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quinta-feira, 9 de abril de 2026

Filhos Projetados

Carregam Sonhos inacabados

Tem gente que cresce como quem veste uma história pronta. Não percebe no começo — afinal, aquilo parece natural: os gostos “que sempre teve”, os caminhos “que foram acontecendo”, as escolhas “óbvias”. Mas, olhando com mais calma, tudo já estava meio desenhado antes mesmo de existir consciência suficiente para escolher.

O filho projetado é aquele que carrega, sem perceber, os sonhos inacabados dos pais. Às vezes é o pai que não pôde estudar e transforma o filho no estudante exemplar. Às vezes é a mãe que abriu mão de si e, silenciosamente, ensina a filha a fazer o mesmo. Outras vezes é mais sutil: expectativas de sucesso, de comportamento, de felicidade — todas embaladas como se fossem desejos próprios.

No cotidiano, isso aparece de formas quase invisíveis. A escolha do curso que “faz mais sentido”, o desconforto ao pensar em mudar de caminho, a culpa ao decepcionar expectativas que nunca foram explicitamente cobradas, mas sempre estiveram ali, no ar. O filho projetado aprende cedo a ler o ambiente, a ajustar suas decisões para manter uma harmonia que, no fundo, não nasceu dele.

O problema é que essa harmonia tem um preço. Porque, em algum ponto, surge um ruído interno — uma sensação de deslocamento difícil de nomear. Como se a vida estivesse funcionando, mas não estivesse sendo vivida de dentro.

O antropólogo David Le Breton fala sobre a necessidade de “desaparecer de si” em certos momentos — não como fuga, mas como pausa, como suspensão das identidades impostas. No caso dos filhos projetados, esse desaparecimento pode ser a primeira forma de resistência: um afastamento silencioso das expectativas, uma tentativa de ouvir algo que nunca teve espaço para falar.

Mas esse movimento não é simples. Porque romper com uma projeção não é apenas mudar de caminho — é, muitas vezes, enfrentar o medo de decepcionar, de perder pertencimento, de não saber quem se é sem aquele roteiro. É sair de um papel bem ensaiado para um palco onde não há falas prontas.

E aí entra uma questão delicada: até que ponto aquilo que você chama de “você” é realmente seu? Não é uma pergunta confortável. Mas talvez seja necessária.

Filhos projetados costumam ser bons em muitas coisas — justamente porque aprenderam a corresponder. Só que viver não é apenas corresponder. Existe uma diferença sutil entre dar continuidade a algo e apenas reproduzir.

Talvez o verdadeiro trabalho de quem foi projetado seja, aos poucos, reescrever a própria narrativa. Não negando completamente o que veio antes — porque isso também faz parte —, mas escolhendo o que permanece e o que precisa ser deixado.

Penso que no fim, não se trata de romper com os pais, mas com a ideia de que você precisa ser aquilo que imaginaram. E isso exige uma coragem silenciosa: a de desapontar expectativas externas para finalmente encontrar uma coerência interna.

Porque há um momento em que a vida deixa de perguntar “o que esperam de mim?” e começa, finalmente, a perguntar “o que, de fato, faz sentido para mim?”.


quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Filhos do Capitalismo


Às vezes a gente se pega pensando: será que vivemos o capitalismo ou o capitalismo vive através de nós? Crescemos ouvindo sobre “correr atrás dos nossos sonhos”, mas logo entendemos que esses sonhos geralmente vêm com etiqueta de preço. Da mochila da escola com a marca da moda até o celular que dita se estamos ou não atualizados, a vida vai ensinando, de forma sutil, que não basta existir — é preciso consumir para ser reconhecido. E assim, nos tornamos filhos de um sistema que nos molda desde o berço, mas que também herdamos como se fosse uma segunda pele.

O capitalismo não é apenas um modo de produção, como diria Marx, mas um modo de vida. Ele não se limita às fábricas e escritórios: ele invade afetos, amizades e até amores. Quantas vezes já não vimos relações nascerem ou morrerem por causa da falta — ou do excesso — de dinheiro? O capital, como Marx analisou no O Capital, transforma tudo em mercadoria, até aquilo que deveria ser inegociável: o tempo, o corpo, o desejo.

Mas há algo de ainda mais profundo. Somos educados para sermos sujeitos competitivos, para medir nossa dignidade pelo poder de compra, para crer que liberdade significa ter escolha de produtos nas prateleiras. Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, mostra como o capitalismo contemporâneo não precisa mais de um patrão que grite ordens; somos nós mesmos que nos exploramos, correndo atrás de metas pessoais, produtividade, empreendedorismo. O sujeito se torna empresa de si mesmo, e fracassar deixa de ser questão coletiva para ser culpa individual.

No Brasil, Milton Santos trouxe uma leitura ainda mais afiada: vivemos a “globalização perversa”, onde a promessa de modernidade é seletiva. Para poucos, o capitalismo dá asas; para a maioria, grilhões. Isso nos revela que, como filhos desse sistema, somos educados a naturalizar desigualdades, a acreditar que quem não “vence” é porque não se esforçou o suficiente, esquecendo que o jogo já começa viciado.

E é curioso: ser filho do capitalismo não significa apenas obedecer, mas também resistir. Cada gesto de solidariedade fora da lógica da troca, cada encontro que não se mede em dinheiro, é um lembrete de que podemos reinventar a herança recebida. Somos filhos, sim, mas filhos que podem questionar os pais — e talvez criar novos modos de vida.

No fundo, talvez estejamos numa encruzilhada: seguir repetindo o DNA do sistema ou experimentar mutações, criando outros caminhos de ser e viver. Como diria Cornelius Castoriadis, a sociedade não é destino, mas criação. Se o capitalismo nos pariu, cabe a nós decidir se vamos apenas reproduzir sua voz ou se seremos capazes de inventar novas formas de existência.