Há
uma prisão silenciosa que poucos reconhecem: não tem grades, não tem muros, mas
tem roteiro. É a narrativa que contamos sobre nós mesmos — aquela história
repetida tantas vezes que começa a parecer verdade absoluta. “Eu sou assim”,
“minha vida sempre foi assim”, “as coisas nunca dão certo pra mim”.
E, sem perceber, deixamos de viver a vida como experiência e passamos a vivê-la
como confirmação de uma história já escrita.
O
curioso é que essa prisão não foi imposta de fora. Ela foi construída com
fragmentos de memória, interpretações e, principalmente, com a necessidade
humana de dar sentido ao caos. Como já sugeria Friedrich Nietzsche, não
existem fatos, apenas interpretações. Mas o problema começa quando esquecemos
que estamos interpretando — e passamos a acreditar que nossa versão é a
realidade em si.
No
cotidiano, isso aparece de formas quase invisíveis. A pessoa que falha uma vez
em público e decide: “não sou bom com pessoas”. O trabalhador que recebe
críticas e conclui: “não sou capaz”. O casal que enfrenta uma crise e sela o
destino: “não fomos feitos um para o outro”. Em todos esses casos, não é o fato
que aprisiona — é a narrativa construída a partir dele.
E
há um conforto nisso. Narrativas são previsíveis. Elas organizam o mundo,
reduzem a ansiedade do desconhecido. Estar preso à própria história,
paradoxalmente, pode parecer mais seguro do que admitir que tudo ainda está em
aberto. Afinal, reescrever a narrativa exige responsabilidade — e liberdade
demais também assusta.
Mas
há um ponto de ruptura. Um instante em que algo não encaixa mais. A narrativa
começa a falhar, como um roteiro mal escrito que já não convence nem o próprio
autor. E é nesse momento que surge uma pergunta incômoda: e se eu não for
isso que venho dizendo que sou?
Essa
pergunta tem algo de libertador e algo de perigoso. Libertador porque rompe o
determinismo psicológico. Perigoso porque dissolve identidades. O filósofo
brasileiro Luiz Felipe Pondé costuma lembrar que o ser humano tem uma
relação complicada com a verdade — preferimos histórias que nos confortam a
verdades que nos desestabilizam. E abandonar uma narrativa é, inevitavelmente,
perder um tipo de conforto.
Mas
talvez viver não seja confirmar histórias — seja experimentá-las. Talvez
identidade não seja uma definição, mas um movimento. Um verbo, não um
substantivo.
No
fundo, estar preso à narrativa é confundir memória com destino. É esquecer que
o passado é matéria-prima, não sentença. E que, a qualquer momento — mesmo
agora — algo pode acontecer que não cabe na história que você vem contando.
E
então surge a possibilidade mais radical de todas:
não
a de encontrar quem você é,
mas
a de deixar de ser apenas aquilo que você contou até aqui.
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