Tem algo
de curioso quando a gente ouve “promiscuidade flagrante”. A expressão já
chega com um dedo em riste, como se estivesse apontando uma falha moral no
outro — ou, às vezes, em nós mesmos, naquele espelho meio incômodo das escolhas
que a gente prefere não explicar demais.
No
cotidiano, essa “flagrância” aparece em cenas bem comuns: o colega de trabalho
que se envolve com várias pessoas do mesmo círculo, o amigo que vive pulando de
relação em relação sem sequer dar nome ao que sente, ou até aquele ambiente
onde tudo se mistura — afetos, interesses, conveniências — como se não houvesse
mais fronteiras claras. Não é só sobre sexo. É sobre mistura sem critério,
sobre relações que perdem forma.
E aí
começa a ficar mais interessante (e mais honesto também). Porque o que chamamos
de promiscuidade, muitas vezes, diz mais sobre quem observa do que sobre
quem vive. O olhar que julga precisa de alguma ordem para se sustentar.
Quando vê alguém vivendo fora desse roteiro — sem hierarquia, sem sequência,
sem o “deveria ser assim” — reage chamando de excesso, de descontrole, de
queda.
Lembro de
uma provocação de Zygmunt Bauman, quando ele fala da modernidade
líquida: relações que não querem endurecer, vínculos que evitam virar
compromisso sólido. Nesse cenário, o que antes seria visto como exceção vira
quase regra — e o rótulo de “promiscuidade” começa a parecer meio deslocado,
como um conceito antigo tentando explicar um mundo que já mudou de forma.
Mas
também não dá pra romantizar tudo. Existe, sim, uma espécie de vazio quando
tudo é possível o tempo todo. Quando não há escolha que se sustente, quando
tudo pode ser trocado com facilidade, o excesso vira ruído. E o ruído cansa. A
tal “promiscuidade flagrante” pode ser, nesse caso, menos liberdade e mais
dificuldade de permanecer — em alguém, em algo, em si mesmo.
No fundo,
talvez a questão não seja quantas relações alguém tem, mas o que acontece
dentro delas. Há encontros que, mesmo breves, são inteiros. E há relações
longas que são vazias. A diferença não está na quantidade, mas na presença.
E aí fica
aquela pergunta meio desconfortável, que a gente leva pra um café sozinho,
desses que você costuma tratar como refúgio:
a gente chama de promiscuidade porque há excesso… ou porque falta sentido?
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