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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Peregrinação

Uma aventura terrena

Eu sempre achei curioso chamar de peregrinação algo que, no fundo, acontece quase todo por dentro. O corpo anda, mas é a consciência que se desloca.

A peregrinação não é turismo. Também não é fuga. É uma forma de colocar o mundo em movimento para ver se a alma acompanha.

A gente parte achando que vai encontrar lugares. Mas o que encontra são versões de si mesmo espalhadas pelo caminho. Um cansaço que não conhecia. Uma paciência que não sabia ter. Uma saudade que não estava nomeada.

Na estrada, tudo fica mais simples e mais intenso. A água tem gosto. O chão pesa. O silêncio fala. E cada passo parece dizer: ainda estou aqui.

No cotidiano, a peregrinação reaparece disfarçada.

Quando mudamos de trabalho.

Quando encerramos um ciclo.

Quando aceitamos caminhar sem garantias.

Não é preciso mochila nem estrada. Basta atravessar uma decisão.

Santo Agostinho dizia que o homem é um peregrino no tempo. Não porque esteja perdido, mas porque nunca está definitivamente instalado. A permanência absoluta não é da natureza humana. Somos feitos para atravessar.

Minhas pescarias solitárias sempre foram menos sobre fisgar peixes e mais sobre me deixar fisgar pelo caminho. Eu ia sem pressa, sem expectativa, como quem peregrina não para chegar, mas para atravessar. O mar era apenas um pretexto; o verdadeiro movimento acontecia dentro de mim, no silêncio entre um arremesso e outro, no vento leve, no som da água tocando as margens. Cada passo na beira do mar parecia um pequeno rito de desapego: eu não buscava troféus, buscava presença. E voltava com a alma discretamente reorganizada, como se a peregrinação tivesse cumprido, em mim, um acordo invisível.

Por isso, a peregrinação é uma aventura terrena: não promete céu imediato, mas oferece chão real. Poeira nos pés, vento no rosto, dúvidas no bolso. Ela não nos tira do mundo —

ela nos devolve a ele.

E talvez o mais bonito seja isso: a peregrinação não nos transforma em santos. Nos transforma em humanos atentos.

No fim, percebo que não caminho para chegar. Caminho para não endurecer.

E cada passo, mesmo pequeno, é uma forma delicada de dizer à vida: ainda estou disposto a continuar.