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domingo, 28 de dezembro de 2025

Nostalgia do Analógico


Tenho sentido falta do tempo em que as coisas tinham peso. Não só peso físico — o clique seco de um botão, o chiado breve antes da música começar — mas peso de espera. A fotografia precisava de revelação, a carta precisava de dias, a fita precisava ser rebobinada com uma caneta. Nada era instantâneo, e talvez por isso tudo parecia mais inteiro.

A nostalgia do analógico não é apenas saudade de objetos; é saudade de um ritmo. O relógio não acelerava porque o dedo deslizou na tela. A conversa não se interrompia por uma notificação que piscava feito vaga-lume ansioso. Quando alguém ligava, ligava de verdade. Quando a gente errava, errava sem “desfazer”.

No cotidiano, isso aparece em pequenas frustrações modernas: ouvir música pulando faixas sem escutar nenhuma até o fim; tirar cinquenta fotos para não escolher nenhuma; escrever mensagens longas e apagar antes de enviar. O analógico, com todas as suas limitações, nos obrigava a decidir. E decidir é um exercício de presença.

Há também uma ética do erro no analógico. O disco arranhava, a fita embolava, a foto saía tremida — e ficava assim. O defeito era parte da história. Hoje, corrigimos tudo em tempo real, filtramos, polimos, apagamos o que não combina com a vitrine. Talvez por isso a vida digital pareça tão lisa e, paradoxalmente, tão cansativa.

Lembro de Vilém Flusser, pensador tão nosso, dizendo que os aparelhos tendem a nos programar. No analógico, o aparelho pedia cuidado; no digital, pede atenção contínua. Um exige mãos; o outro exige olhos. Um nos ensina paciência; o outro, urgência. Não é um elogio ingênuo ao passado, mas uma desconfiança saudável do presente.

A nostalgia do analógico, no fundo, é uma saudade de fricção. De quando o mundo oferecia resistência e, por isso mesmo, nos devolvia experiência. Talvez não precisemos voltar às fitas e às cartas, mas aprender com elas: desacelerar o gesto, aceitar o erro, sustentar o silêncio entre uma coisa e outra.

Porque às vezes não é o som mais limpo que nos toca — é o chiado antes da música começar.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Oportunidade de crescimento


Há dias em que a vida não pede licença. Ela empurra. Um atraso no ônibus, uma conversa atravessada, uma porta que se fecha sem aviso. Nessas horas, quase sempre chamamos o acontecimento de “problema”. É automático. Mas, se a gente segura o impulso de rotular e olha um pouco mais devagar, talvez perceba que muitos desses empurrões carregam outra coisa escondida: uma oportunidade de crescimento — não dessas que aparecem em livros de autoajuda, mas daquelas silenciosas, incômodas e profundamente humanas.

Crescer não é subir, é aprofundar

Costumamos imaginar crescimento como ascensão: ganhar mais, saber mais, ir mais longe. No cotidiano, porém, crescer quase sempre significa o contrário: descer um nível. Descer até o desconforto, até a dúvida, até aquilo que não controlamos.

Pense em alguém que recebe uma crítica no trabalho. A reação imediata é defensiva: justificar, rebater, fechar-se. Mas, se a pessoa sustenta o incômodo por alguns minutos a mais, algo diferente pode acontecer. A crítica deixa de ser um ataque e passa a funcionar como espelho. Nem tudo o que o espelho mostra é bonito, mas ele revela ângulos que o olhar direto não alcança. Crescer, aqui, não é concordar com tudo, mas aprender a ouvir sem desmoronar.

O cotidiano como laboratório filosófico

A vida diária é um grande laboratório de experiências éticas e existenciais. A fila do banco testa nossa paciência; o trânsito revela nossa relação com o tempo; o grupo de WhatsApp da família expõe nossos limites de tolerância e afeto.

Quando alguém “fura” a fila, por exemplo, não está em jogo apenas a ordem prática, mas uma pergunta silenciosa: o quanto minha tranquilidade depende do comportamento dos outros? A oportunidade de crescimento não está em fingir que nada aconteceu, mas em perceber como reagimos quando o mundo não se organiza de acordo com nossas expectativas.

Nesse sentido, o crescimento acontece menos quando o mundo melhora e mais quando nossa maneira de estar no mundo se torna mais lúcida.

Perder também educa

Existe uma pedagogia da perda que raramente valorizamos. Perder um emprego, um projeto, uma amizade ou até uma imagem idealizada de nós mesmos costuma ser vivido como fracasso. Mas, muitas vezes, é justamente aí que algo se reorganiza internamente.

No cotidiano, isso aparece quando alguém percebe que estava sustentando uma rotina apenas por hábito, não por sentido. A ruptura — dolorosa, claro — força a pergunta que havia sido adiada: o que, afinal, eu estou tentando manter? A oportunidade de crescimento não está na perda em si, mas no deslocamento que ela provoca. O chão que some obriga a pessoa a descobrir como se sustentar sem ele.

Crescer é mudar de pergunta

Talvez o ponto mais sutil do crescimento seja este: ele acontece quando trocamos a pergunta “por que isso aconteceu comigo?” por “o que isso está me pedindo?”. A primeira nos fixa na posição de vítima do acaso; a segunda nos devolve a responsabilidade pelo sentido.

Um erro cometido, uma decisão mal calculada, uma palavra dita fora de hora — tudo isso pode se tornar apenas culpa acumulada ou matéria-prima de discernimento. No cotidiano, amadurecer não é errar menos, mas aprender melhor com o erro.

A oportunidade que não se anuncia

O curioso é que as oportunidades de crescimento raramente se apresentam com esse nome. Elas chegam disfarçadas de cansaço, de frustração, de conflito pequeno demais para ser trágico e grande demais para ser ignorado. Quem espera grandes revelações perde o essencial: o crescimento quase sempre acontece em escala mínima, no ajuste fino do olhar, na correção de um gesto, na revisão silenciosa de uma atitude.

Talvez crescer seja isso: aprender a não desperdiçar aquilo que a vida insiste em nos ensinar, mesmo quando a lição vem sem moldura, sem aplauso e sem garantia de conforto. Afinal, não é o mundo que se torna mais fácil — somos nós que, aos poucos, nos tornamos mais capazes de habitá-lo.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Erros Repetidos


Já reparou como, muitas vezes, continuamos a cometer os mesmos erros, mesmo sabendo das consequências? Seja na vida profissional, nos relacionamentos ou nas pequenas decisões do dia a dia, parece que estamos presos a um padrão que se repete incessantemente.

O que nos leva a isso não é apenas distração ou falta de atenção, mas a tendência humana de agir por hábito, emoção ou medo de mudança. Às vezes, preferimos o conhecido, mesmo que ele nos cause dor, do que enfrentar o incerto que poderia nos levar a resultados melhores.

Mas esses erros repetidos não aparecem à toa. Eles são sinais, alertas que nos mostram onde precisamos refletir, aprender e ajustar. Cada tropeço contém uma lição: talvez seja hora de mudar a abordagem, questionar nossas motivações ou abrir mão de certezas que nos prendem.

