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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Corpos Dóceis

Quando o corpo aprende a pedir licença

Outro dia percebi que eu estava sentado exatamente como me ensinaram: costas eretas, pernas paralelas, mãos quietas. Ninguém me mandou fazer isso naquele momento. Ainda assim, fiz. Meu corpo sabia. E foi aí que lembrei de Foucault.

Ele chamaria isso de um corpo dócil: um corpo que não apenas obedece, mas que aprendeu a obedecer sozinho.

O que Foucault queria dizer com “corpos dóceis”?

Em Vigiar e Punir, Foucault mostra como, a partir do século XVIII, o poder deixou de atuar só punindo e passou a treinar. O corpo virou um projeto. Não bastava mais que ele fosse forte ou útil — ele precisava ser útil, previsível, produtivo e controlável.

O corpo dócil é aquele que:

  • se move como deve,
  • senta como deve,
  • trabalha como deve,
  • fala quando deve,
  • cala quando deve.

Não por violência explícita, mas por disciplina: escola, quartel, hospital, fábrica, escritório, academia, algoritmo.

O genial (e assustador) é que o poder já não precisa mais gritar. O corpo aprendeu a se corrigir sozinho.

Cena 1: a sala de aula

Crianças enfileiradas, carteiras alinhadas, silêncio valorizado, ir ao banheiro só com autorização. O corpo aprende cedo que há um jeito certo de existir no espaço.

Quem se mexe demais é “hiperativo”.
Quem fala fora de hora é “indisciplinado”.
Quem questiona demais é “difícil”.

Não se ensina apenas matemática. Ensina-se postura, ritmo, obediência.

Cena 2: o trabalho

No escritório, ninguém prende você com correntes. Mas:

  • O relógio controla seus gestos.
  • O crachá controla seu acesso.
  • O e-mail controla seu tom.
  • O salário controla seu medo.

Você não está preso. Está formatado.

Seu corpo aprende quando pode ir ao banheiro, quanto pode comer, como pode vestir, como deve sorrir. E ainda agradece no final do mês.

Cena 3: a academia

Até o corpo “livre” da academia é disciplinado: séries, repetições, metas, métricas, espelhos. O corpo precisa performar. Precisa caber num padrão de eficiência estética.

Até o prazer virou planilha.

Cena 4: o celular

Aqui Foucault não chegou a ver, mas certamente sorriria com ironia: o corpo dócil agora segura o próprio instrumento de vigilância. Ele se oferece ao algoritmo. Mede passos, sono, humor, produtividade.

Não é mais só o Estado que vigia.
É o aplicativo.
E, principalmente, eu mesmo.

O ponto mais perturbador

O corpo dócil não é o corpo que sofre.
É o corpo que acha normal.

Eu não sinto que estou sendo controlado. Eu sinto que estou sendo “organizado”. E é justamente aí que o poder vence.

Foucault não fala de tiranos visíveis. Ele fala de uma engenharia invisível da normalidade.

O corpo dócil não é quebrado.
Ele é educado.

Mas existe saída?

Foucault não oferece libertação romântica. Ele oferece consciência.

Talvez a pequena revolução esteja em:

  • sentar diferente,
  • andar sem pressa,
  • trabalhar sem se reduzir,
  • dizer não sem pedir desculpas,
  • descansar sem culpa,
  • existir fora da performance.

O corpo começa a deixar de ser dócil quando volta a ser sensível.

Um fechamento pessoal

Hoje, quando percebo meu corpo se ajustando automaticamente, eu me pergunto:

Isso é conforto… ou adestramento?

Nem sempre a resposta é clara. Mas só a pergunta já é um pequeno ato de indisciplina — e, para Foucault, isso já é política.

Porque, no fundo, o corpo dócil não é apenas um corpo obediente.
É um corpo que esqueceu que poderia se mover de outro jeito.

