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quinta-feira, 9 de julho de 2026

Memória Lúcida

Entre a reconstrução do passado e a invenção de si

A gente costuma confiar na memória como se ela fosse um arquivo fiel da nossa vida — uma espécie de biblioteca interna onde cada lembrança está guardada intacta, esperando ser acessada. Mas basta tentar relembrar um detalhe antigo para perceber: nem tudo está tão organizado assim. Às vezes, uma lembrança parece nítida demais para ser verdadeira; outras vezes, o que deveria ser importante simplesmente desaparece. É nesse território instável que surge a ideia de memória lúcida — não como um espelho do passado, mas como um fenômeno ativo, quase criativo.

A memória lúcida não é apenas a capacidade de recordar com clareza, mas uma forma de consciência sobre o próprio ato de lembrar. Trata-se de perceber que lembrar não é recuperar, mas reconstruir. Esse deslocamento muda completamente o papel da memória: ela deixa de ser um depósito passivo e se torna um processo dinâmico, no qual o sujeito participa constantemente.

Do ponto de vista filosófico, essa concepção rompe com a tradição clássica que via a memória como uma representação fiel do real. Em Henri Bergson, por exemplo, o passado não é um conjunto de imagens arquivadas, mas uma dimensão que coexiste com o presente e se atualiza continuamente na consciência. A memória, nesse sentido, não é reprodutiva, mas atualizante: ela seleciona, reorganiza e recria o vivido conforme as demandas do agora.

Ao mesmo tempo, a fenomenologia oferece uma chave essencial para compreender esse processo. Em Edmund Husserl, a consciência é sempre intencional, isto é, direcionada a algo. Quando lembramos, não acessamos um objeto fixo, mas produzimos um sentido a partir de uma vivência passada, mediada pelo presente. Assim, a memória lúcida envolve a consciência de que aquilo que lembramos passa pelo filtro da nossa experiência atual. Não lembramos apenas do que aconteceu, mas do que aquilo significa hoje.

Esse caráter interpretativo aproxima a memória da imaginação. Paul Ricoeur, ao discutir a relação entre memória, narrativa e identidade, mostra que recordar é sempre narrar — e narrar implica organizar, selecionar e, inevitavelmente, transformar. A memória, portanto, não apenas preserva o passado, mas o reconfigura dentro de uma estrutura narrativa que dá coerência ao sujeito.

A diferença entre memória e imaginação talvez resida apenas no grau de compromisso com o vivido. Ainda assim, esse compromisso é mais frágil do que supomos. Friedrich Nietzsche já apontava que a memória não é um mecanismo neutro, mas um campo de forças, onde esquecer pode ser tão essencial quanto lembrar. A memória lúcida, nesse contexto, não busca eliminar essa instabilidade, mas reconhecê-la como constitutiva da experiência humana.

Há também uma dimensão ética nesse processo. Se nossas lembranças são reconstruídas, então nossa identidade — que se baseia nelas — também está em constante transformação. Ser lúcido em relação à memória é, de certo modo, assumir responsabilidade pela narrativa que construímos sobre nós mesmos. Não se trata de inventar arbitrariamente o passado, mas de reconhecer que toda lembrança já é, em alguma medida, uma interpretação situada.

Essa perspectiva abre espaço para uma concepção mais flexível do sujeito. Em vez de uma identidade fixa e contínua, temos um eu narrativo, que se constrói na tensão entre o que foi vivido e o que é reinterpretado. A memória lúcida, portanto, não é apenas um fenômeno psicológico, mas uma prática existencial: um modo de habitar o tempo com consciência crítica.

Um aprofundamento decisivo pode ser encontrado em Santo Agostinho, especialmente em suas reflexões nas Confissões, onde a memória aparece como um vasto “palácio interior”. Para ele, a memória não é apenas um repositório de imagens sensíveis, mas também o lugar onde habitam ideias, afetos e até a presença de Deus. Ao buscar compreender o tempo, Agostinho percebe que o passado só existe enquanto lembrança no presente da alma, assim como o futuro existe como expectativa. Essa concepção aproxima-se diretamente da noção de memória lúcida: lembrar não é acessar algo externo e fixo, mas mergulhar em uma interioridade dinâmica, onde o sujeito se encontra consigo mesmo. A lucidez, nesse contexto, consiste em reconhecer que a memória não apenas contém o passado, mas o reconfigura à luz de uma consciência que é, ao mesmo tempo, temporal e espiritual.

