A obra “Senhor das Moscas” é voltada para o
gênero infanto-juvenil, foi vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 1983, a
trama enfoca um grupo de meninos britânicos que ficam presos em uma ilha
desabitada. Em meio a evacuação em tempo de guerra o avião britânico cai na
ilha desabitada e apenas um grupo de meninos sobrevive, ao longo da estória é
narrada a tentativa desastrosa de se autogovernar, pois a luta pela liderança
divide a frágil sociedade "democrática" e instaura um violento
conflito entre os meninos.
A estória mostra jovens concentrados em
detalhes domésticos da sobrevivência, tal como fazer comida, construir abrigos,
indumentária, higiene e etc., os meninos parecem ser bons moços, representantes
de crianças bem-comportadas e educadas nos padrões britânicos de colonizadores.
O título da obra parece ser um tanto estranho
e à prima facie não parece se
relacionar com a história, porém, o título “Senhor das Moscas” é
a tradução literal da palavra hebraica Ba'alzebul, ou em português, Belzebu,
que, conforme o Dicionário Aurélio, significa o nome de um dos demônios, o
chefe dos espíritos malignos, o que mostra a visão pessimista do autor em
relação à humanidade, e que atravessa toda sua obra. O título está ligado a ideia de Belzebu/Leviatã o demônio
associado ao orgulho e à guerra, os dois assuntos centrais da trama. Além
disso, o clássico é uma sátira à narrativa problemática de que os conhecimentos
dos europeus eram superiores a quaisquer outros. Golding através da história aborda
isso na obra transformando os garotos em nativos selvagens que destroem uns aos
outros em busca de poder, funciona como uma metáfora ao relacionamento humano. A
luta dos meninos é a luta pelo poder tal como acontece no mundo dos adultos, onde
forças tentam estabelecer seu domínio custe o custar, marcados por
oposição, conflito e disputa,
nesta disputa pelo poder e as discordâncias referentes à sobrevivência
dão lugar à violência e a selvageria.

A
obra pode ser interpretada sob várias perspectivas, tal como uma analogia da
luta entre a democracia, na qual
todos podem expressar suas ideias, mas que, por outro lado, tantas vozes
culminam em decisões arrastadas e controversas, e a ditadura, na qual um tirano se estabelece sem o consentimento dos
governados formado a partir de um sistema hierárquico baseado na punição e no
medo. Percebe-se que a obra vai além do gênero infanto-juvenil, agradando aos
demais gêneros proporcionando uma produtiva reflexão sobre a liderança democrática
e autoritária, motivando reflexões em algumas áreas das ciências humanas,
especialmente filosofia, direito e psicanálise, voltadas à discussão sobre a
maldade e desumanidade.
Não
foi por acaso que Golding desenvolveu a trama, a história de vida de William
Golding e o que o levou a escrever esse clássico, foram os responsáveis pela
construção da obra na forma de protesto. Golding dava aulas de filosofia em uma
escola particular para garotos, em seguida serviu a bordo de um destróier
britânico durante a guerra e se tornou um tenente da Marinha Real. Quando ele
voltou da guerra, encontrou duas maiores potências do mundo ameaçando uma a
outra com bombas nucleares. Isso fez com que o professor começasse a questionar
as origens da natureza humana. Essas constantes reflexões sobre a violência
(talvez) inevitável do ser humano o levaram e escrever o tão famoso “Senhor
das Moscas”.
Enredo
No meio de uma evacuação em tempo de guerra, um avião britânico
bate em uma ilha isolada ou próxima a ela em uma região remota do Oceano
Pacífico. Os únicos sobreviventes são meninos na pré-adolescência.