E talvez pensar seja exatamente isso: lembrar ao corpo que ele ainda pode escolher como existir no espaço.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Quietude para Florescer

Sem solenidade, por favor

Não foi numa montanha, nem num retiro espiritual. Foi numa fila. Dessas de mercado, em que ninguém olha para ninguém e todo mundo olha para o celular. De repente, o sistema caiu. Silêncio forçado. Um constrangimento quase físico. E ali ficou claro: não sabemos mais ficar quietos. A quietude virou falha técnica, não condição humana. Mas talvez seja justamente aí, nesse espaço que tentamos eliminar, que algo essencial tenta nascer.

Este ensaio é sobre isso: a quietude não como fuga do mundo, mas como condição para florescer dentro dele.

A confusão entre movimento e vida

Vivemos sob a crença silenciosa de que estar em movimento é estar vivo. Agenda cheia, notificações piscando, respostas imediatas. A quietude, ao contrário, soa como improdutividade, atraso, suspeita. Se alguém está quieto demais, “tem algo errado”.

Mas a filosofia sempre desconfiou dessa pressa. Aristóteles já distinguia o movimento que transforma do movimento que apenas desloca. Muito do que fazemos hoje apenas nos desloca: de tarefa em tarefa, de opinião em opinião, de estímulo em estímulo. Mudamos de lugar, mas não de estado interior.

A quietude, nesse sentido, não é ausência de ação, mas suspensão do ruído que impede a ação verdadeira. É quando o lago para de ser agitado e finalmente reflete algo.

Quietude não é isolamento

Há um erro comum: imaginar a quietude como solidão, fuga ou fechamento. Mas quietude não é desligar-se do mundo — é ajustar o volume. É como abaixar a música para ouvir melhor a conversa.

No cotidiano, isso aparece de formas simples:

  • Alguém que escuta sem preparar a resposta.
  • Um pai ou mãe que senta no chão para observar a criança brincar, sem intervir.
  • Um profissional que pensa antes de responder um e-mail atravessado, e não depois.

Nesses momentos, a quietude não empobrece a relação — ela a aprofunda. É no intervalo entre estímulo e reação que a liberdade aparece. Viktor Frankl falava disso, mas qualquer pessoa que já evitou uma discussão desnecessária conhece essa verdade na prática.

O florescimento é silencioso

Nada floresce fazendo barulho. A semente não anuncia seu trabalho. A raiz não posta atualizações. O crescimento acontece longe dos holofotes.

O mesmo vale para processos humanos:

  • A maturidade não chega em forma de epifania ruidosa.
  • O luto se elabora mais no silêncio do que nos discursos.
  • Uma ideia realmente boa costuma surgir depois que o excesso de ideias se cala.

O problema é que queremos colher sem enraizar. Queremos resultados visíveis sem passar pelo invisível. A quietude é esse subterrâneo do espírito onde nada parece acontecer — mas tudo está sendo preparado.

O cotidiano como campo de treino

Não é preciso mudar de vida para cultivar quietude. Basta mudar o modo de estar nela.

Alguns exemplos quase banais, mas decisivos:

  • Caminhar sem fones por alguns minutos.
  • Comer sem assistir nada.
  • Permanecer um pouco mais numa pergunta antes de correr para a resposta.
  • Aceitar o tédio como passagem, não como inimigo.

Esses gestos não são técnicas de produtividade disfarçadas de espiritualidade. São atos de resistência. Num mundo que exige performance constante, a quietude é uma forma discreta de rebeldia.

Florescer não é expandir, é alinhar

Talvez florescer não signifique “ser mais”, mas ser mais coerente. Menos disperso. Menos fragmentado. A quietude não nos torna maiores — nos torna inteiros.

Quando cessamos o ruído, percebemos melhor o que nos falta e o que nos sobra. E isso é desconfortável. Por isso evitamos. Mas também é libertador. Porque só cresce de verdade aquilo que encontra seu próprio ritmo.