No cotidiano, por experiência pessoal, isso se manifesta de formas simples: insistir em relações tóxicas, procrastinar tarefas importantes ou reagir impulsivamente a situações familiares. O desafio é reconhecer o padrão antes que ele se torne hábito e, então, agir conscientemente para quebrá-lo.

Um pensador moderno comentou certa vez: “Errar é humano, repetir é oportunidade”. A ideia é enxergar nossos próprios erros como espelhos que nos mostram o que precisa ser transformado, em vez de apenas nos culparmos.

No fim, a repetição dos erros não é um castigo, mas um convite à consciência. Cada escolha consciente nos aproxima de uma vida mais equilibrada e significativa — basta estarmos atentos ao que o passado insiste em nos ensinar.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Preço dos Sentimentos

Eu sempre achei curioso como a gente tenta colocar etiquetas invisíveis em tudo que sente — como se as emoções fossem produtos de prateleira, com código de barras, validade e promoções relâmpago. Outro dia, enquanto esperava um café esfriar (é, às vezes um pouco de café na introdução escapa), fiquei pensando que talvez o grande drama humano seja que sentimos demais… e entendemos de menos. E nessa falta de entendimento, começamos a calcular, pesar, medir — como se alegria, tristeza, afeto e culpa fossem quantidades manipuláveis.

Afinal, existe preço para os sentimentos?

 

O valor que atribuímos ao invisível

Sentimentos não têm valor intrínseco — eles possuem valor atribuído. Somos nós que decidimos, consciente ou inconscientemente, quanto cada emoção “vale”. Para alguns, o orgulho é caro; custa amizades inteiras. Para outros, a paz é valiosa demais para ser trocada por discussões inúteis. É curioso como há quem pague caro pela própria raiva, carregando ressentimentos que consomem anos de vida.

Nietzsche toca nesse ponto quando diz que o ser humano é um animal que pode fazer promessas. Mas prometer não é só compromisso lógico — é também a capacidade de atribuir valor ao futuro. E se atribuímos valor ao futuro, atribuímos também valor aos sentimentos que nos movem até ele. Em outras palavras: somos contadores emocionais.

 

Sentimentos como moeda social

No cotidiano, negociamos emoções o tempo todo. Pedimos desculpas esperando reconciliação. Demonstramos carinho esperando reciprocidade. Reprimimos um incômodo esperando evitar conflito. Até o silêncio tem preço — custa, às vezes, nossa própria verdade.

Sociologicamente, vivemos em uma espécie de “mercado afetivo”. O que damos e o que recebemos formam trocas simbólicas. Marcel Mauss — o antropólogo do “Ensaio sobre a Dádiva” — diria que toda oferta cria uma obrigação moral de retorno. E isso vale também para gestos afetivos. Afinal, quem nunca sentiu que deu mais amor do que recebeu? Ou que recebeu mais tolerância do que merecia? O equilíbrio emocional raramente é justo; talvez porque sentimentos não seguem lógica econômica, mas nós insistimos em tratá-los como se seguissem.

 

Quando os sentimentos ficam caros demais

Há momentos em que sentir parece custar caro. O luto custa presença. A saudade custa sono. A esperança custa paciência. A autenticidade custa rejeição. O amor, quando verdadeiro, quase sempre custa vulnerabilidade — aquele preço que ninguém gosta de pagar, mas que é o único comprovante de que houve algo genuíno.

N. Sri Ram, dizia que “as emoções pertencem a um nível de consciência que pode tanto obscurecer quanto revelar”. Em seu A Natureza da Nossa Busca, ele lembra que o valor das emoções depende da direção que lhes damos. Ou seja, não é o que sentimos, mas o que fazemos com o que sentimos que determina seu “custo” na vida.

 

O lucro e o prejuízo sentimental

Se existe preço, também existe prejuízo. Carregar culpa demais nos endivida com o passado. Viver de expectativas nos endivida com o futuro. Ignorar o que sentimos nos endivida com nós mesmos. O “lucro” emocional, por outro lado, está naquela rara percepção de que sentir algo — mesmo dolorido — nos fez crescer.

Afinal, sentimentos não são moedas para acumular, mas experiências para atravessar. E a travessia sempre cobra pedágio.

 

O preço que vale a pena pagar

No final, o preço dos sentimentos é o preço de estar vivo. Sentir é caro porque viver intensamente é caro. Mas é o único caminho que não deixa saldo negativo. Se existe alguma sabedoria nisso tudo, talvez seja perceber que não devemos tentar fazer contabilidade emocional. Sentimentos são um fluxo, não uma planilha.

O que vale a pena pagar?

Aquilo que nos transforma.

Talvez seja essa a única “cotação” confiável da alma.


sábado, 8 de novembro de 2025

Quarto de Despejo

O espelho social no qual ninguém quer se ver

Outro dia, ouvi uma notícia que um grupo de turistas estrangeiros que pretendia visitar uma favela do Rio. Falavam com a mesma empolgação de quem planeja conhecer o Pão de Açúcar. Fiquei pensando no que, afinal, desperta o interesse em turistar na pobreza. Seria curiosidade sociológica, empatia genuína ou apenas o desejo de ver o “exótico”?

Enquanto refletia sobre isso, lembrei-me de Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Talvez a favela desperte tanta atenção justamente porque ela é — como o diário de Carolina — o espelho daquilo que a sociedade esconde de si mesma. A favela é o quarto de despejo da cidade: o lugar onde se acumulam as sobras, mas também onde pulsa a vida que o “asfalto” não quer enxergar. E foi com essa imagem na cabeça que voltei às páginas de Carolina, essa mulher que transformou o lixo em literatura e a exclusão em voz.

Aí vai um pequeno resumo da obra

Publicado em 1960, Quarto de Despejo: Diário de uma favelada reúne as anotações que Carolina Maria de Jesus escreveu enquanto vivia na favela do Canindé, em São Paulo. Mãe solo e catadora de papel, ela registra com impressionante lucidez a fome, o preconceito, a miséria e a força cotidiana de quem vive à margem. Seus escritos — feitos em cadernos recolhidos do lixo — revelam uma linguagem crua, poética e profundamente humana. Carolina narra não apenas sua sobrevivência física, mas também o combate íntimo para manter a dignidade e a esperança em um mundo que insiste em lhe negar ambas.

Um olhar filosófico-sociológico

Ler Quarto de Despejo é mais do que atravessar uma narrativa de pobreza; é confrontar-se com a estrutura simbólica da exclusão. Carolina não apenas descreve a miséria — ela a denúncia enquanto constrói sentido a partir dela. O “quarto de despejo” é metáfora da própria favela: o espaço para onde a cidade “empurra” aquilo que não quer ver, mas de que depende para continuar existindo. A sociedade, como diria Zygmunt Bauman, cria zonas de descarte humano — lugares onde os “refugos” da modernidade são deixados sem função ou voz.

E talvez seja esse mesmo impulso — ainda que inconsciente — que leva alguns a “turistar” nesses espaços: a necessidade de olhar, de se aproximar do real que o conforto urbano nega. O problema é que esse olhar pode ser ético ou voyeurístico. Carolina nos convida a olhar com empatia, não com curiosidade. Seu diário não é um “passeio”, mas uma travessia moral.