Dois meninos - o loiro Ralph e um garoto com excesso de peso e óculos,
apelidado de "Piggy" - encontram uma concha, que
Ralph usa como apito para reunir todos os sobreviventes em uma área. Ralph
parece responsável por reunir todos os sobreviventes, então imediatamente
comanda alguma autoridade sobre os outros garotos e é rapidamente eleito seu
"chefe". Ele não recebe os votos dos membros de um grupo de meninos,
liderado pelo ruivo Jack Merridew, mas permite que eles formem uma turma
separada de caçadores. Ralph estabelece três políticas principais: divertir-se,
sobreviver e manter constantemente um sinal de fumaça que poderia alertar os
navios que passavam sobre sua presença na ilha e, assim, resgatá-los. Os
meninos estabelecem uma forma de democracia,
declarando que quem quer que tiver segurar a concha também poderá falar nas
reuniões formais e receber o silêncio atento do grupo. Jack organiza uma equipe
de caça responsável por descobrir uma fonte de alimento. Ralph, Jack e um
garoto quieto e sonhador chamado Simon logo formam um triunvirato
de líderes, com Ralph como a autoridade suprema. Após a inspeção da ilha, os
três determinam que ela possui frutas e porcos selvagens como alimento.
A aparência de ordem deteriora-se rapidamente à medida que a maioria dos
meninos fica ociosa; eles ajudam pouco na construção de abrigos, passam o tempo
se divertindo e começam a desenvolver paranoias
sobre a ilha, sendo a principal delas a que se refere a um suposto monstro que
eles chamam de "besta", que todos lentamente começam a acreditar que
existe na ilha. Ralph insiste que não existe tal fera, mas Jack, que iniciou
uma luta pelo poder com Ralph, ganha um nível de controle sobre o grupo ao
prometer ousadamente matar a criatura. A certa altura, Jack convoca todos os
seus caçadores para caçar um porco selvagem, afastando os designados de manter
o sinal de fogo. Um navio passa perto da ilha, mas sem o sinal de fumaça dos
meninos para alertar sua tripulação, ele continua sua viagem. Ralph, com raiva,
confronta Jack sobre sua falha em manter o sinal aceso.
Uma noite, uma batalha
aérea ocorre perto da ilha enquanto os meninos dormem,
durante os quais um piloto de caça ejeta de seu avião e morre
na descida. Seu corpo desce para a ilha em seu paraquedas;
ambos se enroscam em uma árvore perto do topo da montanha. Mais tarde, enquanto
Jack continua planejando contra Ralph, os gêmeos Sam e Eric, agora encarregados
da manutenção do sinal de fogo, veem o cadáver do piloto de caça e seu
paraquedas no escuro. Confundindo o cadáver com a besta, eles correm para o
aglomerado de abrigos que Ralph e Simon ergueram, para avisar os outros. Esse
encontro inesperado novamente levanta tensões entre Jack e Ralph. Pouco tempo
depois, Jack decide liderar uma festa para o outro lado da ilha, onde uma
montanha de pedras, mais tarde chamada Castle Rock, forma um lugar onde ele
afirma que o animal reside. Apenas Ralph e um garoto silencioso e suspeito,
Roger, o mais próximo defensor de Jack, concordam em ir; Ralph se vira um pouco
antes dos outros dois garotos, mas eventualmente os três veem o corpo do
piloto, cuja cabeça se eleva pelo vento. Eles então fogem, agora acreditando
que o monstro é real. Quando eles chegam aos abrigos, Jack convoca uma
assembleia e tenta virar os outros contra Ralph, pedindo que removam Ralph de
sua posição de poder. Não recebendo apoio, Jack sai sozinho para formar sua
própria tribo. Roger imediatamente foge para se juntar a Jack, e lentamente um
número crescente de meninos mais velhos abandonam Ralph para se juntar à tribo
de Jack. A tribo de Jack continua a atrair recrutas do grupo principal,
prometendo festas de porco cozido. Os membros começam a pintar o rosto e
encenar rituais bizarros, incluindo sacrifícios à
besta. Uma noite, Ralph e Piggy decidem ir a uma das festas de Jack.