Quase um sussurro

A quietude não resolve a vida. Ela a revela. E talvez isso seja suficiente. Num mundo que grita soluções, florescer pode ser aprender a escutar. Não o barulho de fora, mas aquele silêncio interno que, quando finalmente aparece, não pede pressa. Pede espaço.

E espaço, hoje, é um dos gestos mais raros de cuidado consigo mesmo.

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Anestesia Social

Tem dias que a gente olha em volta e parece que todo mundo está meio desligado — como se a cidade fosse um grande hospital e o cotidiano estivesse passando anestesia na gente. Não dói, não incomoda, mas também não se sente muita coisa. Acordamos, trabalhamos, rolamos a tela do celular, rimos de memes, reclamamos um pouco do governo, e assim vai. O extraordinário virou rotina, e o incômodo foi dissolvido em pequenas doses de distração. É como se vivêssemos meio dormentes, para não sentir nem o peso da realidade nem o desconforto da mudança.

A anestesia social é justamente esse fenômeno: a suspensão das nossas reações, a neutralização das emoções coletivas, um jeito de evitar que algo se torne insuportável. Mas será que ela nos protege ou nos mantém submissos?

Pense numa fila de banco que demora uma hora. Todo mundo está insatisfeito, mas ninguém faz nada. Esperam. Mexem no celular. Falam mal em voz baixa. E no final, quando são atendidos, até agradecem. O mesmo acontece com salários que não acompanham o custo de vida, com injustiças políticas, com violências naturalizadas. Não se trata apenas de medo ou preguiça, mas de uma espécie de entorpecimento: a raiva é diluída, a indignação vira piada, e a esperança é adiada para depois.

Nas redes sociais, por exemplo, vemos notícias trágicas e, alguns segundos depois, um vídeo engraçado. O cérebro não tem tempo de processar a gravidade do que acabou de ler. Em menos de um minuto, passamos da guerra para o gato fofinho. É uma forma de anestesia digital. No trabalho, acontece algo semelhante: colegas explorados sorriem para manter o emprego, chefes abusivos são normalizados, e o descontentamento vira apenas conversa no cafezinho. Na política, a anestesia é ainda mais evidente: escândalos se empilham, mas não geram mobilização — geram memes. O riso vira um alívio temporário, e nada muda de fato.

O filósofo Herbert Marcuse, na sua crítica à sociedade industrial avançada, já falava disso. Ele chamava de “dessublimação repressiva”: quando o sistema libera pequenos prazeres, pequenas válvulas de escape, para evitar que as pessoas percebam que estão presas. Em outras palavras, damos risada, consumimos, nos distraímos — e seguimos anestesiados.

Mas há um problema nessa anestesia coletiva: ela não é uma cura. A dor que não sentimos continua lá, só que mascarada. Mais cedo ou mais tarde, a anestesia passa, e o impacto pode ser ainda maior. Sociedades que vivem adormecidas muitas vezes despertam de forma brusca, com explosões de revolta ou crises culturais.

A pergunta que fica é: precisamos mesmo sentir dor para mudar? Talvez sim. A dor é um sinal de que algo não vai bem. É o que nos faz retirar a mão do fogo. Quando a sociedade deixa de sentir, ela deixa de se proteger. A anestesia social é confortável, mas perigosa — porque impede que vejamos que algo precisa ser transformado.

Marcuse talvez dissesse que a tarefa do pensador, do artista, do educador é justamente tirar um pouco dessa anestesia, reativar a sensibilidade coletiva, para que possamos sentir de novo — e, sentindo, agir. Talvez o primeiro passo seja aprender a ficar desconfortável outra vez, a deixar que certas notícias nos toquem, que certas situações nos revoltem, que certos silêncios nos incomodem. Só assim a anestesia social perde o efeito, e a vida volta a pulsar.


sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Sentir nos Ossos

Quando a Percepção se Torna Matéria

Há experiências que não passam pela lógica, pela evidência ou pela palavra. Elas se infiltram no corpo, como um frio que não está no ar, mas no osso — um saber que não vem dos livros, mas de uma espécie de memória mineral. “Sentir nos ossos” é mais do que uma metáfora; é a sensação de que algo é tão verdadeiro que atravessa carne, pele e pensamento.