O olhar de Carolina devolve humanidade ao que o olhar social desumaniza. Ao escrever, ela subverte o destino de invisibilidade que lhe foi imposto. Seu ato de narrar é, portanto, um gesto político e filosófico. Michel Foucault nos lembra que o poder se exerce também pelo controle da fala — quem pode dizer o quê, e de que lugar. Ao ocupar o espaço da escrita, Carolina desafia esse monopólio e se inscreve como sujeito da própria história, desorganizando a hierarquia entre o saber erudito e a experiência vivida.

Pierre Bourdieu nos ajuda a compreender esse gesto como resistência simbólica: a autora, mesmo sem o capital cultural da elite, cria uma nova forma de legitimidade — a do vivido. A favela, nesse sentido, não é apenas o cenário da miséria, mas também um laboratório de humanidade.

Há, também, uma dimensão existencial. Carolina escreve para não enlouquecer — para organizar a própria experiência em meio ao caos. Em certo sentido, ela faz o que Sartre chamaria de “existir antes de ser”: afirmar a própria liberdade num mundo que a nega. A escrita é sua forma de transcendência.

Por isso, o “turismo de favela” só faz sentido quando deixa de ser observação e se torna escuta. O turista que lê Carolina antes de visitar uma favela talvez chegue menos curioso e mais humilde — capaz de enxergar ali não uma atração, mas uma presença.

Em resumo...

Carolina Maria de Jesus não escreveu um livro de sociologia, mas fez sociologia com o corpo e com a palavra. Sua escrita é uma interrogação permanente sobre o que significa ser humano em um sistema que escolhe quem merece ser visto. Quarto de Despejo obriga-nos a abrir a porta do cômodo onde a sociedade guarda sua culpa — e a olhar, sem desviar os olhos, para o que ali deixamos.

Talvez o verdadeiro turismo — o mais transformador de todos — seja esse: viajar até o desconforto do outro para descobrir o que falta em nós mesmos.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Impremeditado e Fortuito

Na tessitura da vida, muitos eventos se apresentam como impremeditados ou fortuitos — situações que parecem surgir sem aviso, desprovidas de intenção consciente, rompendo o fluxo ordenado do planejamento humano. Mas, será que o impremeditado e o fortuito são simplesmente o acaso puro, ou há uma camada mais profunda a ser desvelada na experiência desses acontecimentos?

O impremeditado refere-se àquilo que não foi pensado ou planejado, uma ação ou evento que brota sem previsão, mas que pode carregar intencionalidade posterior, mesmo que mínima. Já o fortuito parece um conceito mais radical — remetendo ao puro acaso, àquilo que ocorre por sorte ou destino, sem relação direta com a vontade ou controle humanos.

No entanto, esses dois conceitos se entrelaçam em uma dialética que desafia a noção linear de causa e efeito. Na filosofia, especialmente em Aristóteles, encontramos a ideia do tyche — o acaso, que não é mera ausência de causa, mas uma categoria própria que pode revelar a limitação do conhecimento humano diante da complexidade do real. Para Aristóteles, o fortuito não é uma simples falha do universo, mas um componente legítimo da ordem natural, onde o inesperado pode surgir como um elemento de transformação.

Avançando para a modernidade, o filósofo francês Paul Ricoeur nos convida a refletir sobre o sentido que damos a esses eventos imprevisíveis. Para Ricoeur, a narrativa de vida é construída não apenas pelos planos e intenções, mas também pelas surpresas e rupturas que desestabilizam nossa trajetória. O impremeditado e o fortuito, portanto, tornam-se forças narrativas que nos desafiam a reinterpretar nossa existência, a recontar nossas histórias com um novo significado.

Na prática cotidiana, o impremeditado pode ser aquele encontro inesperado que muda uma amizade, um gesto espontâneo que altera um dia, enquanto o fortuito seria um acaso aparentemente irracional, como uma chuva inesperada que transforma o caminho habitual. Ambos nos mostram que, apesar da tentativa humana de controlar e prever, o real escapa e convoca a uma abertura ao novo.

Assim, o impremeditado e o fortuito não devem ser encarados como inimigos da razão, mas como seus parceiros paradoxais — elementos que nos convidam a reconhecer a imprevisibilidade como parte fundamental da vida e da experiência humana. Nesse sentido, a sabedoria consiste em acolher o inesperado, permitindo que o acaso não anule, mas amplie o sentido do nosso agir.


terça-feira, 2 de setembro de 2025

Estranha Fenomenologia

Hoje acordei com uma sensação estranha, levantei e fui direto para o café, com a xicara na mão comecei a pensar que há momentos em que o mundo parece se mostrar de forma deslocada, como se os objetos, as pessoas e até nós mesmos estivessem levemente fora do lugar — não no sentido físico, mas na textura mesma da experiência. É o instante em que o familiar se revela estranho, e o cotidiano, que deveria ser transparente, torna-se opaco. Essa sensação, que poderíamos chamar de “estranha fenomenologia”, é menos um tema acadêmico e mais uma vivência íntima: o copo que você usa todos os dias parece, subitamente, pertencer a outra época; a rua por onde você passa há anos adquire uma luz diferente, quase ameaçadora; um rosto amigo parece carregar um enigma que antes não estava lá.

Husserl, ao propor o “retorno às coisas mesmas”, buscava suspender julgamentos e mergulhar na pura experiência. Mas essa pureza, quando levada ao extremo, pode se tornar inquietante. Ao ver as coisas sem a proteção dos hábitos interpretativos, elas nos encaram de volta como algo radicalmente outro. Merleau-Ponty falava dessa estranheza como parte inevitável da percepção — o mundo não é um objeto pronto, mas algo que se co-constroi com nosso olhar e nossa corporeidade. No entanto, a “estranha fenomenologia” não se limita a revelar que o mundo é aberto; ela o apresenta como se fosse parcialmente intraduzível, como se houvesse uma camada que jamais será incorporada à lógica diária.

No cinema, Andrei Tarkóvski explorava essa sensação de deslocamento: um copo sobre uma mesa, uma poça refletindo o céu, um movimento lento de vento nas árvores — simples, mas carregados de um peso ontológico que nos desconcerta. É a experiência fenomenológica que, em vez de trazer clareza, traz espanto. Heidegger diria que nesses momentos vivemos uma suspensão do “ser-no-mundo” automático: a ferramenta deixa de funcionar, a familiaridade se quebra, e vemos o ser das coisas em seu “ser-assim” — mas não como iluminação, e sim como um lampejo inquietante.

Talvez a “estranha fenomenologia” seja uma espécie de despertar ao contrário: em vez de nos dar consciência plena, ela nos devolve ao mistério. O mundo não se explica; ele apenas insiste em existir diante de nós, e nós, nesse instante, deixamos de ser donos do sentido.

