágico.

Não com giz no chão, mas com atenção.

O velho Johan Huizinga diria que você acabou de entrar em um espaço onde outras regras valem. Não é fuga da realidade — é uma reorganização dela. Um pequeno pacto silencioso: “durante esse instante, o mundo será vivido de outro jeito”.

E é curioso… porque a gente associa magia a algo extraordinário, quando talvez ela more justamente nesses intervalos discretos.

Pense numa conversa que vai ficando mais profunda sem você planejar. Começa banal — clima, trabalho, rotina — e de repente alguém diz algo que abre uma fresta. O tom muda. O silêncio passa a ter peso. O tempo deixa de correr.

Ali também há um círculo.

E dentro dele, certas verdades só existem porque foram ditas naquele espaço. Fora dali, talvez pareceriam exageradas ou até absurdas. Mas ali… fazem sentido.

Mário Ferreira dos Santos tinha uma sensibilidade especial para essas camadas invisíveis da experiência. Ele sugeria que a realidade não é só aquilo que se impõe aos sentidos, mas também aquilo que se organiza pela consciência.

Em outras palavras: o mundo não é apenas dado — ele é, em parte, invocado.

E invocar não exige velas nem palavras em latim. Às vezes, basta presença.

Talvez seja por isso que certos momentos simples nos marcam mais do que grandes eventos. Um mate compartilhado no fim da tarde. Um treino em que o corpo parece entender algo novo. Um silêncio confortável com alguém.

São pequenos círculos mágicos onde a vida deixa de ser automática e passa a ser… habitável.

Mas há um detalhe importante: esses círculos não se mantêm sozinhos.

Eles são frágeis.

Basta uma distração constante, uma pressa mal colocada, ou aquela necessidade de transformar tudo em produtividade… e o círculo se desfaz. A magia não gosta de barulho excessivo.

Ela prefere atenção contínua.

No fundo, penso que talvez viver bem não seja acumular experiências extraordinárias, mas aprender a traçar círculos dentro do ordinário.

Delimitar momentos. Criar espaços. Honrar instantes.

Como quem, no meio do caos cotidiano, desenha — mesmo que invisivelmente — um pequeno território onde a alma pode finalmente pousar.

E, quem sabe, é ali que a vida começa a falar de verdade.


segunda-feira, 18 de maio de 2026

Café com Desconhecido

Entrei no café sem pensar muito. Era só mais um desses intervalos que a gente inventa para não precisar continuar sendo quem está sendo. O lugar não tinha nada de especial — algumas mesas, um balcão, o som distante de xícaras se encontrando como pequenos acidentes domésticos.

Sentei.

Pedi um café.

E só então percebi que alguém já estava sentado à minha frente.

Não houve chegada, nem movimento de cadeira, nem aquele gesto mínimo que denuncia a presença de outro. Ele simplesmente estava ali, como se tivesse sempre estado. Não me assustei. E isso, olhando agora, talvez tenha sido o mais estranho.

— Você demorou — disse.

Não perguntei “para quê?”. Há perguntas que a gente evita não por falta de curiosidade, mas por excesso de reconhecimento.

Fiquei olhando para ele como se tentasse lembrar de onde o conhecia. Não era um rosto familiar, mas havia algo nele que dispensava apresentações — como quando se relê um trecho esquecido de um livro e, ainda assim, se sabe que aquilo já nos pertenceu.

O café chegou. O meu.

Ele não pediu nada.

— Você ainda toma sem açúcar — comentou, observando o vapor subir da xícara.

Assenti, mais por reflexo do que por concordância. Não lembrava de ter dito isso a ninguém. Nem mesmo a mim, talvez.

O silêncio se acomodou entre nós, mas não era desconfortável. Era um silêncio cheio — como se já estivesse preenchido por coisas que não precisavam mais ser ditas.

Foi então que resolvi perguntar:

— Estou no caminho certo?

Ele não respondeu de imediato. Passou o dedo pela borda da xícara, como quem testa a realidade de um objeto.

— Certo em relação a qual versão de você? — disse, por fim.

A pergunta ficou suspensa no ar, como o vapor do café que já começava a desaparecer. Tive vontade de rir, mas não havia humor ali. Apenas uma precisão incômoda.

Pensei nas escolhas que fiz, nas que adiei, nas que deixei escapar por distração ou medo. Pensei, sobretudo, naquelas que nunca chegaram a existir — não por impossibilidade, mas por falta de coragem.

— Existe uma versão mais verdadeira? — perguntei, quase em tom de defesa.

Ele inclinou levemente a cabeça, como quem considera a pergunta não pelo conteúdo, mas pela intenção.

— Você fala de verdade como se ela estivesse à sua frente, esperando ser escolhida. Mas e se ela for apenas o que resta depois que você se evita?

