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sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Conflito e Congruência

Tensões que Afinam ou Rompem

Há uma crença comum de que a congruência é sempre desejável e que o conflito é sempre um problema. Mas, se olharmos mais de perto, veremos que um precisa do outro para ganhar sentido. Sem conflito, a congruência pode virar estagnação; sem congruência, o conflito se torna caos.

O filósofo brasileiro Roberto Mangabeira Unger, ao discutir mudança social, lembra que as estruturas mais férteis são aquelas que conseguem conter e trabalhar as contradições internas, transformando tensões em energia criativa. Isso vale tanto para sociedades quanto para pessoas: congruência não é ausência de diferença, mas capacidade de harmonizar diferenças.

No cotidiano, esse jogo é constante. Um casal pode viver em aparente paz, mas na verdade estar paralisado por medo de discutir — congruência de superfície que esconde conflitos latentes. Por outro lado, um time de trabalho pode discutir ideias acaloradamente e, ao fim, chegar a uma solução mais sólida — conflito produtivo que gera congruência real.

O problema é que tendemos a ver a congruência como um estado fixo e o conflito como um estado temporário a ser eliminado. Unger sugeriria o contrário: devemos tratar o conflito como parte integrante do movimento em direção a um alinhamento mais profundo. Isso implica aceitar que congruência não é linha reta, mas curva cheia de desvios.

Há conflitos que afinam, como as discussões artísticas entre músicos que buscam o mesmo tom; e há conflitos que rompem, como as disputas onde o objetivo deixa de ser a verdade e passa a ser vencer. Há congruências que libertam, quando conseguimos alinhar valores e ações; e há congruências que sufocam, quando nos moldamos demais para caber na forma do outro.

Talvez a sabedoria esteja em perguntar, diante de qualquer situação: este conflito está me aproximando de uma congruência mais viva ou me afastando dela? E esta congruência está me mantendo inteiro ou apenas calando as fraturas para que não apareçam?

No fim, viver é se mover nesse balanço delicado — saber quando afrouxar as cordas para evitar que arrebentem e quando tensioná-las para que a música realmente aconteça.