Uma aventura terrena
Eu
sempre achei curioso chamar de peregrinação algo que, no fundo, acontece quase
todo por dentro. O corpo anda, mas é a consciência que se desloca.
A
peregrinação não é turismo. Também não é fuga. É uma forma de colocar o mundo
em movimento para ver se a alma acompanha.
A
gente parte achando que vai encontrar lugares. Mas o que encontra são versões
de si mesmo espalhadas pelo caminho. Um cansaço que não conhecia. Uma paciência
que não sabia ter. Uma saudade que não estava nomeada.
Na
estrada, tudo fica mais simples e mais intenso. A água tem gosto. O chão pesa.
O silêncio fala. E cada passo parece dizer: ainda estou aqui.
No
cotidiano, a peregrinação reaparece disfarçada.
Quando
mudamos de trabalho.
Quando
encerramos um ciclo.
Quando
aceitamos caminhar sem garantias.
Não
é preciso mochila nem estrada. Basta atravessar uma decisão.
Santo
Agostinho dizia que o homem é um peregrino no tempo. Não porque
esteja perdido, mas porque nunca está definitivamente instalado. A permanência
absoluta não é da natureza humana. Somos feitos para atravessar.
Minhas
pescarias solitárias sempre foram menos sobre fisgar peixes e mais sobre me
deixar fisgar pelo caminho. Eu ia sem pressa, sem expectativa, como quem
peregrina não para chegar, mas para atravessar. O mar era apenas um pretexto; o
verdadeiro movimento acontecia dentro de mim, no silêncio entre um arremesso e
outro, no vento leve, no som da água tocando as margens. Cada passo na beira do
mar parecia um pequeno rito de desapego: eu não buscava troféus, buscava
presença. E voltava com a alma discretamente reorganizada, como se a
peregrinação tivesse cumprido, em mim, um acordo invisível.
Por
isso, a peregrinação é uma aventura terrena: não promete céu imediato, mas
oferece chão real. Poeira nos pés, vento no rosto, dúvidas no bolso. Ela não
nos tira do mundo —
ela
nos devolve a ele.
E
talvez o mais bonito seja isso: a peregrinação não nos transforma em santos.
Nos transforma em humanos atentos.
No
fim, percebo que não caminho para chegar. Caminho para não endurecer.
E
cada passo, mesmo pequeno, é uma forma delicada de dizer à vida: ainda estou
disposto a continuar.