Por fim, a memória lúcida nos convida a abandonar a obsessão pela fidelidade absoluta ao passado e a abraçar a complexidade da experiência humana. Lembrar não é voltar ao que foi, mas criar sentido a partir do que permanece. Nesse processo, o sujeito não é apenas alguém que recorda — é alguém que, ao lembrar, se reinventa.

Assim, penso que a memória lúcida não seja um estado de precisão, mas de consciência. Não é lembrar melhor, mas lembrar sabendo que se está lembrando. E talvez seja justamente aí que reside sua potência filosófica: na capacidade de transformar a lembrança em um ato reflexivo, onde passado e presente se encontram para dar forma ao que somos.


segunda-feira, 18 de maio de 2026

Café com Desconhecido

Entrei no café sem pensar muito. Era só mais um desses intervalos que a gente inventa para não precisar continuar sendo quem está sendo. O lugar não tinha nada de especial — algumas mesas, um balcão, o som distante de xícaras se encontrando como pequenos acidentes domésticos.

Sentei.

Pedi um café.

E só então percebi que alguém já estava sentado à minha frente.

Não houve chegada, nem movimento de cadeira, nem aquele gesto mínimo que denuncia a presença de outro. Ele simplesmente estava ali, como se tivesse sempre estado. Não me assustei. E isso, olhando agora, talvez tenha sido o mais estranho.

— Você demorou — disse.

Não perguntei “para quê?”. Há perguntas que a gente evita não por falta de curiosidade, mas por excesso de reconhecimento.

Fiquei olhando para ele como se tentasse lembrar de onde o conhecia. Não era um rosto familiar, mas havia algo nele que dispensava apresentações — como quando se relê um trecho esquecido de um livro e, ainda assim, se sabe que aquilo já nos pertenceu.

O café chegou. O meu.

Ele não pediu nada.

— Você ainda toma sem açúcar — comentou, observando o vapor subir da xícara.

Assenti, mais por reflexo do que por concordância. Não lembrava de ter dito isso a ninguém. Nem mesmo a mim, talvez.

O silêncio se acomodou entre nós, mas não era desconfortável. Era um silêncio cheio — como se já estivesse preenchido por coisas que não precisavam mais ser ditas.

Foi então que resolvi perguntar:

— Estou no caminho certo?

Ele não respondeu de imediato. Passou o dedo pela borda da xícara, como quem testa a realidade de um objeto.

— Certo em relação a qual versão de você? — disse, por fim.

A pergunta ficou suspensa no ar, como o vapor do café que já começava a desaparecer. Tive vontade de rir, mas não havia humor ali. Apenas uma precisão incômoda.

Pensei nas escolhas que fiz, nas que adiei, nas que deixei escapar por distração ou medo. Pensei, sobretudo, naquelas que nunca chegaram a existir — não por impossibilidade, mas por falta de coragem.

— Existe uma versão mais verdadeira? — perguntei, quase em tom de defesa.

Ele inclinou levemente a cabeça, como quem considera a pergunta não pelo conteúdo, mas pela intenção.

— Você fala de verdade como se ela estivesse à sua frente, esperando ser escolhida. Mas e se ela for apenas o que resta depois que você se evita?

Aquilo me atingiu de um jeito estranho. Não era uma ideia nova, mas, dita ali, ganhava um peso diferente — como se deixasse de ser pensamento e se tornasse evidência.

Lembrei de uma frase de Søren Kierkegaard, sobre a angústia não ser um erro, mas a própria vertigem da liberdade. Talvez fosse isso: não o medo de escolher errado, mas o medo de perceber que qualquer escolha revela quem somos — ou quem insistimos em não ser.

— E se eu escolher mal? — insisti.

Ele sorriu de leve. Não um sorriso de superioridade, mas de quem já viu essa pergunta nascer muitas vezes.

— Você já escolheu — respondeu. — A questão é: você está disposto a reconhecer o que essa escolha fez de você?

O café já estava quase frio. Dei um gole. O gosto parecia mais amargo do que de costume, ou talvez mais honesto.

Olhei ao redor. O café continuava o mesmo. As pessoas entravam, saíam, pediam, pagavam. Ninguém parecia notar a presença dele. Ou talvez todos notassem — e escolhessem não ver.

— Você é… o quê? — arrisquei.

Ele não respondeu diretamente. Em vez disso, perguntou:

— Você viveria essa mesma vida novamente, exatamente assim?

A pergunta ecoou em mim com um peso antigo. Lembrei de Friedrich Nietzsche e sua provocação sobre o eterno retorno — não como teoria, mas como teste: se tudo tivesse que se repetir, você diria sim?

Não respondi.

