Tem dias
em que eu entro numa cafeteria — dessas comuns, de esquina — e fico só
observando. Não é nem pelo café, embora ele ajude. É mais pelo teatro
silencioso das pessoas. E foi ali, entre uma xícara e outra, que a tal da incivilidade
crassa começou a me incomodar de verdade.
Não é
aquela falta de educação leve, quase desculpável. Não. É algo mais duro, mais
escancarado. Tipo o sujeito que fala alto ao telefone como se estivesse sozinho
no mundo, ou alguém que trata o garçom com uma mistura de pressa e desprezo —
como se o outro fosse um detalhe descartável da cena.
E o
curioso é que isso não acontece só em momentos de tensão. Às vezes surge no
cotidiano mais banal: na fila do mercado, no trânsito, numa conversa entre
conhecidos. É como se a delicadeza tivesse sido aposentada sem aviso prévio.
Eu fico
pensando se isso é pressa. Ou pior: se é indiferença.
Lembro de
Sérgio Buarque de Holanda, quando ele fala do “homem cordial”. Muita
gente entende errado — acha que cordialidade é gentileza automática. Mas não.
Ele dizia que o brasileiro age muito pelo coração, pelas emoções. E aí está o
risco: quando o coração se fecha ou se irrita, a cordialidade vira o oposto —
vira explosão, descaso, incivilidade sem filtro.
A
incivilidade crassa talvez seja isso: um coração que já não se regula pela
presença do outro.
E tem um
detalhe incômodo — ela raramente vem sozinha. Ela contamina. Um gesto bruto
chama outro. Um comentário atravessado abre espaço para respostas ainda piores.
De repente, o ambiente inteiro muda de temperatura, como se alguém tivesse
baixado a qualidade invisível do ar.
Já
percebi isso no trânsito. Basta um motorista agir como se tivesse mais direito
que os outros. Em segundos, surge uma corrente de irritação: buzinas,
xingamentos, disputas inúteis. Ninguém ganha, mas todos participam.
O mais
estranho é que a incivilidade crassa não exige inteligência, nem coragem. Pelo
contrário — ela é quase automática. Um reflexo. Um tipo de preguiça moral.
Ser
civilizado, no fundo, dá mais trabalho.
Exige um
pequeno esforço de imaginação: reconhecer que o outro também sente, também
cansa, também existe. Exige freio. Exige pausa. Coisas que o nosso tempo anda
tratando como luxo.
E aí,
naquela cafeteria, eu percebo uma coisa simples: ainda existem pequenos gestos
que vão na contramão disso tudo. Um “obrigado” dito com atenção. Alguém que
segura a porta. Um olhar que reconhece.
São
gestos mínimos, quase invisíveis. Mas talvez sejam eles que seguram o mundo no
lugar.
Porque
quando a incivilidade deixa de ser exceção e vira regra, o que se perde não é
só a educação.
É a
possibilidade de convivência.