Simon, que desmaia com frequência e provavelmente é epilético,
tem um esconderijo secreto onde fica sozinho. Um dia, enquanto ele está lá,
Jack e seus seguidores erguem uma oferenda para a besta: uma cabeça de porco,
montada em uma vara afiada e rodeada de moscas. Simon conduz um diálogo
imaginário com a cabeça, que ele chama de "Senhor das Moscas".
A cabeça zomba da noção de Simon de que ela é uma entidade real, "algo que
você poderia caçar e matar", e revela a verdade: eles, os meninos, são a
besta; está dentro de todos eles. O Senhor das Moscas também adverte Simon que
ele está em perigo, porque representa a alma do homem e prevê que os outros o
matarão. Simon sobe a montanha sozinho e descobre que a "besta" é o
paraquedista morto. Ele corre para contar aos outros garotos, que estão
envolvidos em uma dança ritual. Os meninos frenéticos confundem Simon com a
besta, o atacam e o espancam até a morte. Tanto Ralph quanto Piggy participam
da confusão e ficam profundamente perturbados por suas ações depois de voltarem
de Castle Rock.
Jack e sua tribo rebelde decidem que o verdadeiro símbolo do poder na
ilha não é a concha, mas os óculos de Piggy - o único meio que os meninos têm
para criar fogo. Eles
invadem o acampamento de Ralph, confiscam os óculos e retornam à Castle Rock. Ralph,
agora abandonado pela maioria de seus apoiadores, viaja para Castle Rock para
enfrentar Jack e proteger os óculos. Tomando a concha e acompanhado apenas por
Piggy, Sam e Eric, Ralph encontra a tribo e exige que eles devolvam o objeto
valioso. Confirmando sua total rejeição à autoridade de Ralph, a tribo captura
e prende os gêmeos sob o comando de Jack. Ralph e Jack se envolvem em uma luta.
Qualquer senso de ordem ou segurança é permanentemente corroído quando Roger,
agora sádico, deliberadamente deixa joga uma pedra que mata Piggy e quebra a
concha. Ralph consegue escapar, mas Sam e Eric são torturados por Roger até que
concordem em se juntar à tribo de Jack.
Ralph secretamente confronta Sam e Eric, que avisam que Jack e Roger o
odeiam e que Roger afiou um graveto nos dois extremos, o que implica que a
tribo pretende caçá-lo como um porco e decapitá-lo. Na manhã seguinte, Jack
ordena que sua tribo comece uma caçada por Ralph. Os selvagens de Jack ateiam
fogo na floresta, enquanto Ralph avalia desesperadamente suas opções de
sobrevivência. Após uma longa perseguição, a maior parte da ilha é consumida
pelas chamas. Com os caçadores logo atrás dele, Ralph tropeça e cai. Ele olha
para um adulto uniformizado - um oficial da Marinha
Real Britânica cujo grupo desembarcou de um cruzador que
veio investigar o incêndio. Ralph começa a chorar pela morte de Piggy e pelo
"fim da inocência". Jack e os outros meninos, imundos e desleixados,
também voltam à sua verdadeira idade e começam a chorar. O oficial expressa sua
decepção ao ver meninos britânicos exibindo um comportamento feroz e bélico
antes de se virar para encarar desajeitadamente seu próprio navio de guerra.
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Senhor_das_Moscas
Li este livro fazem três anos, lembrei dele
ao ver repetidamente nos noticiários da selvageria, corrupção e maldade, apreensões
de quantidades gigantescas de drogas e o envolvimento cada vez mais cedo de
jovens no mundo do tráfico e consumo de drogas, é chocante como a juventude vem
concebendo o momento ímpar de sua existência, muitos estão mergulhando
profundamente no mundo obscuro e sombrio do mal que assola a humanidade, a
entrada neste submundo acaba roubando-lhes o brilho da juventude e a chance de
futuro.