Se aceitarmos essa sensação em vez de tentar dissolvê-la, ela pode nos ensinar uma humildade radical: o real não nos pertence, nem está ali apenas para ser decifrado. Há uma dimensão em que as coisas são, simplesmente, inassimiláveis — e é nessa fratura que talvez habite a beleza mais profunda da experiência.


sexta-feira, 18 de julho de 2025

Eu e Tu

Breve ensaio sobre a obra de Martin Buber

Tem gente que passa pela vida colecionando contatos; outras, colecionam encontros. A diferença parece sutil, mas é o que separa uma vida superficial de uma vida profunda. Martin Buber, filósofo austríaco-judeu, entendeu isso como poucos. Em Eu e Tu (1923), sua obra mais conhecida e comentada, ele nos convida a repensar a forma como nos relacionamos — não só com os outros, mas com o mundo, com a natureza, com Deus e até conosco.

Uma filosofia do encontro

Em Eu e Tu, Buber propõe que a existência humana se estrutura a partir de dois modos fundamentais de relação: o Eu-Isso e o Eu-Tu.

  • Eu-Isso é o modo como tratamos as coisas, os objetos, o que usamos e manipulamos. Nessa relação, o outro (ou aquilo) é uma função, um instrumento, um dado a ser compreendido ou analisado. É a linguagem da ciência, da técnica, das rotinas funcionais da vida.
  • Eu-Tu, por outro lado, é o espaço do encontro verdadeiro. Quando dizemos “Tu”, não há distanciamento, não há separação entre sujeito e objeto — há presença. Não se trata de conhecer o outro, mas de estar diante dele com inteireza. Um olhar demorado, um gesto silencioso, uma escuta profunda — aí mora o Tu.

Quantas vezes por dia você trata as pessoas como um “Isso”?

Seja sincero: quando foi a última vez que você ouviu alguém sem pensar na resposta? Que olhou para um amigo, ou mesmo para uma árvore, sem pressa, sem intenção, apenas presente? Será que estamos mesmo vivendo — ou apenas gerenciando funções?

Buber não está dizendo que o mundo do “Isso” é ruim ou desnecessário — afinal, vivemos nele o tempo todo. Mas sem a experiência do “Tu”, a vida se esvazia. Tornamo-nos engrenagens, vozes automatizadas, seres que falam mas não se encontram.

Um livro pequeno com um abismo dentro

Apesar de ter pouco mais de cem páginas, Eu e Tu é um livro denso, quase poético. Buber não escreve como um professor que explica, mas como alguém que tenta nos acordar para algo que já sabemos — só esquecemos. Ele nos lembra que a relação Eu-Tu não pode ser planejada nem forçada; ela acontece, nos atravessa e nos transforma.

Você ainda acredita que é possível encontrar alguém de verdade — sem máscaras, sem filtros, sem medo?

Será que conseguimos, em meio a tantas distrações, permitir que algo nos toque de forma tão real que até o tempo pare por um momento? Quantas relações você vive apenas no piloto automático?

Ao final, Buber aponta que é justamente no “Tu absoluto” — Deus — que todas as relações Eu-Tu encontram sua origem e plenitude. Não um Deus conceito, mas um Deus que se revela no encontro, na reciprocidade, na presença.

E se Deus estiver em tudo aquilo que olhamos de verdade, mas ignoramos por hábito?
Será que a espiritualidade não mora justamente na qualidade da atenção que damos às coisas simples?

Para os dias de hoje

Num mundo de redes sociais, curtidas e mensagens instantâneas, Eu e Tu soa como um convite contracorrente. Será que ainda sabemos dizer “Tu” com o coração inteiro? Será que conseguimos olhar alguém — ou algo — sem imediatamente classificá-lo, julgá-lo ou usá-lo?

Martin Buber não oferece respostas prontas, mas oferece uma chave para a experiência. E talvez essa chave seja tudo o que precisamos para abrir a porta de uma vida mais humana, mais presente e mais real.


domingo, 29 de junho de 2025

Novas Subjetividades

Acorda, toma café, põe o óculos de realidade virtual, entra numa sala com outras pessoas que também estão em casa, sozinhas — mas todas juntas, com corpos escolhidos, vozes filtradas, rostos recriados. É uma reunião de trabalho? Uma conversa entre amigos? Um jogo? Ou tudo isso ao mesmo tempo?

Vivemos um tempo curioso: o corpo está aqui, mas o "eu" parece expandido — ou, talvez, fragmentado. A realidade virtual (RV) não é apenas uma tecnologia: é um novo campo de experiência do eu, um laboratório de subjetividades.

Dia destes estava ouvindo nossa filósofa Marilena Chauí falando sobre o tema, realmente temos de pensar a respeito, ela alerta para este mundo novo que já faz parte de nossas vidas.

Mas afinal o que é subjetividade?

Subjetividade é o conjunto de experiências internas e singulares que compõem o modo como alguém percebe o mundo, a si mesmo e os outros. É uma construção histórica, social e afetiva — não nasce pronta, mas se forma a partir de vivências, relações, discursos e tecnologias.

Como explica Michel Foucault, o sujeito não é um ponto fixo de origem, mas o efeito de práticas discursivas e sociais. Já para Maurice Merleau-Ponty, a subjetividade está encarnada: não somos pura mente ou consciência, mas um corpo-sujeito que percebe e age no mundo.

Portanto, falar de subjetividade é falar da maneira como nos tornamos alguém, como experienciamos o que somos — e como isso pode mudar.

Quando o sujeito se descentra

A subjetividade moderna, desde Descartes, se ancorava em um "eu penso, logo existo" — racional, centrado, individual. Com Freud, esse "eu" começou a tremer: há desejos inconscientes, pulsões, zonas obscuras. Com a pós-modernidade, o sujeito se liquefaz, como apontou Zygmunt Bauman, e agora, com a realidade virtual, ele talvez se disperse em identidades múltiplas, performáticas e temporárias.

O sujeito não é mais uno: ele é "loginável", programável, personalizável.

Num ambiente virtual, alguém pode viver como um guerreiro viking, um gato falante ou um avatar neutro, sem gênero definido. E, às vezes, se sente mais verdadeiro assim. O "real" deixa de ser o critério da autenticidade. Como já dizia Jean Baudrillard, o simulacro ultrapassa o original — o virtual se torna mais significativo do que o real.

Cotidianos que nos escapam pelas telas

Quantas vezes você entrou numa sala virtual para uma reunião e sentiu que o ambiente — os olhares, os gestos, o tempo — não seguia mais as mesmas regras da vida física? Ali, a subjetividade é outra: somos falas, expressões faciais artificiais, reações digitadas. E mesmo assim, sentimos. Rimos. Ficamos tensos. Temos vergonha. A subjetividade se adapta.

Exemplo: uma criança de nove anos, tímida na escola, descobre-se desinibida num jogo em RV. Ela cria um personagem falante, criativo e ousado. Seus pais a observam e se perguntam: "é ela mesma ou uma outra pessoa?"

O corpo como memória virtual

Mesmo quando a realidade é virtual, o corpo reage. O coração acelera. A mão sua. Os músculos se contraem. A filosofia do corpo, como nos lembra Maurice Merleau-Ponty, insiste: não temos um corpo — somos um corpo. E esse corpo, mesmo imerso em bits e avatares, continua sendo nosso ponto de contato com o mundo.

