Às
vezes a gente se pega pensando: será que vivemos o capitalismo ou o capitalismo
vive através de nós? Crescemos ouvindo sobre “correr atrás dos nossos sonhos”,
mas logo entendemos que esses sonhos geralmente vêm com etiqueta de preço. Da
mochila da escola com a marca da moda até o celular que dita se estamos ou não
atualizados, a vida vai ensinando, de forma sutil, que não basta existir — é
preciso consumir para ser reconhecido. E assim, nos tornamos filhos de um sistema
que nos molda desde o berço, mas que também herdamos como se fosse uma segunda
pele.
O
capitalismo não é apenas um modo de produção, como diria Marx, mas um
modo de vida. Ele não se limita às fábricas e escritórios: ele invade afetos,
amizades e até amores. Quantas vezes já não vimos relações nascerem ou morrerem
por causa da falta — ou do excesso — de dinheiro? O capital, como Marx analisou
no O Capital, transforma tudo em mercadoria, até aquilo que deveria ser
inegociável: o tempo, o corpo, o desejo.
Mas
há algo de ainda mais profundo. Somos educados para sermos sujeitos
competitivos, para medir nossa dignidade pelo poder de compra, para crer que
liberdade significa ter escolha de produtos nas prateleiras. Byung-Chul Han,
em A Sociedade do Cansaço, mostra como o capitalismo contemporâneo não
precisa mais de um patrão que grite ordens; somos nós mesmos que nos
exploramos, correndo atrás de metas pessoais, produtividade, empreendedorismo.
O sujeito se torna empresa de si mesmo, e fracassar deixa de ser questão
coletiva para ser culpa individual.
No
Brasil, Milton Santos trouxe uma leitura ainda mais afiada: vivemos a
“globalização perversa”, onde a promessa de modernidade é seletiva. Para
poucos, o capitalismo dá asas; para a maioria, grilhões. Isso nos revela que,
como filhos desse sistema, somos educados a naturalizar desigualdades, a
acreditar que quem não “vence” é porque não se esforçou o suficiente,
esquecendo que o jogo já começa viciado.
E
é curioso: ser filho do capitalismo não significa apenas obedecer, mas também
resistir. Cada gesto de solidariedade fora da lógica da troca, cada encontro
que não se mede em dinheiro, é um lembrete de que podemos reinventar a herança
recebida. Somos filhos, sim, mas filhos que podem questionar os pais — e talvez
criar novos modos de vida.
No
fundo, talvez estejamos numa encruzilhada: seguir repetindo o DNA do sistema ou
experimentar mutações, criando outros caminhos de ser e viver. Como diria Cornelius
Castoriadis, a sociedade não é destino, mas criação. Se o capitalismo nos
pariu, cabe a nós decidir se vamos apenas reproduzir sua voz ou se seremos
capazes de inventar novas formas de existência.
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