Talvez porque a resposta já estivesse dada, nas pequenas concessões diárias, nas escolhas que fiz sem pensar e nas que deixei de fazer por pensar demais.

Quando levantei os olhos novamente, ele ainda estava ali. Mas havia algo diferente — não nele, em mim. Como se a conversa tivesse deslocado alguma peça interna que eu nem sabia que existia.

— Você vai embora? — perguntei.

— Eu nunca chego — disse. — Nem vou.

Paguei o café. Levantei.

Antes de sair, olhei para a mesa. Duas xícaras.

Por um instante, pensei em perguntar ao atendente se havia servido mais alguém ali. Mas desisti. Algumas confirmações empobrecem a experiência.

Saí para a rua.

O movimento continuava o mesmo, como se nada tivesse acontecido. E, no entanto, havia uma diferença sutil — como quando se percebe que algo sempre esteve ali, mas só agora se tornou visível.

Caminhei alguns metros e, por impulso, olhei para trás.

A mesa estava vazia.

Ou talvez sempre estivesse.

Segui andando, com a estranha sensação de que algo tinha ficado naquele café.

Talvez o café.

Talvez uma versão de mim que, por um instante, tive coragem de encarar — e depois deixei sentada ali, esperando que eu volte.


domingo, 14 de dezembro de 2025

Sabedoria Instantânea

Reflexões Filosóficas sobre o Tempo e a Pressa no Mundo Contemporâneo

Este é mais um de meus momentos dezembrino de reflexão, este mês de dezembro carrega com ele toda sua energia de finalização e recomeço, o ano está chegando ao fim e sinto que o ano que finaliza avançou com tudo muito rápido, tudo muito instantâneo.

A ideia de sabedoria instantânea soa quase como um paradoxo em minha mente. Percebi que vivemos em uma época em que tudo é rápido: notícias, comida, relações, decisões. Tudo precisa ser resolvido agora. "Instantâneo" se tornou uma palavra que define não apenas a tecnologia, mas também o modo como buscamos respostas e soluções para a vida cotidiana. Então, o que significa ser "sábio" em um mundo onde a pressa parece ser a regra?

Eu estava pensando nisso outro dia enquanto observava o movimento frenético das pessoas ao meu redor. Alguém, com pressa de sair de casa, mal teve tempo de se despedir dos filhos, já estava no carro e, no minuto seguinte, mandando uma mensagem urgente. A vida não para, e nesse turbilhão, a ideia de sabedoria instantânea vai ganhando força. Mas será que, ao buscar sabedoria de forma tão rápida, não estamos perdendo o que é essencial: o tempo para refletir, para parar e simplesmente ser?

O que é Sabedoria?

A sabedoria não se resume apenas ao conhecimento. Para Aristóteles, por exemplo, ela era uma virtude intelectual, algo que se alcança com prática e experiência. Sabedoria é mais do que ter informações; ela envolve um tipo de discernimento profundo sobre o que realmente importa e como reagir de maneira equilibrada e justa aos desafios da vida. A sabedoria, então, é uma qualidade que requer tempo. E aqui mora o dilema: como podemos ser sábios em um contexto que nos exige decisões rápidas, onde a reflexão profunda parece ser um luxo que não podemos nos dar?

A Sabedoria Instantânea nas Pequenas Coisas

É interessante como o cotidiano moderno reflete essa busca por sabedoria instantânea. Um exemplo clássico é quando estamos navegando pela internet, buscando uma resposta para uma pergunta. Em questão de segundos, encontramos milhares de respostas, fóruns, vídeos explicativos. Essa rapidez nos dá a sensação de que conseguimos resolver tudo de forma eficiente, mas será que a "sabedoria" que obtemos dessa forma é verdadeira? Será que, ao procurar uma solução rápida, não estamos negligenciando a complexidade da questão?

Outro exemplo pode ser visto nas interações sociais. Você já reparou como, em uma conversa, muitas pessoas estão mais focadas em responder rapidamente do que realmente ouvir o outro? Esse comportamento, muitas vezes impulsionado pela urgência de encontrar uma resposta ou uma solução, faz com que, em vez de construir uma troca profunda de ideias, criemos um ciclo de respostas superficiais. A verdadeira sabedoria, talvez, não resida em sempre ter uma resposta pronta, mas em saber escutar, em entender o outro sem pressa.

Filosofia e a Pressa do Mundo

O filósofo francês Henri Bergson, que refletiu sobre o tempo, nos traz uma perspectiva interessante. Para ele, o tempo não é algo que possa ser medido apenas em segundos ou minutos, mas sim vivido de forma qualitativa. Em um mundo onde tudo é pressa, a verdadeira sabedoria talvez esteja em desacelerar e perceber o "tempo vivido" – aquele que não pode ser apressado, mas que se revela lentamente, no presente, nas experiências do dia a dia.