Mas agora é um corpo intermediado, reconfigurado — que sente, mas não se mostra por inteiro. A nova subjetividade é um jogo entre o que se quer mostrar e o que se deseja esconder.

A subjetividade como performance

A filósofa Judith Butler trouxe a ideia de que a identidade é performativa — ou seja, ela se constrói na repetição de atos. Na RV, isso é ainda mais literal. A cada login, a cada escolha de avatar, a cada gesto encenado num mundo virtual, o sujeito se constitui. Não por essência, mas por performance em rede.

Somos aquilo que repetimos: o modo como clicamos, falamos, gesticulamos — mesmo no ambiente simulado.

E afinal, quem somos?

O que muda com tudo isso? Talvez não sejamos mais sujeitos estáveis, como se acreditava. Somos experiências conectadas, em constante mutação, criando realidades internas e externas ao mesmo tempo. A realidade virtual não cria só um outro mundo — ela recria o eu.

O filósofo brasileiro José Gil, ao falar sobre o corpo e a imagem, nos lembra que a subjetividade não está presa ao corpo, mas se expande em zonas de visibilidade e presença. Com a RV, ganhamos novas zonas. Novos rostos. Novas máscaras. E, talvez, novos espelhos.

Em tempo: talvez estejamos todos nos tornando um pouco mais plurais, um pouco menos fixos. O mundo virtual não é um escape da realidade — é uma realidade a mais, onde a subjetividade se torna múltipla, instável, e, quem sabe, mais verdadeira em sua própria inconstância.


segunda-feira, 19 de maio de 2025

Estética na Educação

Quando o aprender encontra o belo...

Dizem que estudar é chato, que escola é lugar de prova, e que aprender dói. Mas será mesmo que a educação precisa ser tão árida, tão sem cor? Às vezes me pego pensando: e se houvesse mais beleza no processo de aprender? Não falo de enfeites, cartazes coloridos ou apresentações de PowerPoint com transições dramáticas. Falo de estética no sentido mais profundo — como forma sensível de perceber, viver e significar o mundo. Será que o que falta à educação não é conteúdo, mas encanto?

No fundo, todo conhecimento começa com um gesto estético: o olhar curioso da criança que se encanta com uma folha caída, o silêncio atento diante de uma história bem contada, ou o arrepio ao ouvir uma música que traduz algo que sentíamos sem saber nomear. Antes de sabermos, sentimos. E talvez o erro da educação moderna tenha sido inverter essa ordem.

O erro da abstração prematura

Na ânsia de preparar para o mercado, muitas escolas encurtam o tempo da contemplação. Tudo precisa ter um objetivo prático, uma utilidade mensurável. A estética, nesse modelo, é vista como distração. Mas como dizia Friedrich Schiller em suas Cartas sobre a Educação Estética do Homem, sem beleza, o ser humano não se desenvolve integralmente. Ele acreditava que a estética não é mero adorno, mas uma ponte entre a razão e o sentimento — um caminho para a liberdade interior.

Quando uma criança aprende geometria desenhando mandalas, ou história lendo romances, ou ciências observando nuvens, algo se transforma. O conteúdo não é apenas assimilado — é experienciado. Ele toca, ressoa, envolve. A educação deixa de ser uma corrida por notas e se torna um processo de formação da sensibilidade.

Como ensinar o bom e o belo

É aqui que entra uma pergunta antiga e sempre urgente: como ensinar o bom e o belo ao mesmo tempo? A ética e a estética não são caminhos separados. Quando ensinamos com beleza, educamos também o olhar para o que é justo, harmonioso, verdadeiro. E vice-versa: ensinar o que é bom — com respeito, diálogo e empatia — é um gesto profundamente estético.

Um exemplo simples: ensinar uma criança a cuidar de uma planta. Há ali o gesto do cultivo (o bom), mas também a percepção da forma, da cor, do ritmo da natureza (o belo). Ou ainda: quando promovemos rodas de conversa em que cada um escuta e fala com tempo e cuidado, estamos ensinando ética através de uma estética da convivência.

A professora que entra em sala com ternura no olhar, o professor que constrói as aulas com ritmo e pausa, como se fossem cenas de um teatro sensível — ambos estão ensinando mais do que o conteúdo. Estão mostrando que o bom e o belo são formas de estar no mundo.

A estética como forma de ver o outro

Há ainda uma dimensão ética na estética. O filósofo brasileiro Jorge Larrosa sugere que o ato de ensinar deveria ser, antes de tudo, um convite à escuta, à presença, à hospitalidade. E esses gestos são estéticos: envolvem ritmo, tom, pausa, gesto, espaço. Um professor pode repetir o mesmo conteúdo todos os anos, mas a forma como ele olha para a turma, como organiza as palavras, como responde às perguntas — isso é arte viva.

Educar esteticamente é ensinar o olhar. É fazer com que o aluno perceba nuances, reconheça formas, e aprenda a habitar o mundo com mais atenção. Um exercício de leitura pode ser uma coreografia entre olhos e mente; uma discussão pode ter o ritmo de uma partitura. Quando tudo se reduz a certo ou errado, perde-se a chance de formar sujeitos sensíveis à ambiguidade, à complexidade, ao inacabado — ou seja, à própria vida.

O mundo como sala de aula

A educação estética rompe os muros da escola. Um passeio por uma praça pode ensinar mais sobre proporção, ecologia e política do que uma aula expositiva. Observar a arquitetura de um bairro, os silêncios de uma conversa, os traços de um grafite, são formas de estudar o mundo como quem contempla uma obra aberta, cheia de camadas.

O filósofo francês Gaston Bachelard dizia que precisamos sonhar o mundo para compreendê-lo. E o sonho é um território estético. Uma educação sem sonho é uma educação que forma para o funcionamento, não para a criação.

O que Paulo Freire teria a dizer

Na Pedagogia da Autonomia, Paulo Freire nos convida a pensar a educação não apenas como um ato técnico, mas como um gesto profundamente ético e estético. Para ele, ensinar exige respeito à autonomia do outro, o que implica um compromisso ético com a dignidade humana. A ética em Freire está ligada à responsabilidade do educador em não manipular, em não doutrinar, mas em criar condições para que o educando se torne sujeito de sua própria história. Ao mesmo tempo, há uma dimensão estética presente quando ele fala da alegria de ensinar, do cuidado com a linguagem e da sensibilidade para perceber a beleza no processo de aprendizagem. A ética e a estética se entrelaçam quando educar é também um ato de amor, generosidade e criatividade.

Freire compreende que a prática educativa deve ser bela no sentido de ser coerente com a esperança e a possibilidade de transformação. Ele recusa uma educação feia, autoritária, bancária, que apenas deposita informações. A estética, portanto, não está separada do conteúdo, mas atravessa o modo como o conhecimento é construído com o outro. Quando o educador respeita o tempo do aluno, escuta sua vivência e compartilha saberes, realiza um ato estético, porque cultiva a harmonia do diálogo e da construção conjunta. A ética garante o compromisso com a justiça e a liberdade; a estética revela-se no modo como essa relação é tecida com sensibilidade, beleza e presença. Em Freire, educar é um ato artístico e ético, profundamente humanizador.