O jurista, brasileiro Fábio Konder Comparato, ao tratar da experiência humana para além da racionalidade estrita, lembra que certos saberes são “pré-discursivos”, ou seja, percebidos antes que possamos formulá-los. É como se o corpo tivesse sensores ancestrais capazes de pressentir o que a mente ainda não elaborou.

No cotidiano, isso aparece nas pequenas antecipações: uma mãe que, sem saber por quê, acorda no meio da noite e descobre que o filho está doente; um pescador que sente que “hoje o mar não está para peixe”, mesmo com o céu limpo; alguém que entra numa sala e, antes de qualquer palavra, sabe que houve uma discussão ali.

Esse sentir profundo também carrega o peso das lembranças que se inscrevem fisicamente. Cicatrizes que doem quando muda o tempo, dores antigas que reaparecem em dias de tristeza, a postura que se fecha quando a vida pede defesa. O corpo é arquivo e oráculo.

Comparato talvez diria que “sentir nos ossos” é um modo de nos lembrar de que somos, antes de tudo, matéria viva — e que a inteligência não está apenas na mente, mas distribuída por toda a nossa estrutura. Nesse sentido, confiar nesse sentir não é superstição, mas reconhecer a sabedoria incorporada que milênios de experiência gravaram em nós.

O risco, porém, é esquecer que nem todo pressentimento é verdade. O frio nos ossos pode vir de dentro, de medos antigos, e não do mundo lá fora. A sabedoria está em saber discernir entre o eco do passado e o aviso do presente.

Talvez, no fim, “sentir nos ossos” seja como carregar um sismógrafo interno — que às vezes registra tremores distantes e outras vezes inventa terremotos. Cabe a nós aprender a ler esse mapa invisível.


terça-feira, 15 de julho de 2025

Cacofonia de Individualidades

Um ensaio sobre a colisão das vozes do eu no mundo contemporâneo

No meio do ônibus lotado, alguém conversa alto no celular. Outro escuta música sem fone. Uma senhora resmunga sozinha, um jovem grava um vídeo com voz de radialista. E você? Está ali, tentando pensar. Mas pensar em quê, com tanto barulho?

Vivemos cercados por vozes — reais, digitais, internas. Cada uma quer ser ouvida, cada uma acredita ter algo único a dizer. Mas o resultado, muitas vezes, é mais ruído que música. A isso podemos chamar de cacofonia de individualidades: um mundo onde todos têm algo a expressar, mas poucos têm tempo, espaço ou silêncio para escutar.

A ascensão do indivíduo que se afirma

A modernidade nos ensinou que ser indivíduo é uma conquista. Desvencilhar-se do grupo, da família, da tribo, da religião — para tornar-se um eu. Um eu com desejos próprios, gostos, opiniões, selfies, slogans. A filosofia moderna, de Descartes a Nietzsche, deu o tom: “penso, logo existo”; “torna-te quem tu és”.

Mas a partir do momento em que todos querem ser “quem são”, o mundo se enche de vozes que não necessariamente dialogam — elas competem, se sobrepõem, se atropelam. O resultado não é sinfonia, mas cacofonia. Um ruído constante, um excesso de presença que ameaça até mesmo a presença mais íntima: a de si consigo mesmo.

