Tenho
sentido falta do tempo em que as coisas tinham peso. Não só peso físico — o
clique seco de um botão, o chiado breve antes da música começar — mas peso de
espera. A fotografia precisava de revelação, a carta precisava de dias, a fita
precisava ser rebobinada com uma caneta. Nada era instantâneo, e talvez por
isso tudo parecia mais inteiro.
A
nostalgia do analógico não é apenas saudade de objetos; é saudade de um ritmo.
O relógio não acelerava porque o dedo deslizou na tela. A conversa não se
interrompia por uma notificação que piscava feito vaga-lume ansioso. Quando
alguém ligava, ligava de verdade. Quando a gente errava, errava sem “desfazer”.
No
cotidiano, isso aparece em pequenas frustrações modernas: ouvir música pulando
faixas sem escutar nenhuma até o fim; tirar cinquenta fotos para não escolher
nenhuma; escrever mensagens longas e apagar antes de enviar. O analógico, com
todas as suas limitações, nos obrigava a decidir. E decidir é um exercício de
presença.
Há
também uma ética do erro no analógico. O disco arranhava, a fita embolava, a
foto saía tremida — e ficava assim. O defeito era parte da história. Hoje,
corrigimos tudo em tempo real, filtramos, polimos, apagamos o que não combina
com a vitrine. Talvez por isso a vida digital pareça tão lisa e,
paradoxalmente, tão cansativa.
Lembro
de Vilém Flusser, pensador tão nosso, dizendo que os aparelhos
tendem a nos programar. No analógico, o aparelho pedia cuidado; no digital,
pede atenção contínua. Um exige mãos; o outro exige olhos. Um nos ensina
paciência; o outro, urgência. Não é um elogio ingênuo ao passado, mas uma
desconfiança saudável do presente.
A
nostalgia do analógico, no fundo, é uma saudade de fricção. De quando o mundo
oferecia resistência e, por isso mesmo, nos devolvia experiência. Talvez não
precisemos voltar às fitas e às cartas, mas aprender com elas: desacelerar o
gesto, aceitar o erro, sustentar o silêncio entre uma coisa e outra.
Porque
às vezes não é o som mais limpo que nos toca — é o chiado antes da música
começar.

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