Imaginemos, então, uma pessoa que está esperando numa fila, com o olhar impaciente, checando o celular, descontente com a "perda de tempo". Se ela se permitisse, no entanto, observar o que está ao seu redor – as conversas das outras pessoas, os detalhes do ambiente, o movimento das coisas – ela poderia descobrir, de forma quase inesperada, um momento de sabedoria. Aquele tempo "perdido" pode se transformar em algo significativo, um pequeno instante de percepção mais profunda sobre o que realmente importa.

A Sabedoria como Transformação, não Resposta Rápida

Ao invés de buscar por respostas rápidas, talvez a sabedoria esteja em permitir-se ser transformado pelas experiências, sem a pressa de precisar de uma conclusão imediata. Não se trata de ter a resposta instantânea, mas de permitir que o processo de questionamento e reflexão nos leve a uma compreensão mais rica, mais profunda e, acima de tudo, mais humana.

Portanto, a sabedoria instantânea, como um conceito, não parece se encaixar muito bem na filosofia clássica ou mesmo na maneira como a vida realmente funciona. O que encontramos em nossas interações rápidas e decisões precipitadas muitas vezes é apenas uma ilusão de controle. No entanto, ao desacelerar, ao buscar compreender o tempo e as experiências com mais profundidade, podemos descobrir uma sabedoria mais rica – a sabedoria de estar plenamente presente e consciente no fluxo da vida.

Quem sabe, no final das contas, a verdadeira sabedoria não seja algo que possamos conquistar de forma instantânea, mas sim algo que se revela a partir da paciência, da escuta e da reflexão cuidadosa sobre o que realmente importa, sem pressa. As festas de final de ano estão logo ali, hoje pensamos nos preparativos para que tudo seja feito com o melhor, aproveitemos esta distancia no tempo para desacelerar e reduzir a velocidade do caminhar, do olhar, do ouvir, procurando sentir mais e dar-nos tempo de processar a energia que desde já está impregnando nossa atenção.

Penso que esse ensaio reflete a nossa busca incessante por respostas rápidas e soluções prontas. O que você acha disso? Já teve momentos em que sentiu que a sabedoria veio de um instante simples do dia a dia?


quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Enfim, Dezembro


Dezembro sempre chega como quem abre a porta devagar, deixando entrar um vento que não é só de verão — é um vento de balanço. Um mês que parece ter memória própria, que nos chama para aquele tipo de reflexão que só aparece quando o ano começa a se despedir.

É curioso como, nas festas de final de ano, todo mundo tenta colocar a vida em ordem: arrumamos a casa, repensamos escolhas, revisitamos arrependimentos como quem folheia um álbum antigo. É quase um ritual filosófico, ainda que ninguém admita. A gente percebe que o tempo não corre — ele nos atravessa. E dezembro é o lembrete final, quase pedagógico, de que tudo muda, até aquilo que jurávamos eterno.

Nessas semanas, as luzes piscam nas ruas como se quisessem imitar o que sentimos por dentro: um misto de esperança, saudade e esse desejo meio secreto de recomeçar direito. Talvez seja isso que faz dezembro tão único: ele nos coloca diante do que fomos, mas também nos empurra para o que ainda podemos ser.

E, no fundo, há uma sabedoria simples escondida nesse mês: a de que celebrar não é esquecer a dureza do caminho, mas reconhecer que seguimos caminhando. Que apesar dos tropeços, chegamos até aqui. E que, por um instante, é permitido respirar, abraçar, agradecer — e sonhar de novo.

Dezembro não é só o fim. É o intervalo em que o espírito encontra um lugar para se ajeitar antes de começar outra jornada. E isso, por si só, já é filosofia suficiente para encerrar o ano com o coração um pouco mais inteiro.

 

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Matar o Tempo

Sabe aquele momento em que você está à toa, sem nada urgente para fazer, e acaba se perdendo em distrações? Pois é, outro dia me peguei fazendo isso, rolando sem rumo pelas redes sociais, e de repente me veio um estalo: quanto tempo eu já perdi assim, matando o tempo? E aí me bateu uma reflexão mais profunda – a vida é tão curta, e aqui estou eu, desperdiçando minutos preciosos com coisas que não vão me acrescentar nada. Foi esse insight que me fez pensar: por que a gente se permite isso? Afinal, o tempo que gastamos à toa é tempo de vida que não volta. Isso me inspirou a escrever sobre como a dispersão, essa mania de se ocupar com qualquer coisa, pode ser um verdadeiro desperdício daquilo que temos de mais valioso.