Individualidades que não se integram

A cacofonia surge porque os sujeitos não se afinam. Não há harmonia entre as individualidades quando cada uma toca um instrumento para si, sem escuta ou regência comum. A lógica da diferenciação extrema — tão valorizada na cultura atual — torna-se contraproducente quando esvazia a possibilidade de comunidade.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han afirma que vivemos em uma “sociedade da performance”, onde o sujeito precisa se afirmar constantemente, se mostrar interessante, diferente, produtivo, autêntico. O problema é que, nesse esforço contínuo de singularização, as conexões reais se rarefazem. Tornamo-nos ilhas sonoras.

A escuta como ato filosófico

Há, porém, uma saída. E ela não é o silêncio forçado, nem a submissão ao coletivo. A escuta pode ser um gesto radical. Ouvir o outro — verdadeiramente — é permitir que a sua individualidade me afete, que sua melodia me altere, que nossas notas dissonantes formem outra coisa que não apenas gritos sobrepostos.

O filósofo Martin Buber dizia que o encontro autêntico acontece quando há um “Eu-Tu” — uma relação onde o outro não é reduzido a função, objeto ou distração. Escutar, nesse sentido, é a base para qualquer possibilidade de comunhão entre vozes. É o começo da harmonia.

O coro possível

A cacofonia pode ser um estágio. Um estágio inicial, bruto, de um mundo que ainda está aprendendo a ser múltiplo. Se há muitas vozes, há também a matéria-prima para uma nova forma de convivência. Mas isso exige regência — e não no sentido autoritário, e sim poético: quem será o maestro que ensina a pausa, o tempo certo, o contraponto?

Talvez a filosofia não deva dar respostas, mas propor escutas. Um novo tipo de ética, onde a singularidade não é o fim, mas o ponto de partida para relações mais afinadas. Onde a diferença não vira ruído, mas se transforma em harmonia possível.

Epílogo: no meio do barulho

Você está ainda no ônibus. E começa a reparar: a senhora que resmunga tem um rosto cansado, o rapaz que grava vídeos repete frases de impacto como quem precisa se afirmar. Cada um desses sons carrega uma história. Cada um, um motivo para existir.

De repente, o barulho não desaparece. Mas você começa a escutar diferente.

E isso muda tudo.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Sentir e Pensar

… e o que mais?

A gente costuma achar que só aprende pela cabeça ou pelo coração. Ou você sente — e aprende com o calor, o frio, o medo, o gosto das coisas — ou você pensa — calcula, raciocina, organiza as ideias para entender o mundo. Parece não haver saída desse binário. Mas será mesmo?

Veja o exemplo do menino que aprende a andar de bicicleta. No começo ele pensa: “segura firme o guidão, olha pra frente, pedala devagar…”. Também sente: medo de cair, emoção ao deslizar pela rua. Mas chega uma hora em que nem sente nem pensa. O corpo aprende sozinho. Ele vira bicicleta. O saber passou para as pernas, os braços, o equilíbrio. É o conhecimento do corpo — o tal “saber fazer” que nenhum livro ensina.

Ou pense naquelas decisões que você toma sem saber por quê. Um desvio de caminho, um "não vou entrar nessa loja agora", um "vou ligar pra fulano hoje". Não foi pensamento lógico nem sentimento claro. Foi um saber que veio de outro lugar — a tal da intuição. E quantas vezes ela acerta? Muitas.

Tem também o saber da convivência. Você nunca parou para pensar como se espera uma fila no banco. Ninguém te explicou. Você simplesmente aprendeu — porque vive aqui, porque observa sem perceber. Isso é cultura agindo em silêncio. Nem sentir, nem pensar: é absorver pelo convívio.

E ainda há o saber do momento presente. O zen-budista diria: quando você come uma fruta e presta atenção total nela — no sabor, na textura, no cheiro — está conhecendo direto, sem pensar, sem julgar, sem interpretar. Conhecimento puro, sem intermediários.

Talvez o mundo não caiba só no sentir e no pensar. Há corpos que sabem sozinhos. Há intuições que chegam sem convite. Há culturas que moldam você sem pedir permissão. Há presenças que ensinam sem dizer palavra.

