Tem
algo curioso na vida: às vezes a gente sente que poderia ser mais — não no
sentido grandioso, mas naquela impressão discreta de que existe algo em nós que
ainda não foi usado. Como se certas capacidades estivessem ali, quietas,
esperando uma ocasião que nunca chega… ou que a gente nunca cria, estou me
referindo as “habilidades adormecidas”.
O
que são habilidades adormecidas?
Chamamos
de “habilidades adormecidas” aquilo que não desapareceu, mas também não se
manifesta. Não é falta — é latência.
Aristóteles
já falava em potência e ato: somos, em grande parte, aquilo que ainda não
realizamos. Existe uma diferença entre ter a capacidade e colocá-la
em prática. E é exatamente nesse intervalo que muitas habilidades
permanecem adormecidas.
Podemos
ter sensibilidade artística e nunca ter tentado criar. Podemos ter facilidade
para escutar pessoas e nunca ter percebido isso como um dom. Podemos ter
coragem — mas nunca termos sido colocados numa situação que a exija.
O
conforto como anestesia
Um
dos maiores paradoxos é que nem sempre o que impede o despertar dessas
habilidades é a dificuldade, mas o conforto.
Quando
tudo funciona “bem o suficiente”, não há urgência para explorar o que está
além. A rotina organiza a vida, mas também pode limitar o campo de experiência.
Friedrich
Nietzsche criticava essa tendência à acomodação: para ele, o
ser humano se expande justamente quando é confrontado, quando precisa ir além
do que já é. Sem tensão, não há transformação.
Talvez
muitas habilidades permaneçam adormecidas não por incapacidade, mas por
ausência de provocação.
O
medo de descobrir
Mas
nem tudo é conforto. Há também um medo mais sutil: o medo de descobrir do que
somos capazes.
Porque
despertar uma habilidade não é só ganhar algo — é também perder uma desculpa.
Enquanto algo está adormecido, podemos dizer “eu poderia, se quisesse”. Quando
tentamos de fato, entramos no território do risco: e se não formos tão bons
quanto imaginávamos?
Carl
Gustav Jung falava sobre o potencial não vivido como
uma espécie de sombra. Não apenas nossos defeitos ficam ocultos — nossas
possibilidades também. E, às vezes, elas assustam tanto quanto aquilo que
evitamos.
Pequenos
despertares
O
curioso é que habilidades raramente despertam em grandes momentos. Elas
aparecem em situações pequenas:
- quando resolvemos tentar algo novo
sem compromisso;
- quando alguém reconhece em nós algo
que nunca nomeamos;
- quando a vida exige uma resposta que
não sabíamos que tinhamos.
Não
há um “grande botão” que ativa tudo. Há pequenas fricções que vão acordando
partes esquecidas dentro de nós.
Uma
inquietação final
Talvez
o problema não seja “descobrir talentos”, como se eles estivessem escondidos em
algum lugar secreto. Talvez seja mais simples — e mais difícil: criar condições
para que aquilo que já está em nós tenha espaço para aparecer.
Porque,
no fundo, a pergunta não é só “o que eu sei fazer?”, mas:
o
que em mim nunca teve a chance de acontecer?
E
essa pergunta muda tudo — porque ela não aponta para o que falta, mas para o
que espera.
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