"Matando o tempo" é uma expressão que usamos quase sem pensar. Aquele momento em que estamos sem nada para fazer e, ao invés de focarmos em algo produtivo, nos jogamos em qualquer distração disponível. Pegamos o celular, navegamos pelas redes sociais, trocamos mensagens vazias, e, antes que percebamos, horas se foram. A dispersão é o grande vilão aqui: fazer muita coisa, mas nada que realmente importa.

Imagine um dia típico. Você acorda, toma um café rápido e sai para o trabalho. No transporte, ao invés de ler aquele livro que está na prateleira há meses, você decide rolar o feed do Instagram. Chegando ao trabalho, entre uma tarefa e outra, você se pega checando as notícias, respondendo mensagens ou simplesmente olhando para o nada. No final do dia, você se sente exausto, mas ao mesmo tempo com a sensação de que não fez nada de significativo. O tempo passou, mas o que você conquistou?

O filósofo francês Henri Bergson, conhecido por suas reflexões sobre o tempo, falava sobre a importância da "duração" – uma qualidade do tempo que não pode ser medida em minutos ou horas, mas sim pela intensidade das experiências que vivemos. Segundo ele, o tempo vivido, aquele preenchido com sentido e propósito, é o que realmente importa. Quando nos dispersamos, perdemos essa "duração", substituindo-a por um tempo vazio, mecânico.

Voltando ao cotidiano, pense naquelas vezes em que você se sentou para estudar ou trabalhar em algo importante, mas acabou se distraindo com mensagens ou vídeos aleatórios. A sensação de estar ocupado sem realmente estar progredindo é frustrante. Estamos fazendo muitas coisas, mas poucas delas são realmente significativas.

A vida é curta, e cada momento que temos é precioso. Matar o tempo, na verdade, é desperdiçar o pouco tempo de vida que nos foi dado. Cada minuto que passa é uma oportunidade perdida de fazer algo significativo, de criar memórias, de aprender, de crescer. Quando nos permitimos cair na dispersão, deixamos de viver plenamente, trocando momentos que poderiam ser valiosos por atividades vazias e sem propósito. No fim, matar o tempo é, na verdade, matar um pouco da própria vida.

Mas e se, ao invés de simplesmente matar o tempo, começássemos a usá-lo com intenção? Ao invés de gastar horas em redes sociais, poderíamos investir esse tempo em atividades que realmente nos trazem algo de volta – aprender uma nova habilidade, praticar um hobby, ou simplesmente ter uma conversa profunda com alguém querido. Essas são as "coisas certas" que Bergson provavelmente diria que preenchem nosso tempo com verdadeira "duração."

Assim, quando se pegar matando o tempo, pare e reflita: será que isso está realmente adicionando algo à minha vida? Porque, no fim das contas, não é sobre fazer muito, mas sim sobre fazer o que realmente importa. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Reflexões sobre a obra “Senhor das Moscas” de William Golding

A obra “Senhor das Moscas” é voltada para o gênero infanto-juvenil, foi vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 1983, a trama enfoca um grupo de meninos britânicos que ficam presos em uma ilha desabitada. Em meio a evacuação em tempo de guerra o avião britânico cai na ilha desabitada e apenas um grupo de meninos sobrevive, ao longo da estória é narrada a tentativa desastrosa de se autogovernar, pois a luta pela liderança divide a frágil sociedade "democrática" e instaura um violento conflito entre os meninos.

A estória mostra jovens concentrados em detalhes domésticos da sobrevivência, tal como fazer comida, construir abrigos, indumentária, higiene e etc., os meninos parecem ser bons moços, representantes de crianças bem-comportadas e educadas nos padrões britânicos de colonizadores.

O título da obra parece ser um tanto estranho e à prima facie não parece se relacionar com a história, porém, o título “Senhor das Moscas” é a tradução literal da palavra hebraica Ba'alzebul, ou em português, Belzebu, que, conforme o Dicionário Aurélio, significa o nome de um dos demônios, o chefe dos espíritos malignos, o que mostra a visão pessimista do autor em relação à humanidade, e que atravessa toda sua obra. O título está ligado a ideia de Belzebu/Leviatã o demônio associado ao orgulho e à guerra, os dois assuntos centrais da trama. Além disso, o clássico é uma sátira à narrativa problemática de que os conhecimentos dos europeus eram superiores a quaisquer outros. Golding através da história aborda isso na obra transformando os garotos em nativos selvagens que destroem uns aos outros em busca de poder, funciona como uma metáfora ao relacionamento humano. A luta dos meninos é a luta pelo poder tal como acontece no mundo dos adultos, onde forças tentam estabelecer seu domínio custe o custar, marcados por oposição, conflito e disputa, nesta disputa pelo poder e as discordâncias referentes à sobrevivência dão lugar à violência e a selvageria.