Aquilo me atingiu de um jeito estranho. Não era uma ideia nova, mas, dita ali, ganhava um peso diferente — como se deixasse de ser pensamento e se tornasse evidência.

Lembrei de uma frase de Søren Kierkegaard, sobre a angústia não ser um erro, mas a própria vertigem da liberdade. Talvez fosse isso: não o medo de escolher errado, mas o medo de perceber que qualquer escolha revela quem somos — ou quem insistimos em não ser.

— E se eu escolher mal? — insisti.

Ele sorriu de leve. Não um sorriso de superioridade, mas de quem já viu essa pergunta nascer muitas vezes.

— Você já escolheu — respondeu. — A questão é: você está disposto a reconhecer o que essa escolha fez de você?

O café já estava quase frio. Dei um gole. O gosto parecia mais amargo do que de costume, ou talvez mais honesto.

Olhei ao redor. O café continuava o mesmo. As pessoas entravam, saíam, pediam, pagavam. Ninguém parecia notar a presença dele. Ou talvez todos notassem — e escolhessem não ver.

— Você é… o quê? — arrisquei.

Ele não respondeu diretamente. Em vez disso, perguntou:

— Você viveria essa mesma vida novamente, exatamente assim?

A pergunta ecoou em mim com um peso antigo. Lembrei de Friedrich Nietzsche e sua provocação sobre o eterno retorno — não como teoria, mas como teste: se tudo tivesse que se repetir, você diria sim?

Não respondi.

Talvez porque a resposta já estivesse dada, nas pequenas concessões diárias, nas escolhas que fiz sem pensar e nas que deixei de fazer por pensar demais.

Quando levantei os olhos novamente, ele ainda estava ali. Mas havia algo diferente — não nele, em mim. Como se a conversa tivesse deslocado alguma peça interna que eu nem sabia que existia.

— Você vai embora? — perguntei.

— Eu nunca chego — disse. — Nem vou.

Paguei o café. Levantei.

Antes de sair, olhei para a mesa. Duas xícaras.

Por um instante, pensei em perguntar ao atendente se havia servido mais alguém ali. Mas desisti. Algumas confirmações empobrecem a experiência.

Saí para a rua.

O movimento continuava o mesmo, como se nada tivesse acontecido. E, no entanto, havia uma diferença sutil — como quando se percebe que algo sempre esteve ali, mas só agora se tornou visível.

Caminhei alguns metros e, por impulso, olhei para trás.

A mesa estava vazia.

Ou talvez sempre estivesse.

Segui andando, com a estranha sensação de que algo tinha ficado naquele café.

Talvez o café.

Talvez uma versão de mim que, por um instante, tive coragem de encarar — e depois deixei sentada ali, esperando que eu volte.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Expectativas e Decepções


Você já parou pra pensar o quanto decepção tem a ver com expectativa? Não com o que aconteceu. Não com o que foi dito. Mas com o que você esperava que fosse.

A gente idealiza tudo. A resposta que o outro vai dar. A forma como o chefe vai reconhecer. A mensagem que deveria ter chegado. A gentileza que esperávamos só porque fomos gentis.

E aí vem a porrada. Porque a realidade tem um jeitinho especial de lembrar: ei, ninguém prometeu nada disso, não.

É como diz aquela frase que ninguém quer ouvir, mas todo mundo sabe que é verdade:
“Crie porcos, não expectativas.”

Pelo menos o porco vira bacon. Expectativa? Só vira mágoa.

E não tô dizendo pra você viver apático. Sem planos. Sem se importar. Tô dizendo pra parar de cobrar do mundo um roteiro que só existe na sua cabeça.
Porque, no fundo, a gente não se decepciona com os outros. A gente se decepciona com a nossa própria ilusão.

Então da próxima vez que for criar expectativa, respira fundo e pergunta:
“Eu tô esperando isso por quê? Porque o outro prometeu? Ou porque eu fantasiei?”

Se for fantasia, então relaxa. Aproveita o momento real. Ele pode não ser do jeitinho que você queria…

Estou falando do que especificamente? Ora, tem muita coisa que nos choca, mas por enquanto fico com os políticos, eita, não nada está fácil conviver com tanta corrupção, incompetência, despreparo, quantos mistérios, acordos suspeitos, olha tá difícil ligar o rádio, tv, ouvir noticiário me faz pensar do tanto que o ser humano se rebaixou.

Mas às vezes, penso que seja exatamente do jeito que precisávamos enxergar o quanto o poder corrompe, ou sei lá, já são corruptos fazendo o que sabem fazer melhor, olha dá para contar numa mão os que escapam a dança da corrupção, e também não coloco a mão no fogo por ninguém.

É isso aí. Fica bem. E da próxima vez que a expectativa bater na sua porta… manda ela se foder com carinho.