Sabemos através das pesquisas que o motivo
citado pelos jovens para justificar a entrada no tráfico e de todo o mal
contido neste submundo é principalmente a questão financeira, a dificuldade em
conseguir empregos, e aqueles que conseguem emprego encontram condições
precárias de trabalho, tornando no entendimento destes jovens a opção pela
atividade ilícita mais atraente. Muitos também vão em busca por adrenalina e
aceitação deles como “alguém” num grupo, muitas vezes através da ligação com
amigos, no entanto, sentindo-se fora do contexto em que foram criados, os seus
modos e educação vão se esvaindo e os jovens vão revelando seus impulsos mais
viscerais, acabam refugiando-se num mundo à parte, tal como uma ilha onde eles
têm suas leis e suas regras, são convidados a ocupar os espaços vazios deixados
ou abandonados pela sociedade, na desordem do estado os donos da Nova Ordem
orquestram os acontecimentos e a desordem é ordenada, os jovens são os soldados
que lutam nestes espaços.
Perguntamo-nos se o problema do tráfico de
drogas seria especificamente culpa e falha das instituições e da legislação
deficiente, ou se a relação família, escola e o mundo do trabalho não estariam
integrados suficientemente para conduzir os jovens ao rumo certo. Penso que todos
estes fatores formam um processo, nestas falhas estaríamos deixando margem para
grupos de traficantes aproveitarem-se dos jovens que tornam-se presa fácil dos comandos
de traficantes experientes, ordenam aos seus “head Hunters” mirarem nos jovens como
possibilidade de exploração protegidos pela legislação.
As leis, os regramentos e o consenso não
estão sendo suficientes para conter o âmago da natureza humana, os
representantes da lei trabalham arduamente no combate ao tráfico, mas a luta é
desigual, pois lutam contra as consequências, a origem não é combatida, eles
prendem, a justiça liberta graças a legislação incompetente de nossos
legisladores, o ciclo vicioso se repete diariamente, alimentado pela ideia de
que o crime compensa.
Ao final perguntamo-nos
o que é o “senhor das moscas”?, aqueles que lerem o livro poderão
entender que a resposta está na metáfora, a metáfora vai além de uma contraposição dogmática entre civilização
democrática e a barbárie, porque nos dá a possibilidade de conhecer os dilemas
da fragilidade humana. O subterrâneo bárbaro eternamente presente na
civilização também está em cada um de nós, pronto para nos destruir e consumir,
ele não vem de fora, não é tão estranho quanto desejam os apologistas ingênuos
da civilização. A narrativa de ficção de Golding nos apresenta, de modo
simbólico, uma verdade atual: os dilemas de nossa revolta,
nosso duelo contemporâneo entre dois titãs: um deus mortal, o Leviatã,
e outro deus imortal, o coletivo Behemot (Figura
da escatologia judaica de origem babilônica, na qual designava dois monstros terríveis.
Behemoth reina sobre a terra e Leviatã, sobre os mares). O Senhor das Moscas - que a tudo vê é a lei da
Nova Ordem. Mesmo extinguindo-se em sua forma física, sua presença permanece
sendo sentida – assim como os seus efeitos. O Senhor das Moscas é a Lei da Nova
Ordem! Lutar contra este mal deve ir além da fé de mãos levantadas, vamos abrir
os olhos, e atuarmos ficando atentos ao rumo dos jovens, toda atenção a eles
para os apoiarmos a dizer não para o que parece ser fácil e glamoroso do portar
uma arma e um boné de grife!

Filme: Além do
livro a trama também se tornou conhecida indo em duas oportunidades para as
telas do cinema: em 1963, sob a direção de Peter Brook, e
em 1990, de Harry Hook.
Filme disponível no link:
https://www.youtube.com/watch?v=9Br9RAXvioU
Fontes:
Golding, William. Senhor das Moscas – tradução Sergio Flaksman. 1ª.ed. – Rio de
Janeiro: Objetiva, 2014.224p.
http://www.salacriminal.com/home/o-senhor-das-moscas-a-lei
https://tmjuntos.com.br/comunicacao/reflexoes-sobre-a-natureza-humana-em-o-senhor-das-moscas/
https://amenteemaravilhosa.com.br/senhor-das-moscas/