 


A obra pode ser interpretada sob várias perspectivas, tal como uma analogia da luta entre a democracia, na qual todos podem expressar suas ideias, mas que, por outro lado, tantas vozes culminam em decisões arrastadas e controversas, e a ditadura, na qual um tirano se estabelece sem o consentimento dos governados formado a partir de um sistema hierárquico baseado na punição e no medo. Percebe-se que a obra vai além do gênero infanto-juvenil, agradando aos demais gêneros proporcionando uma produtiva reflexão sobre a liderança democrática e autoritária, motivando reflexões em algumas áreas das ciências humanas, especialmente filosofia, direito e psicanálise, voltadas à discussão sobre a maldade e desumanidade.

Não foi por acaso que Golding desenvolveu a trama, a história de vida de William Golding e o que o levou a escrever esse clássico, foram os responsáveis pela construção da obra na forma de protesto. Golding dava aulas de filosofia em uma escola particular para garotos, em seguida serviu a bordo de um destróier britânico durante a guerra e se tornou um tenente da Marinha Real. Quando ele voltou da guerra, encontrou duas maiores potências do mundo ameaçando uma a outra com bombas nucleares. Isso fez com que o professor começasse a questionar as origens da natureza humana. Essas constantes reflexões sobre a violência (talvez) inevitável do ser humano o levaram e escrever o tão famoso “Senhor das Moscas”.

Enredo

No meio de uma evacuação em tempo de guerra, um avião britânico bate em uma ilha isolada ou próxima a ela em uma região remota do Oceano Pacífico. Os únicos sobreviventes são meninos na pré-adolescência. Dois meninos - o loiro Ralph e um garoto com excesso de peso e óculos, apelidado de "Piggy" - encontram uma concha, que Ralph usa como apito para reunir todos os sobreviventes em uma área. Ralph parece responsável por reunir todos os sobreviventes, então imediatamente comanda alguma autoridade sobre os outros garotos e é rapidamente eleito seu "chefe". Ele não recebe os votos dos membros de um grupo de meninos, liderado pelo ruivo Jack Merridew, mas permite que eles formem uma turma separada de caçadores. Ralph estabelece três políticas principais: divertir-se, sobreviver e manter constantemente um sinal de fumaça que poderia alertar os navios que passavam sobre sua presença na ilha e, assim, resgatá-los. Os meninos estabelecem uma forma de democracia, declarando que quem quer que tiver segurar a concha também poderá falar nas reuniões formais e receber o silêncio atento do grupo. Jack organiza uma equipe de caça responsável por descobrir uma fonte de alimento. Ralph, Jack e um garoto quieto e sonhador chamado Simon logo formam um triunvirato de líderes, com Ralph como a autoridade suprema. Após a inspeção da ilha, os três determinam que ela possui frutas e porcos selvagens como alimento.

A aparência de ordem deteriora-se rapidamente à medida que a maioria dos meninos fica ociosa; eles ajudam pouco na construção de abrigos, passam o tempo se divertindo e começam a desenvolver paranoias sobre a ilha, sendo a principal delas a que se refere a um suposto monstro que eles chamam de "besta", que todos lentamente começam a acreditar que existe na ilha. Ralph insiste que não existe tal fera, mas Jack, que iniciou uma luta pelo poder com Ralph, ganha um nível de controle sobre o grupo ao prometer ousadamente matar a criatura. A certa altura, Jack convoca todos os seus caçadores para caçar um porco selvagem, afastando os designados de manter o sinal de fogo. Um navio passa perto da ilha, mas sem o sinal de fumaça dos meninos para alertar sua tripulação, ele continua sua viagem. Ralph, com raiva, confronta Jack sobre sua falha em manter o sinal aceso.