Para encerrar (ou começar)

Talvez o grande desafio seja esse: transformar a educação de um mecanismo em uma experiência estética. Isso não significa abandonar o rigor, mas reencantar o processo. Fazer com que o saber vibre, emocione, seduza. Um bom professor é também um artista — alguém que conhece o valor do silêncio, do tempo certo, do gesto inesperado.

Se a estética é o campo do sensível, então educar esteticamente é lembrar que aprender é, antes de tudo, sentir. E sentir é o primeiro passo para pensar diferente. Ensinar o bom e o belo não é impor padrões, mas cultivar olhares. E onde há beleza, há possibilidade de transformação.

No fim, talvez devêssemos reaprender com as crianças: o mundo é mais bonito quando olhado com olhos curiosos — e toda educação que vale a pena começa com esse olhar.


sábado, 3 de maio de 2025

Amor Filosófico

Dizem que o amor cega, mas talvez ele apenas abra os olhos para um mundo que não se encaixa nas categorias rígidas da razão. Numa conversa de bar ou numa caminhada solitária, ele pode surgir como um problema filosófico: o que é o amor? Sentimento? Escolha? Ilusão? Ou uma estrutura profunda que sustenta a própria experiência de existir?

O amor filosófico não é apenas um conceito abstrato dos livros, mas uma força que molda nossa relação com a verdade, a ética e a própria identidade. Platão, por exemplo, em "O Banquete", descreve o amor como um desejo de alcançar o Belo e o Bem, uma escada que leva da paixão carnal à contemplação do divino. Spinoza, por outro lado, vê o amor como um caminho para a liberdade, pois amar é compreender, e compreender é dissolver as correntes do medo e da ignorância.

Mas o amor filosófico não precisa ser apenas uma busca transcendente. Ele pode ser um método de viver. Nietzsche provocaria: e se amássemos sem querer domesticar o outro? Sem projetar nele nossas carências e expectativas? Hannah Arendt talvez nos lembrasse que o amor tem um caráter político: ele constrói laços, mas também pode destruir, afastando-nos do espaço público e nos encerrando numa bolha subjetiva.

Hoje, vivemos em tempos onde o amor se tornou um mercado de performances. Persegue-se a compatibilidade algorítmica, romantiza-se a ideia de "alma gêmea", mas teme-se o compromisso real, que exige trabalho e transformação. Talvez seja hora de resgatar o amor como um ato filosófico, onde amar não é consumir o outro, mas criar junto com ele um mundo que antes não existia.

Se o amor cega, que seja apenas para que possamos enxergar além das aparências, além da superfície das convenções e das fórmulas prontas. Um amor filosófico é aquele que pergunta, que se inquieta, que não se contenta com a resposta fácil. Talvez, no fim das contas, amar seja uma forma de filosofar – e filosofar, a mais intensa forma de amar.

 


segunda-feira, 7 de abril de 2025

Inteligência Difusa

O Mundo como Mente Expandida

Vi um garoto na praça abraçando uma árvore. Não tinha celular, não falava com ninguém, só encostava o rosto no tronco e fechava os olhos, como se estivesse ouvindo alguma coisa que a gente não escuta. Aquilo me paralisou por uns segundos. Parecia um gesto antigo, mas ao mesmo tempo novo — como se o menino tivesse descoberto um jeito de conversar com o mundo.

Fiquei ali, observando. E me perguntei: será que aquela árvore estava pensando junto com ele? Não no sentido humano de raciocínio, mas num tipo de inteligência que escapa ao que a gente costuma chamar de mente. Uma inteligência que circula entre as coisas, que pulsa nos espaços, nos seres, nos códigos e nos encontros.

Há um pressuposto antigo, cada vez mais redescoberto, de que a inteligência não está confinada ao crânio humano, nem aos algoritmos sofisticados que fabricamos. Ela pulsa em toda parte, como um campo invisível que permeia o real. Os estoicos chamavam isso de Logos, uma razão universal que organiza o mundo. Spinoza, por sua vez, via Deus em tudo — não como um velhinho julgador nos céus, mas como a substância infinita que se expressa em todas as coisas.

A ideia, embora antiga, continua escandalosa para o pensamento moderno, que ainda insiste em separar mente e matéria, humano e natureza, sujeito e objeto. Mas e se estivermos cercados por uma rede de inteligência silenciosa, paciente, que não precisa se manifestar em linguagem articulada para existir? E se a intuição, o pressentimento, o insight repentino, forem modos de conexão com essa teia maior?

Resolvi trocar uma ideia com um dos meus filósofos favoritos, trouxe Wittgenstein para dialogar e logo pensei: É aí que Wittgenstein entra na conversa. Em sua primeira fase, no Tractatus Logico-Philosophicus, ele afirmou que "os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo". Ou seja, só podemos pensar e compreender aquilo que conseguimos nomear. Mas, paradoxalmente, ele termina a obra dizendo que "sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar". De certa forma, ele reconhecia que havia algo para além da linguagem — algo essencial, porém indizível. O silêncio, então, não era ausência de sentido, mas talvez sua plenitude.

Mais tarde, nas Investigações Filosóficas, Wittgenstein muda de rota e passa a ver a linguagem como algo vivo, ligado aos jogos da vida, aos contextos, aos usos múltiplos. Isso abre uma brecha ainda maior para pensarmos que a inteligência está não só nas palavras, mas no gesto, no olhar, no ritual silencioso do cotidiano. Um jogo de linguagem pode ser o jeito que uma mãe embala um filho, ou o modo como alguém encosta a mão numa árvore e sente algo sem saber dizer o quê.

Uma citação marcante de Wittgenstein que expressa bem essa visão mais ampla e viva da linguagem, presente nas Investigações Filosóficas, é:

“Os limites do meu mundo são os limites da minha linguagem.”
(Tractatus Logico-Philosophicus)

Mais tarde, nas Investigações Filosóficas, Wittgenstein muda de rota e passa a ver a linguagem como algo vivo, ligado aos jogos da vida, aos contextos, aos usos múltiplos. Ele escreve:

“Falar uma linguagem é participar de uma forma de vida.”
Isso redefine de forma profunda o que entendemos por comunicação. A linguagem deixa de ser apenas um código racional para transmitir informações e passa a ser uma prática encarnada, vivida, compartilhada no cotidiano. Comunicação não é só o que dizemos, mas o que fazemos com o que dizemos — e até com o que não dizemos.

Quando alguém consola em silêncio, quando um cão abana o rabo, quando duas pessoas se olham e entendem algo sem trocar palavras — tudo isso são jogos de linguagem, no sentido amplo que Wittgenstein propõe. Não existe uma linguagem única; existem muitas, tantas quantas forem as formas de vida possíveis. O gesto, o som, o ritmo, o afeto, o cheiro, o tom — tudo comunica.