Os filósofos antigos sabiam disso. Espinosa, lá no século XVII, já dizia que o corpo tem uma inteligência própria — capaz de fazer coisas das quais a mente nem sonha. E Henri Bergson, no século XX, desconfiava que a intuição nos leva a conhecer verdades que o pensamento não alcança.

Quem sabe conhecer seja como viver: não se faz só com a cabeça e o peito. Também se faz com o corpo, com o instante, com o outro.

Talvez — no fundo — a gente seja uma soma estranha de tudo isso. E por isso aprender nunca se esgota.


terça-feira, 29 de abril de 2025

Olhos dos Outros

 

Outro dia, caminhando sem pressa no centro da cidade, percebi quantas vezes desviamos o olhar — dos desconhecidos, das vitrines, de nós mesmos refletidos em uma vidraça. Vivemos como quem anda em campo minado: tentando adivinhar onde os olhos dos outros irão pousar. A sensação é estranha, quase física, como se existisse uma trama invisível nos puxando ou repelindo. É difícil escapar. Mesmo quem diz não se importar, já confessou, ainda que em silêncio: ser visto tem um peso. E ser ignorado, também.

A filosofia pode nos ajudar a ir além dessa sensação incômoda e observar o que, afinal, significa estar sob os olhos dos outros — e, mais ainda, como os olhos dos outros esculpem quem pensamos ser.

O espelho que anda pelas ruas

Jean-Paul Sartre dizia que "o inferno são os outros". Muita gente interpreta essa frase como uma acusação raivosa — mas há algo mais sutil por trás. Para Sartre, o olhar alheio nos rouba. Ao ser visto, deixamos de ser apenas sujeitos de nossas próprias ações: viramos objeto para o olhar do outro. Algo se solidifica: somos "isso" que o outro vê. E, de repente, nossas possibilidades parecem mais limitadas.

Quando alguém nos observa, não é apenas uma troca de olhares. É um batismo: nascemos, ali, sob a definição que o outro projeta. Um elogio nos levanta; um olhar de desdém nos dobra por dentro. Às vezes, sem querer, caminhamos na vida tentando corresponder ou reagir a olhares que nem estão mais presentes.

O peso e a invenção

Mas há outro lado. Talvez os olhos dos outros também sejam uma chance de invenção. Se cada olhar nos define de um jeito, somos, no fundo, múltiplos. Não fixos, não definitivos. Os olhos dos outros não são apenas uma prisão: são um território de criação.

A criança que canta sem medo na frente da avó, mas se cala diante de estranhos, entende isso de forma intuitiva. Somos uma peça em mutação, moldada pela luz que nos atinge. A pergunta é: qual luz queremos absorver?

O filósofo brasileiro Vilém Flusser propunha pensar o ser humano como um projeto, e não como um dado. O olhar alheio, nesse sentido, seria como o vento para a pipa: algo que pode nos derrubar ou nos erguer — dependendo de como ajustamos as cordas. Não é o vento que determina o voo. Somos nós.

E se olhássemos diferente?

Por fim, vale virar a mesa: como nossos próprios olhos moldam os outros? Será que a maneira como olhamos alguém não sela também um destino possível para ele? O olhar que acolhe, que reconhece, que instiga, pode ser a força que falta para o outro encontrar algo que ainda não sabia que existia.

No fim das contas, estamos todos andando pelas ruas, procurando não apenas sermos vistos, mas vistos de uma forma que nos permita ser. Um dia talvez aprendamos a olhar uns para os outros com olhos que libertam — e não que aprisionam.

Até lá, seguimos praticando: um olhar de cada vez.

sexta-feira, 14 de março de 2025

Verdades Inconvenientes

Sabe aquele momento em que alguém solta uma verdade no meio de uma conversa e de repente o clima muda? O café esfria, a risada some, e todo mundo finge que nada aconteceu. As verdades inconvenientes são assim: chegam sem pedir licença e desarrumam tudo. Elas não surgem para confortar, mas para questionar, incomodar e, em alguns casos, até transformar. E o mais curioso é que, mesmo quando tentamos ignorá-las, elas continuam ali, esperando para serem encaradas.

