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quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Filhos do Capitalismo


Às vezes a gente se pega pensando: será que vivemos o capitalismo ou o capitalismo vive através de nós? Crescemos ouvindo sobre “correr atrás dos nossos sonhos”, mas logo entendemos que esses sonhos geralmente vêm com etiqueta de preço. Da mochila da escola com a marca da moda até o celular que dita se estamos ou não atualizados, a vida vai ensinando, de forma sutil, que não basta existir — é preciso consumir para ser reconhecido. E assim, nos tornamos filhos de um sistema que nos molda desde o berço, mas que também herdamos como se fosse uma segunda pele.

O capitalismo não é apenas um modo de produção, como diria Marx, mas um modo de vida. Ele não se limita às fábricas e escritórios: ele invade afetos, amizades e até amores. Quantas vezes já não vimos relações nascerem ou morrerem por causa da falta — ou do excesso — de dinheiro? O capital, como Marx analisou no O Capital, transforma tudo em mercadoria, até aquilo que deveria ser inegociável: o tempo, o corpo, o desejo.

Mas há algo de ainda mais profundo. Somos educados para sermos sujeitos competitivos, para medir nossa dignidade pelo poder de compra, para crer que liberdade significa ter escolha de produtos nas prateleiras. Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, mostra como o capitalismo contemporâneo não precisa mais de um patrão que grite ordens; somos nós mesmos que nos exploramos, correndo atrás de metas pessoais, produtividade, empreendedorismo. O sujeito se torna empresa de si mesmo, e fracassar deixa de ser questão coletiva para ser culpa individual.

No Brasil, Milton Santos trouxe uma leitura ainda mais afiada: vivemos a “globalização perversa”, onde a promessa de modernidade é seletiva. Para poucos, o capitalismo dá asas; para a maioria, grilhões. Isso nos revela que, como filhos desse sistema, somos educados a naturalizar desigualdades, a acreditar que quem não “vence” é porque não se esforçou o suficiente, esquecendo que o jogo já começa viciado.

E é curioso: ser filho do capitalismo não significa apenas obedecer, mas também resistir. Cada gesto de solidariedade fora da lógica da troca, cada encontro que não se mede em dinheiro, é um lembrete de que podemos reinventar a herança recebida. Somos filhos, sim, mas filhos que podem questionar os pais — e talvez criar novos modos de vida.

No fundo, talvez estejamos numa encruzilhada: seguir repetindo o DNA do sistema ou experimentar mutações, criando outros caminhos de ser e viver. Como diria Cornelius Castoriadis, a sociedade não é destino, mas criação. Se o capitalismo nos pariu, cabe a nós decidir se vamos apenas reproduzir sua voz ou se seremos capazes de inventar novas formas de existência.

domingo, 30 de março de 2025

Teoria da Incongruência


A incongruência está por toda parte. Sentimos isso quando rimos de uma piada sem saber exatamente o porquê, quando encontramos um amigo de infância e percebemos que ele mudou sem mudar, ou quando nos olhamos no espelho e notamos que algo em nós não se encaixa mais com quem fomos ontem. A vida, em sua essência, é um jogo de desencontros entre expectativa e realidade. Daí surge a Teoria da Incongruência.

A Incongruência como Fundamento da Experiência

A experiência humana se constrói na tensão entre o previsível e o inesperado. Quando tudo ocorre exatamente como esperamos, o mundo se torna monótono. Mas quando uma diferença sutil emerge entre o que imaginamos e o que acontece, nasce o sentido, a reflexão e até mesmo o humor. Kant, em sua Crítica da Faculdade do Juízo, já apontava que o riso decorre do contraste inesperado entre o que prevemos e o que ocorre.

A incongruência, então, não é um erro do sistema. Ela é o próprio sistema. O que chamamos de identidade pessoal, por exemplo, é um mosaico de incongruências costuradas pelo tempo. Somos, ao mesmo tempo, as memórias do passado e a promessa do futuro, e entre esses dois pontos, uma infinidade de pequenas incoerências que dão sabor à existência.

O Riso, o Estranhamento e o Sentido da Vida

A filosofia e a comédia sempre andaram lado a lado, e não por acaso. O humor, como explica Henri Bergson, surge justamente da incongruência: um padre que escorrega na rua, um aristocrata que fala como um proletário, uma palavra usada fora de seu contexto habitual. A piada funciona porque desafia nossas expectativas e nos força a reconhecer a fragilidade da lógica cotidiana.

Da mesma forma, a existência se revela paradoxal. Quanto mais tentamos nos definir, mais percebemos que somos um fluxo inconstante. O que acreditamos hoje pode se tornar ridículo amanhã, e o que rejeitamos pode se transformar em verdade. A incoerência não é um defeito da vida, mas seu motor.

Incongruência e Liberdade

Se tudo fosse previsível, seríamos robôs seguindo um script. A incongruência nos liberta dessa ditadura da coerência absoluta. Ela nos dá a possibilidade de mudar de opinião, de nos reinventarmos, de explorarmos caminhos que antes pareciam absurdos. Sartre diria que somos condenados à liberdade, mas talvez fosse mais apropriado dizer que somos condenados à incongruência. E é exatamente aí que mora a beleza da vida.

Em resumo, a Teoria da Incongruência não propõe que abracemos o caos sem critério, mas que reconheçamos a incongruência como parte essencial da existência. Às vezes, o que parece erro é apenas um desvio que nos leva a um lugar inesperado e melhor. Assim, se algo em sua vida parecer incongruente, talvez seja um sinal de que você está, de fato, vivendo.