Essa visão desestabiliza a ideia de que só é válido o que é lógico, explícito, verbalizado. Ela convida a reconhecer a inteligência que opera nas entrelinhas, nas vibrações sutis, nos modos de estar no mundo. O próprio fato de uma criança falar com uma árvore, como na cena inicial, deixa de ser visto como delírio ou imaginação infantil e passa a ser um outro tipo de comunicação — uma participação em uma forma de vida diferente da nossa, mas nem por isso inferior.

Se aceitamos essa pluralidade da linguagem, então também ampliamos a noção de inteligência: deixamos de restringi-la à lógica formal e passamos a vê-la nos saberes do corpo, nos rituais cotidianos, nos conhecimentos ancestrais, nas emoções que movem decisões sem que saibamos explicar como ou por quê.

E, nesse sentido, conectar-se com a inteligência que está em todos os lugares é também reconhecer que estamos sempre nos comunicando com o mundo — mesmo quando calamos. A folha que cai e nos distrai, o cheiro do café que nos lembra alguém, o toque de uma mão que não diz, mas cura — tudo isso são falas, mensagens, presenças.

Wittgenstein, ao tirar a linguagem de um trono lógico e trazê-la para o chão da vida, nos convida a escutar de um outro jeito. E talvez, ao escutar melhor o mundo, descubramos que ele sempre nos respondeu — só que com outro vocabulário.

Já a física quântica sugere que partículas se entrelaçam a distâncias imensas, como se houvesse um tipo de consciência coordenando o todo. Algumas tradições indígenas falam com as montanhas, escutam os rios, pedem licença às pedras. Não por misticismo puro, mas por reconhecer que há ali uma presença, uma sabedoria que não se expressa como a nossa, mas nem por isso é menor.

A dificuldade está em aceitar que essa inteligência não tem um rosto, nem uma assinatura. Ela não se impõe; ela se insinua. Está na coincidência que parecia acaso, mas era recado. Está na pausa antes de tomar uma decisão, quando algo em você diz “espera mais um pouco”. Está no modo como um animal te olha e parece saber exatamente quem você é, sem que você diga nada.

Talvez o maior desafio não seja encontrar essa inteligência, mas desaprender o ruído que nos impede de reconhecê-la. A pressa, o julgamento imediato, o excesso de racionalização — tudo isso nos desconecta. O retorno à escuta profunda, ao olhar desarmado, ao silêncio fecundo, nos aproxima. Não é preciso fazer muito. Às vezes, basta andar devagar, olhar para o céu como quem pergunta e aguarda, ou conversar com uma árvore sem achar que é loucura.

Wittgenstein diria que certos sentidos não cabem na linguagem, mas ainda assim nos atravessam. Talvez a inteligência que está em todos os lugares seja uma dessas experiências inomináveis, que só se entende quando se vive. O que está fora das palavras, muitas vezes, é exatamente o que dá sentido à vida. Ele nos faz um convite à criatividade comunicacional. 

Talvez seja necessário criar pontes, gestos, rituais, novas formas simbólicas. Wittgenstein, nesse ponto, nos convida menos a uma teoria e mais a uma prática ética da atenção ao outro. Wittgenstein parece sugerir que o entendimento é possível quando há sobreposição suficiente entre formas de vida. Ou seja, comunicação existe, mas não como tradução perfeita — e sim como aproximação sensível, como quando aprendemos um novo idioma “por imersão”.


quinta-feira, 27 de março de 2025

Além da Subjetividade

Eu estava caminhando pela praça quando me dei conta de uma cena banal: um cachorro cheirando uma árvore com total concentração, como se decifrasse um livro invisível. Parei para observar. Ali, naquele instante, percebi algo desconcertante: aquele animal não precisava de linguagem, símbolos ou conceitos para existir plenamente naquele momento. Sua experiência não era mediada por interpretações, desejos ocultos ou dilemas existenciais. Apenas estava. E então me perguntei: o que existe além da subjetividade humana?

A subjetividade sempre foi o epicentro da filosofia moderna. Descartes inaugurou uma tradição que coloca o "eu penso" como fundamento de toda certeza, e Kant nos trancou em uma estrutura cognitiva que molda nossa experiência do mundo. Tudo o que conhecemos parece passar por essa mediação subjetiva. Mas será que essa perspectiva esgota todas as formas de existência e de conhecimento?

Ao longo da história, algumas tradições filosóficas buscaram escapar da bolha da subjetividade. O zen-budismo, por exemplo, propõe um estado de consciência não dualista, onde a separação entre sujeito e objeto se dissolve. A fenomenologia de Merleau-Ponty também questiona essa divisão rígida, apontando para um entrelaçamento entre corpo e mundo, onde a percepção não é um ato puramente interno, mas uma abertura para a alteridade.

No campo da ciência, neurocientistas e biólogos investigam formas de cognição não humanas. Polvos, por exemplo, possuem um sistema nervoso distribuído, onde a inteligência não está centralizada em um "eu" pensante, mas espalhada pelo corpo. Isso desafia nossa concepção tradicional de consciência e nos força a reconsiderar se o humano é, de fato, o modelo universal de percepção e compreensão.

E se, em vez de nos limitarmos ao nosso próprio esquema mental, tentássemos acessar outras formas de ser? E se o real não precisasse ser sempre filtrado pela interpretação humana? Talvez haja uma realidade vibrante que escapa ao nosso olhar subjetivo, uma riqueza de presenças que não precisam ser nomeadas para existirem plenamente. A experiência direta, sem as camadas de mediação conceitual, pode ser um caminho para vislumbrar esse "além".

Uma possível experiência humana que poderia transcender a subjetividade é o estado de fluxo absoluto, onde a consciência se dissolve na própria ação. Um exemplo disso pode ser encontrado em dançarinos, músicos ou atletas que atingem um momento de pura imersão, onde não há mais distinção entre aquele que age e a ação em si. O corpo se move sem uma intenção consciente, sem um "eu" que comanda cada gesto. É uma entrega total ao presente, onde a experiência se torna um fluxo contínuo, livre das amarras da interpretação pessoal.

Houve um instante, enquanto pescava solitário, frente à imensidão do mar, em que tudo desapareceu: o tempo, os pensamentos, até mesmo a consciência de estar ali. O movimento das ondas parecia me integrar a algo maior, como se eu já não fosse um observador, mas parte da própria respiração do oceano. O fio da linha era uma extensão de mim, e a espera pelo peixe deixou de ser espera – era apenas um instante sem começo nem fim. Quando senti o puxão e recobrei a percepção de mim mesmo, foi como emergir de um mundo sem palavras, onde a existência era pura e indissolúvel.

No fim das contas, talvez a subjetividade humana seja menos uma prisão e mais um convite: um convite para sair de si e perceber que há um mundo pulsante que nunca dependeu de nossa interpretação para existir.


sábado, 22 de março de 2025

Fantasma na Maquina

Outro dia, enquanto observava um amigo lutando com um novo celular, fiquei pensando: por que ainda insistimos na ideia de que mente e corpo são entidades separadas? Meu amigo praguejava contra a tecnologia, mas ao mesmo tempo parecia quase esperar que o aparelho entendesse seu desespero. Ali, naquele embate entre homem e máquina, vi um reflexo do que Gilbert Ryle chamaria de "o erro categorial" – a velha crença no fantasma na máquina.