Uma noite, uma batalha aérea ocorre perto da ilha enquanto os meninos dormem, durante os quais um piloto de caça ejeta de seu avião e morre na descida. Seu corpo desce para a ilha em seu paraquedas; ambos se enroscam em uma árvore perto do topo da montanha. Mais tarde, enquanto Jack continua planejando contra Ralph, os gêmeos Sam e Eric, agora encarregados da manutenção do sinal de fogo, veem o cadáver do piloto de caça e seu paraquedas no escuro. Confundindo o cadáver com a besta, eles correm para o aglomerado de abrigos que Ralph e Simon ergueram, para avisar os outros. Esse encontro inesperado novamente levanta tensões entre Jack e Ralph. Pouco tempo depois, Jack decide liderar uma festa para o outro lado da ilha, onde uma montanha de pedras, mais tarde chamada Castle Rock, forma um lugar onde ele afirma que o animal reside. Apenas Ralph e um garoto silencioso e suspeito, Roger, o mais próximo defensor de Jack, concordam em ir; Ralph se vira um pouco antes dos outros dois garotos, mas eventualmente os três veem o corpo do piloto, cuja cabeça se eleva pelo vento. Eles então fogem, agora acreditando que o monstro é real. Quando eles chegam aos abrigos, Jack convoca uma assembleia e tenta virar os outros contra Ralph, pedindo que removam Ralph de sua posição de poder. Não recebendo apoio, Jack sai sozinho para formar sua própria tribo. Roger imediatamente foge para se juntar a Jack, e lentamente um número crescente de meninos mais velhos abandonam Ralph para se juntar à tribo de Jack. A tribo de Jack continua a atrair recrutas do grupo principal, prometendo festas de porco cozido. Os membros começam a pintar o rosto e encenar rituais bizarros, incluindo sacrifícios à besta. Uma noite, Ralph e Piggy decidem ir a uma das festas de Jack.

Simon, que desmaia com frequência e provavelmente é epilético, tem um esconderijo secreto onde fica sozinho. Um dia, enquanto ele está lá, Jack e seus seguidores erguem uma oferenda para a besta: uma cabeça de porco, montada em uma vara afiada e rodeada de moscas. Simon conduz um diálogo imaginário com a cabeça, que ele chama de "Senhor das Moscas". A cabeça zomba da noção de Simon de que ela é uma entidade real, "algo que você poderia caçar e matar", e revela a verdade: eles, os meninos, são a besta; está dentro de todos eles. O Senhor das Moscas também adverte Simon que ele está em perigo, porque representa a alma do homem e prevê que os outros o matarão. Simon sobe a montanha sozinho e descobre que a "besta" é o paraquedista morto. Ele corre para contar aos outros garotos, que estão envolvidos em uma dança ritual. Os meninos frenéticos confundem Simon com a besta, o atacam e o espancam até a morte. Tanto Ralph quanto Piggy participam da confusão e ficam profundamente perturbados por suas ações depois de voltarem de Castle Rock.

Jack e sua tribo rebelde decidem que o verdadeiro símbolo do poder na ilha não é a concha, mas os óculos de Piggy - o único meio que os meninos têm para criar fogo. Eles invadem o acampamento de Ralph, confiscam os óculos e retornam à Castle Rock. Ralph, agora abandonado pela maioria de seus apoiadores, viaja para Castle Rock para enfrentar Jack e proteger os óculos. Tomando a concha e acompanhado apenas por Piggy, Sam e Eric, Ralph encontra a tribo e exige que eles devolvam o objeto valioso. Confirmando sua total rejeição à autoridade de Ralph, a tribo captura e prende os gêmeos sob o comando de Jack. Ralph e Jack se envolvem em uma luta. Qualquer senso de ordem ou segurança é permanentemente corroído quando Roger, agora sádico, deliberadamente deixa joga uma pedra que mata Piggy e quebra a concha. Ralph consegue escapar, mas Sam e Eric são torturados por Roger até que concordem em se juntar à tribo de Jack.

Ralph secretamente confronta Sam e Eric, que avisam que Jack e Roger o odeiam e que Roger afiou um graveto nos dois extremos, o que implica que a tribo pretende caçá-lo como um porco e decapitá-lo. Na manhã seguinte, Jack ordena que sua tribo comece uma caçada por Ralph. Os selvagens de Jack ateiam fogo na floresta, enquanto Ralph avalia desesperadamente suas opções de sobrevivência. Após uma longa perseguição, a maior parte da ilha é consumida pelas chamas. Com os caçadores logo atrás dele, Ralph tropeça e cai. Ele olha para um adulto uniformizado - um oficial da Marinha Real Britânica cujo grupo desembarcou de um cruzador que veio investigar o incêndio. Ralph começa a chorar pela morte de Piggy e pelo "fim da inocência". Jack e os outros meninos, imundos e desleixados, também voltam à sua verdadeira idade e começam a chorar. O oficial expressa sua decepção ao ver meninos britânicos exibindo um comportamento feroz e bélico antes de se virar para encarar desajeitadamente seu próprio navio de guerra.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Senhor_das_Moscas

Li este livro fazem três anos, lembrei dele ao ver repetidamente nos noticiários da selvageria, corrupção e maldade, apreensões de quantidades gigantescas de drogas e o envolvimento cada vez mais cedo de jovens no mundo do tráfico e consumo de drogas, é chocante como a juventude vem concebendo o momento ímpar de sua existência, muitos estão mergulhando profundamente no mundo obscuro e sombrio do mal que assola a humanidade, a entrada neste submundo acaba roubando-lhes o brilho da juventude e a chance de futuro.

