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domingo, 28 de dezembro de 2025

Nostalgia do Analógico


Tenho sentido falta do tempo em que as coisas tinham peso. Não só peso físico — o clique seco de um botão, o chiado breve antes da música começar — mas peso de espera. A fotografia precisava de revelação, a carta precisava de dias, a fita precisava ser rebobinada com uma caneta. Nada era instantâneo, e talvez por isso tudo parecia mais inteiro.

A nostalgia do analógico não é apenas saudade de objetos; é saudade de um ritmo. O relógio não acelerava porque o dedo deslizou na tela. A conversa não se interrompia por uma notificação que piscava feito vaga-lume ansioso. Quando alguém ligava, ligava de verdade. Quando a gente errava, errava sem “desfazer”.

No cotidiano, isso aparece em pequenas frustrações modernas: ouvir música pulando faixas sem escutar nenhuma até o fim; tirar cinquenta fotos para não escolher nenhuma; escrever mensagens longas e apagar antes de enviar. O analógico, com todas as suas limitações, nos obrigava a decidir. E decidir é um exercício de presença.

Há também uma ética do erro no analógico. O disco arranhava, a fita embolava, a foto saía tremida — e ficava assim. O defeito era parte da história. Hoje, corrigimos tudo em tempo real, filtramos, polimos, apagamos o que não combina com a vitrine. Talvez por isso a vida digital pareça tão lisa e, paradoxalmente, tão cansativa.

Lembro de Vilém Flusser, pensador tão nosso, dizendo que os aparelhos tendem a nos programar. No analógico, o aparelho pedia cuidado; no digital, pede atenção contínua. Um exige mãos; o outro exige olhos. Um nos ensina paciência; o outro, urgência. Não é um elogio ingênuo ao passado, mas uma desconfiança saudável do presente.

A nostalgia do analógico, no fundo, é uma saudade de fricção. De quando o mundo oferecia resistência e, por isso mesmo, nos devolvia experiência. Talvez não precisemos voltar às fitas e às cartas, mas aprender com elas: desacelerar o gesto, aceitar o erro, sustentar o silêncio entre uma coisa e outra.

Porque às vezes não é o som mais limpo que nos toca — é o chiado antes da música começar.