As verdades inconvenientes nos obrigam a lidar com a contradição entre o que gostaríamos que fosse verdade e o que realmente é. Platão já falava disso na Alegoria da Caverna: preferimos as sombras conhecidas à luz que nos cega momentaneamente. Questionar uma verdade estabelecida, ou pior, aceitá-la quando ela nos fere, é um exercício de coragem. Muitas vezes, preferimos continuar na ilusão confortável a encarar a realidade dura e crua. Nietzsche, com sua filosofia do martelo, defendia a destruição dos ídolos – aquelas verdades que aceitamos sem questionar. Para ele, o desconforto era um preço pequeno a pagar pela lucidez.

Na vida cotidiana, as verdades inconvenientes aparecem em diversas formas: quando descobrimos que nosso ídolo tem pés de barro, que o amor romântico não é como nos contaram ou que nem sempre a justiça acontece. A reação natural é negar, resistir ou até atacar quem trouxe a notícia. A história está cheia de mensageiros mortos por trazerem verdades que ninguém queria ouvir. Galileu foi condenado por dizer que a Terra gira em torno do Sol, e quantas outras vezes não vimos sociedades inteiras resistirem a mudanças porque a verdade nova entrava em choque com o mundo confortável que conheciam?

Mas o que fazer diante dessas verdades? Uma possibilidade é aprender a conviver com elas, aceitá-las como parte do crescimento. Isso não significa resignação, mas sim a coragem de encará-las sem máscaras. Como dizia Simone de Beauvoir, a liberdade começa quando assumimos a responsabilidade por nossas escolhas e pela realidade que nos cerca. Talvez seja isso: aceitar verdades inconvenientes não como fardos, mas como convites para ver o mundo de outra forma.

No fim das contas, a grande questão não é se estamos prontos para ouvir essas verdades, mas sim se temos disposição para lidar com as consequências de conhecê-las. E aí? Você prefere a sombra ou a luz?


sábado, 1 de fevereiro de 2025

Roda da Fortuna

Outro dia, conversando com um amigo sobre como a vida parece brincar com a gente, ele disse: "Acho que a minha Roda da Fortuna emperrou." Rimos, mas no fundo, a metáfora era certeira. Tem fases em que tudo conspira a favor e momentos em que o destino parece rir na nossa cara. A Roda da Fortuna, um dos símbolos mais antigos da imprevisibilidade da vida, nos lembra que ninguém está permanentemente no topo — nem sempre no fundo.

A ideia da Roda da Fortuna tem raízes na Antiguidade. Os romanos viam Fortuna, a deusa do destino, como uma força cega que gira a roda ao acaso, elevando e derrubando pessoas sem aviso prévio. Na Idade Média, o conceito se tornou um lembrete moral: reis e mendigos eram igualmente sujeitos à instabilidade da existência. O pensador Boécio, em A Consolação da Filosofia, escreveu sobre como a verdadeira sabedoria está em não se apegar demais à boa sorte nem se desesperar diante da má sorte. Afinal, a roda gira.

No cotidiano, sentimos isso na pele. Um dia, um colega de trabalho recebe uma promoção inesperada, enquanto outro, tão competente quanto, é demitido sem explicação. A bolsa de valores sobe vertiginosamente e, no dia seguinte, despenca. Pessoas entram e saem da nossa vida sem que possamos prever. O que nos resta, então?

A resposta filosófica pode variar. Os estoicos sugeririam a apatheia, um estado de serenidade diante das mudanças. Nietzsche, por outro lado, falaria do amor fati — amar o destino, abraçar os altos e baixos como partes inseparáveis da existência. No Brasil, Clóvis de Barros Filho nos lembra que a felicidade não é um estado permanente, mas momentos fugazes que precisamos aproveitar sem ilusões de eternidade.

