O direito de não entender
A
gente tem uma mania curiosa: aconteceu alguma coisa, e já queremos saber o
porquê. Como se a vida fosse uma narrativa bem escrita, com começo, meio e fim
— e, de preferência, uma moral no final.
Perdeu
o ônibus? “Era pra ser.” Terminou um relacionamento? “Tinha um aprendizado aí.”
Algo dá errado? “O universo quis assim.” A gente não apenas vive — a gente
interpreta. O tempo todo.
Mas
e se isso for um excesso?
E
se nem tudo tiver sentido — não por falha nossa, mas porque a vida, em si, não
funciona como um sistema lógico?
É
aqui que o incômodo começa. Porque admitir isso não é elegante. Não tem frase
de efeito, não tem conforto imediato. Há um certo vazio nessa ideia — e talvez
seja justamente por isso que a evitamos.
Albert
Camus chamava isso de absurdo: o desencontro entre a
nossa necessidade de sentido e o silêncio do mundo. A vida não responde. E o
problema é que a gente insiste em fazer perguntas.
Mas
talvez a coisa fique ainda mais desconfortável se dermos um passo além, como
sugere Luiz Felipe Pondé: e se essa obsessão por sentido não for uma
busca nobre, mas uma forma de autoengano?
Talvez
a gente não queira sentido. Talvez a gente queira anestesia.
Criamos
narrativas bonitas — “tudo acontece por um motivo”, “isso vai me fazer
crescer”, “era destino” — não necessariamente porque acreditamos nelas, mas
porque elas aliviam o peso de viver num mundo que não se explica. É uma espécie
de maquiagem existencial.
E
aqui mora uma armadilha sutil: até o discurso de aceitar o caos pode virar mais
uma narrativa confortável. Dizer “a vida não faz sentido” pode ser só mais um
jeito sofisticado de dar sentido à falta de sentido.
No
fundo, a gente continua tentando organizar o caos — só que agora com palavras
mais profundas.
Enquanto
isso, a vida acontece de um jeito muito mais simples e muito mais estranho.
Um
café tomado sem pressa, sem reflexão nenhuma, só o gesto. Um dia que não ensina
nada. Uma conversa que não leva a lugar algum. Um erro que não se transforma em
lição. Há algo quase proibido nisso: viver sem traduzir imediatamente.
Clarice
Lispector parecia entender esse ponto como poucos. Em vez de
explicar, ela rondava o mistério. Seus textos não entregam sentido — eles
desmancham a expectativa de que o sentido esteja ali, pronto.
E
talvez seja esse o ponto mais difícil de aceitar: há experiências que não
precisam ser compreendidas para serem legítimas.
Nem
tudo é mensagem. Nem tudo é sinal. Nem tudo é parte de um plano.
Às
vezes, é só o que é.
E
isso não diminui a vida — isso a torna mais crua, mais direta, até mais
honesta. Porque, ao abrir mão da necessidade de sentido constante, a gente
também abre mão de um certo controle ilusório.
A
vida deixa de ser um enigma a ser resolvido e passa a ser algo que simplesmente
se atravessa.
E
atravessar exige menos explicação e mais presença.
Talvez
o verdadeiro desafio não seja encontrar sentido em tudo, mas suportar que
algumas coisas nunca terão nenhum — e ainda assim continuar vivendo sem
transformar isso numa crise permanente.
No
fim, o direito de não entender pode ser uma das formas mais radicais de
liberdade.
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