Ryle, em sua crítica ao dualismo cartesiano, nos alerta contra a ilusão de que a mente seja uma substância distinta do corpo, um fantasma controlando uma engrenagem. Para ele, essa separação é um mal-entendido filosófico, uma confusão semelhante a tentar encontrar a "universidade" ao olhar apenas para os edifícios, salas e corredores de um campus. A mente não é um lugar escondido dentro do corpo; ela se manifesta nas próprias ações e comportamentos de um indivíduo.

Tomemos, por exemplo, o caso de alguém jogando xadrez. Para um dualista, há um "pensador" interno elaborando as jogadas e depois ordenando as mãos a moverem as peças. Para Ryle, isso é um absurdo: a inteligência não está dentro da cabeça como um pequeno ser estrategista, mas sim na própria prática do jogo, nas habilidades demonstradas ao longo das partidas. A mente é comportamento, não uma substância invisível manipulando cordas.

Isso tem implicações profundas para como encaramos a consciência, a identidade e até a inteligência artificial. Quando falamos em "mentes" de robôs ou "consciência" de inteligências artificiais, talvez estejamos apenas projetando a velha crença dualista. Um algoritmo pode exibir comportamento inteligente, mas isso significa que pensa? Ou estamos, mais uma vez, vendo fantasmas onde há apenas engrenagens simbólicas?

A beleza da proposta de Ryle é que ela nos convida a repensar a forma como descrevemos a experiência humana. Em vez de nos preocuparmos em localizar a mente em algum "lugar secreto", talvez devamos prestar mais atenção às expressões, gestos e atitudes que fazem de cada um de nós quem somos. E, se olharmos bem, veremos que nunca houve um fantasma na máquina – apenas a própria máquina, vivendo e se expressando de forma incrivelmente complexa.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Tabula Rasa - Inquietante

Certa manhã, ao atravessar a cidade ainda despertando, vi um homem caminhando com o olhar perdido, como se estivesse preso em um sonho do qual não conseguia acordar. Não era um caso clínico de sonambulismo, mas algo mais sutil: uma forma de existir no mundo sem realmente estar nele. Era como se sua mente fosse uma folha em branco sobre a qual nunca escreveram nada, ou pior, um quadro que alguém insiste em apagar todos os dias.

A metáfora da "tábula rasa" percorre a história da filosofia há séculos. Da concepção aristotélica, passando por John Locke, até as críticas contemporâneas, a ideia de que nascemos como uma página em branco sobre a qual a experiência escreve é, ao mesmo tempo, libertadora e inquietante. Se somos apenas o resultado das influências externas, então onde está nossa autonomia? E se, ao invés de protagonistas, fôssemos apenas sonâmbulos perambulando por narrativas que nunca escolhemos?

O mundo moderno, saturado de informações, paradoxalmente não nos desperta, mas nos mantém em um estado de sonambulismo existencial. Movemo-nos pelas ruas, ocupamos funções, consumimos conteúdos, mas muitas vezes sem verdadeira reflexão. A tábula rasa não é mais aquela superfície pura e receptiva, mas uma lousa onde os algoritmos, a publicidade e as pressões sociais apagam e reescrevem incessantemente o que acreditamos ser. Quem somos, afinal, quando tudo ao redor dita o que devemos desejar, temer e amar?

A teoria da tábula rasa foi frequentemente criticada por sugerir uma maleabilidade extrema da mente humana, como se fôssemos meros recipientes esperando ser preenchidos. Steven Pinker, por exemplo, argumenta que a neurociência e a genética desmontam essa visão simplista: não somos apenas moldados pelo ambiente, há predisposições inatas que influenciam nossa forma de agir e pensar. Mas mesmo que admitamos essa mistura de biologia e experiência, a questão persiste: o quanto de nossas vidas é vivido conscientemente e o quanto é apenas repetição de padrões introjetados?

Talvez o problema não seja apenas a tábula rasa, mas o estado sonâmbulo em que nos encontramos. É fácil aceitar as estruturas impostas quando se está entorpecido, quando não se faz perguntas. O filósofo Theodor Adorno criticava essa passividade ao afirmar que a indústria cultural transforma indivíduos em consumidores dóceis, incapazes de resistência crítica. E se nossa apatia não fosse uma escolha, mas o efeito de uma programação constante, como um quadro negro apagado antes que qualquer pensamento se torne permanente?

Despertar desse estado exige esforço, exige perguntar-se sobre o que realmente se pensa e por quê. Requer coragem para desafiar as histórias que nos contam sobre nós mesmos e para reivindicar a autoria da própria existência. Talvez nunca sejamos páginas totalmente em branco, mas também não precisamos aceitar que sejam outros a escrever por nós. O desafio é sair desse sonambulismo e aprender a empunhar a própria pena.


sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Forma Evocativa

A "forma evocativa" é como a arte de provocar uma reação profunda, algo que vai além do que se vê à primeira vista. No sentido filosófico, isso nos leva a pensar não apenas na superfície das coisas, mas nas camadas mais profundas que despertam sentimentos, reflexões e conexões.

No nosso cotidiano agitado, estamos cercados por exemplos dessa forma evocativa. Pense naquela música que toca na rádio e imediatamente te transporta para um momento especial da sua vida, evocando sentimentos de nostalgia ou alegria intensa. A música é mais do que uma sucessão de notas; ela é capaz de nos conectar com memórias e emoções de forma poderosa.

Da mesma forma, um filme pode não ser apenas uma sequência de imagens em movimento, mas uma história que nos faz refletir sobre questões universais da condição humana. O diretor usa a forma cinematográfica não apenas para entreter, mas para provocar uma profunda introspecção sobre temas como amor, perda, esperança e redenção.

A literatura também é mestra na forma evocativa. Um simples livro pode nos transportar para mundos imaginários, nos fazer sentir como se estivéssemos na pele de personagens fictícios, e nos fazer questionar nossas próprias convicções e ideias sobre a vida.

No entanto, a forma evocativa não se limita apenas às artes. No nosso dia a dia, encontramos momentos que nos surpreendem e nos tocam profundamente. Pode ser um gesto de bondade inesperado de um estranho, que nos lembra da compaixão humana em meio às dificuldades da vida. Ou um pôr do sol que nos faz parar por um momento e contemplar a beleza efêmera da natureza.

Filosoficamente falando, a forma evocativa nos lembra da capacidade do ser humano de transcender o ordinário e buscar significado em nossas experiências. Ela nos desafia a não nos contentarmos com o superficial, mas a explorar as camadas mais profundas das nossas interações, das nossas criações e do nosso próprio entendimento sobre o mundo. 

Portanto, que possamos todos cultivar uma apreciação maior pela forma evocativa ao nosso redor. Que possamos estar abertos não apenas ao que vemos e ouvimos, mas também ao que sentimos e compreendemos de forma intuitiva e emocional. Pois é nesses momentos de conexão genuína que encontramos verdadeiro significado e enriquecemos nossa jornada humana.