Quando o corpo aprende a pedir licença
Outro dia percebi que eu
estava sentado exatamente como me ensinaram: costas eretas, pernas paralelas,
mãos quietas. Ninguém me mandou fazer isso naquele momento. Ainda assim, fiz.
Meu corpo sabia. E foi aí que lembrei de Foucault.
Ele chamaria isso de um corpo
dócil: um corpo que não apenas obedece, mas que aprendeu a obedecer
sozinho.
O que Foucault queria
dizer com “corpos dóceis”?
Em Vigiar e Punir,
Foucault mostra como, a partir do século XVIII, o poder deixou de atuar só
punindo e passou a treinar. O corpo virou um projeto. Não bastava mais
que ele fosse forte ou útil — ele precisava ser útil, previsível, produtivo
e controlável.
O corpo dócil é aquele
que:
- se move como deve,
- senta como deve,
- trabalha como deve,
- fala quando deve,
- cala quando deve.
Não por violência
explícita, mas por disciplina: escola, quartel, hospital, fábrica,
escritório, academia, algoritmo.
O genial (e assustador) é
que o poder já não precisa mais gritar. O corpo aprendeu a se corrigir sozinho.
Cena 1: a sala de aula
Crianças enfileiradas,
carteiras alinhadas, silêncio valorizado, ir ao banheiro só com autorização. O
corpo aprende cedo que há um jeito certo de existir no espaço.
Quem se mexe demais é
“hiperativo”.
Quem fala fora de hora é “indisciplinado”.
Quem questiona demais é “difícil”.
Não se ensina apenas
matemática. Ensina-se postura, ritmo, obediência.
Cena 2: o trabalho
No escritório, ninguém
prende você com correntes. Mas:
- O relógio controla seus gestos.
- O crachá controla seu acesso.
- O e-mail controla seu tom.
- O salário controla seu medo.
Você não está preso. Está
formatado.
Seu corpo aprende quando
pode ir ao banheiro, quanto pode comer, como pode vestir, como deve sorrir. E
ainda agradece no final do mês.
Cena 3: a academia
Até o corpo “livre” da
academia é disciplinado: séries, repetições, metas, métricas, espelhos. O corpo
precisa performar. Precisa caber num padrão de eficiência estética.
Até o prazer virou
planilha.
Cena 4: o celular
Aqui Foucault não
chegou a ver, mas certamente sorriria com ironia: o corpo dócil agora segura o
próprio instrumento de vigilância. Ele se oferece ao algoritmo. Mede passos,
sono, humor, produtividade.
Não é mais só o Estado
que vigia.
É o aplicativo.
E, principalmente, eu mesmo.
O ponto mais perturbador
O corpo dócil não é o
corpo que sofre.
É o corpo que acha normal.
Eu não sinto que estou
sendo controlado. Eu sinto que estou sendo “organizado”. E é justamente aí que
o poder vence.
Foucault não
fala de tiranos visíveis. Ele fala de uma engenharia invisível da normalidade.
O corpo dócil não é
quebrado.
Ele é educado.
Mas existe saída?
Foucault não
oferece libertação romântica. Ele oferece consciência.
Talvez a pequena
revolução esteja em:
- sentar diferente,
- andar sem pressa,
- trabalhar sem se reduzir,
- dizer não sem pedir desculpas,
- descansar sem culpa,
- existir fora da performance.
O corpo começa a deixar
de ser dócil quando volta a ser sensível.
Um fechamento pessoal
Hoje, quando percebo meu
corpo se ajustando automaticamente, eu me pergunto:
Isso é conforto… ou
adestramento?
Nem sempre a resposta é
clara. Mas só a pergunta já é um pequeno ato de indisciplina — e, para
Foucault, isso já é política.
Porque, no fundo, o corpo
dócil não é apenas um corpo obediente.
É um corpo que esqueceu que poderia se mover de outro jeito.
E talvez pensar seja
exatamente isso: lembrar ao corpo que ele ainda pode escolher como existir no
espaço.

.jpg)