Tem
dias em que a gente se encontra… como quem tropeça numa esquina qualquer. Não
tem anúncio, não tem trilha sonora — só um instante meio estranho em que algo
em nós diz: “peraí… esse sou eu?”
O
curioso é que esse encontro raramente acontece quando estamos procurando. A
gente passa anos tentando “se encontrar” como se fosse um objeto perdido — uma
chave esquecida no bolso errado, uma estante onde a identidade estaria
organizada por categorias: trabalho, gostos, relações. Mas não é assim. Não
existe essa prateleira limpa esperando por nós.
O
encontro de si é mais parecido com reconhecer um rosto no meio da multidão. E
esse rosto, às vezes, está cansado, às vezes está meio desalinhado com o que a
gente imaginava ser. Aí vem um pequeno choque: eu não sou exatamente aquilo que
planejei… mas também não sou estranho a mim.
Lembro
de Friedrich Nietzsche, que dizia algo como “torna-te quem tu és”.
Parece simples, mas é quase um enigma. Como se tornar algo que já se é? Talvez
porque a gente passe boa parte da vida sendo versões emprestadas — o que
esperam da gente, o que funciona socialmente, o que evita conflito. E no meio
disso, o “si” fica abafado, mas não desaparece.
Esse
encontro costuma acontecer em momentos banais. Num café sozinho, quando o
barulho ao redor vira fundo. Numa decisão pequena — dizer “não” onde sempre foi
“sim”. Ou até naquele silêncio depois de um dia cheio, quando não sobra mais
energia pra sustentar personagens.
E
aí você percebe: não é que você se encontrou de uma vez por todas. Você só se
reconheceu… por um instante.
Talvez
seja isso — o encontro de si não é um destino, é uma série de reconhecimentos
ao longo do tempo. Pequenas confirmações de que, apesar de tudo, existe uma
linha invisível que te atravessa e te mantém sendo você, mesmo mudando.
No
fim, não é uma estante organizada.
É mais como um espelho meio embaçado, que de vez em quando limpa sozinho — e você se vê.
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