Talvez, no fim das contas, o segredo seja aprender a dançar conforme a música. Nem sempre temos controle sobre os giros da roda, mas podemos escolher como reagir a eles. E, quem sabe, entender que a beleza da vida está justamente nessa imprevisibilidade — porque se a roda parasse, perderíamos o encanto de esperar pelo próximo movimento.


terça-feira, 20 de agosto de 2024

Sabedoria do Desvio

Na vida, estamos constantemente tomando decisões, grandes e pequenas. Desde a escolha do que vestir pela manhã até decisões de carreira que moldam nosso futuro, cada escolha tem o potencial de nos levar por um caminho específico. Mas o que acontece quando as escolhas parecem erradas? E se esses desvios, aparentemente equivocados, nos levarem a um lugar certo?

Imagine você saindo de casa com um plano detalhado para o seu dia. Você decidiu pegar um novo caminho para o trabalho, talvez um pouco mais longo, mas que promete uma vista agradável. No entanto, um engarrafamento inesperado o faz repensar essa decisão. Atrasado, você chega ao escritório já frustrado, mas logo descobre que, se tivesse seguido seu caminho habitual, teria ficado preso em uma paralisação ainda maior devido a um acidente. O que parecia um erro, revelou-se uma escolha salvadora.

Ou considere a história de um amigo que, após se formar em direito, decide trabalhar em um renomado escritório de advocacia. Ele dedica anos àquela carreira, mas sente uma inquietação crescente. Eventualmente, ele decide largar tudo e abrir uma pequena cafeteria, algo que sempre sonhou, mas que parecia um desvio absurdo de seu caminho bem planejado. O início é difícil, cheio de desafios que parecem validar seu erro. Porém, com o tempo, ele encontra uma nova satisfação e sucesso que jamais teria experimentado na advocacia. O erro, na verdade, era uma curva necessária no caminho para seu verdadeiro destino.

Essas situações cotidianas refletem uma verdade que o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard uma vez observou: "A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas deve ser vivida olhando-se para frente." Nossas "escolhas erradas" são frequentemente vistas como tais apenas em retrospecto. No calor do momento, uma decisão pode parecer desastrosa, mas com o tempo, percebemos como cada passo, cada desvio, contribuiu para nosso crescimento e eventual sucesso.

Lembro-me de um episódio pessoal em que decidi aceitar um emprego em uma cidade distante. A mudança foi difícil, a adaptação era um desafio e, por muito tempo, me perguntei se havia cometido um grande erro. No entanto, essa experiência me proporcionou habilidades e perspectivas que jamais teria desenvolvido de outra forma. Mais tarde, quando voltei para minha cidade natal, percebi que aquelas habilidades me permitiram conquistar uma posição que eu jamais teria alcançado sem aquela experiência.

As escolhas erradas podem ser vistas como lições disfarçadas. Elas nos empurram para fora de nossa zona de conforto, nos obrigam a encontrar novas soluções e, muitas vezes, revelam paixões e habilidades ocultas. O que parece ser um erro pode ser, na verdade, um caminho tortuoso, mas essencial, para um destino certo.

Em nossas vidas, devemos aprender a abraçar essas aparentes falhas, compreendendo que cada decisão, certa ou errada, contribui para a construção de nossa jornada única. Afinal, como disse Steve Jobs: "Você não pode ligar os pontos olhando para frente; você só pode ligá-los olhando para trás. Então você tem que confiar que os pontos vão se ligar algum dia no futuro." Portanto, ao enfrentarmos nossos desvios diários, devemos lembrar que os caminhos errados podem ser apenas atalhos disfarçados para o lugar certo. Cada erro é uma oportunidade de aprender, crescer e, eventualmente, chegar onde realmente devemos estar.