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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Corpos Dóceis

Quando o corpo aprende a pedir licença

Outro dia percebi que eu estava sentado exatamente como me ensinaram: costas eretas, pernas paralelas, mãos quietas. Ninguém me mandou fazer isso naquele momento. Ainda assim, fiz. Meu corpo sabia. E foi aí que lembrei de Foucault.

Ele chamaria isso de um corpo dócil: um corpo que não apenas obedece, mas que aprendeu a obedecer sozinho.

O que Foucault queria dizer com “corpos dóceis”?

Em Vigiar e Punir, Foucault mostra como, a partir do século XVIII, o poder deixou de atuar só punindo e passou a treinar. O corpo virou um projeto. Não bastava mais que ele fosse forte ou útil — ele precisava ser útil, previsível, produtivo e controlável.

O corpo dócil é aquele que:

  • se move como deve,
  • senta como deve,
  • trabalha como deve,
  • fala quando deve,
  • cala quando deve.

Não por violência explícita, mas por disciplina: escola, quartel, hospital, fábrica, escritório, academia, algoritmo.

O genial (e assustador) é que o poder já não precisa mais gritar. O corpo aprendeu a se corrigir sozinho.

Cena 1: a sala de aula

Crianças enfileiradas, carteiras alinhadas, silêncio valorizado, ir ao banheiro só com autorização. O corpo aprende cedo que há um jeito certo de existir no espaço.

Quem se mexe demais é “hiperativo”.
Quem fala fora de hora é “indisciplinado”.
Quem questiona demais é “difícil”.

Não se ensina apenas matemática. Ensina-se postura, ritmo, obediência.

Cena 2: o trabalho

No escritório, ninguém prende você com correntes. Mas:

  • O relógio controla seus gestos.
  • O crachá controla seu acesso.
  • O e-mail controla seu tom.
  • O salário controla seu medo.

Você não está preso. Está formatado.

Seu corpo aprende quando pode ir ao banheiro, quanto pode comer, como pode vestir, como deve sorrir. E ainda agradece no final do mês.

Cena 3: a academia

Até o corpo “livre” da academia é disciplinado: séries, repetições, metas, métricas, espelhos. O corpo precisa performar. Precisa caber num padrão de eficiência estética.

Até o prazer virou planilha.

Cena 4: o celular

Aqui Foucault não chegou a ver, mas certamente sorriria com ironia: o corpo dócil agora segura o próprio instrumento de vigilância. Ele se oferece ao algoritmo. Mede passos, sono, humor, produtividade.

Não é mais só o Estado que vigia.
É o aplicativo.
E, principalmente, eu mesmo.

O ponto mais perturbador

O corpo dócil não é o corpo que sofre.
É o corpo que acha normal.

Eu não sinto que estou sendo controlado. Eu sinto que estou sendo “organizado”. E é justamente aí que o poder vence.

Foucault não fala de tiranos visíveis. Ele fala de uma engenharia invisível da normalidade.

O corpo dócil não é quebrado.
Ele é educado.

Mas existe saída?

Foucault não oferece libertação romântica. Ele oferece consciência.

Talvez a pequena revolução esteja em:

  • sentar diferente,
  • andar sem pressa,
  • trabalhar sem se reduzir,
  • dizer não sem pedir desculpas,
  • descansar sem culpa,
  • existir fora da performance.

O corpo começa a deixar de ser dócil quando volta a ser sensível.

Um fechamento pessoal

Hoje, quando percebo meu corpo se ajustando automaticamente, eu me pergunto:

Isso é conforto… ou adestramento?

Nem sempre a resposta é clara. Mas só a pergunta já é um pequeno ato de indisciplina — e, para Foucault, isso já é política.

Porque, no fundo, o corpo dócil não é apenas um corpo obediente.
É um corpo que esqueceu que poderia se mover de outro jeito.

E talvez pensar seja exatamente isso: lembrar ao corpo que ele ainda pode escolher como existir no espaço.