Sabemos através das pesquisas que o motivo citado pelos jovens para justificar a entrada no tráfico e de todo o mal contido neste submundo é principalmente a questão financeira, a dificuldade em conseguir empregos, e aqueles que conseguem emprego encontram condições precárias de trabalho, tornando no entendimento destes jovens a opção pela atividade ilícita mais atraente. Muitos também vão em busca por adrenalina e aceitação deles como “alguém” num grupo, muitas vezes através da ligação com amigos, no entanto, sentindo-se fora do contexto em que foram criados, os seus modos e educação vão se esvaindo e os jovens vão revelando seus impulsos mais viscerais, acabam refugiando-se num mundo à parte, tal como uma ilha onde eles têm suas leis e suas regras, são convidados a ocupar os espaços vazios deixados ou abandonados pela sociedade, na desordem do estado os donos da Nova Ordem orquestram os acontecimentos e a desordem é ordenada, os jovens são os soldados que lutam nestes espaços.

Perguntamo-nos se o problema do tráfico de drogas seria especificamente culpa e falha das instituições e da legislação deficiente, ou se a relação família, escola e o mundo do trabalho não estariam integrados suficientemente para conduzir os jovens ao rumo certo. Penso que todos estes fatores formam um processo, nestas falhas estaríamos deixando margem para grupos de traficantes aproveitarem-se dos jovens que tornam-se presa fácil dos comandos de traficantes experientes, ordenam aos seus “head Hunters” mirarem nos jovens como possibilidade de exploração protegidos pela legislação.

As leis, os regramentos e o consenso não estão sendo suficientes para conter o âmago da natureza humana, os representantes da lei trabalham arduamente no combate ao tráfico, mas a luta é desigual, pois lutam contra as consequências, a origem não é combatida, eles prendem, a justiça liberta graças a legislação incompetente de nossos legisladores, o ciclo vicioso se repete diariamente, alimentado pela ideia de que o crime compensa.

Ao final perguntamo-nos o que é o “senhor das moscas”?, aqueles que lerem o livro poderão entender que a resposta está na metáfora, a metáfora vai além de uma contraposição dogmática entre civilização democrática e a barbárie, porque nos dá a possibilidade de conhecer os dilemas da fragilidade humana. O subterrâneo bárbaro eternamente presente na civilização também está em cada um de nós, pronto para nos destruir e consumir, ele não vem de fora, não é tão estranho quanto desejam os apologistas ingênuos da civilização. A narrativa de ficção de Golding nos apresenta, de modo simbólico, uma verdade atual: os dilemas de nossa revolta, nosso duelo contemporâneo entre dois titãs: um deus mortal, o Leviatã, e outro deus imortal, o coletivo Behemot (Figura da escatologia judaica de origem babilônica, na qual designava dois monstros terríveis. Behemoth reina sobre a terra e Leviatã, sobre os mares). O Senhor das Moscas - que a tudo vê é a lei da Nova Ordem. Mesmo extinguindo-se em sua forma física, sua presença permanece sendo sentida – assim como os seus efeitos. O Senhor das Moscas é a Lei da Nova Ordem! Lutar contra este mal deve ir além da fé de mãos levantadas, vamos abrir os olhos, e atuarmos ficando atentos ao rumo dos jovens, toda atenção a eles para os apoiarmos a dizer não para o que parece ser fácil e glamoroso do portar uma arma e um boné de grife!

 

Filme: Além do livro a trama também se tornou conhecida indo em duas oportunidades para as telas do cinema: em 1963, sob a direção de Peter Brook, e em 1990, de Harry Hook.

Filme disponível no link:

https://www.youtube.com/watch?v=9Br9RAXvioU

 

Fontes:

Golding, William. Senhor das Moscas – tradução Sergio Flaksman. 1ª.ed. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.224p.

http://www.salacriminal.com/home/o-senhor-das-moscas-a-lei

https://tmjuntos.com.br/comunicacao/reflexoes-sobre-a-natureza-humana-em-o-senhor-das-moscas/

https://amenteemaravilhosa.com.br/senhor-das-moscas/