Tensões que Afinam ou Rompem
Há
uma crença comum de que a congruência é sempre desejável e que o conflito é
sempre um problema. Mas, se olharmos mais de perto, veremos que um precisa do
outro para ganhar sentido. Sem conflito, a congruência pode virar estagnação;
sem congruência, o conflito se torna caos.
O
filósofo brasileiro Roberto Mangabeira Unger, ao discutir mudança
social, lembra que as estruturas mais férteis são aquelas que conseguem conter
e trabalhar as contradições internas, transformando tensões em energia
criativa. Isso vale tanto para sociedades quanto para pessoas: congruência não
é ausência de diferença, mas capacidade de harmonizar diferenças.
No
cotidiano, esse jogo é constante. Um casal pode viver em aparente paz, mas na
verdade estar paralisado por medo de discutir — congruência de superfície que
esconde conflitos latentes. Por outro lado, um time de trabalho pode discutir
ideias acaloradamente e, ao fim, chegar a uma solução mais sólida — conflito
produtivo que gera congruência real.
O
problema é que tendemos a ver a congruência como um estado fixo e o conflito
como um estado temporário a ser eliminado. Unger sugeriria o contrário: devemos
tratar o conflito como parte integrante do movimento em direção a um
alinhamento mais profundo. Isso implica aceitar que congruência não é linha
reta, mas curva cheia de desvios.
Há
conflitos que afinam, como as discussões artísticas entre músicos que buscam o
mesmo tom; e há conflitos que rompem, como as disputas onde o objetivo deixa de
ser a verdade e passa a ser vencer. Há congruências que libertam, quando
conseguimos alinhar valores e ações; e há congruências que sufocam, quando nos
moldamos demais para caber na forma do outro.
Talvez
a sabedoria esteja em perguntar, diante de qualquer situação: este conflito
está me aproximando de uma congruência mais viva ou me afastando dela? E esta
congruência está me mantendo inteiro ou apenas calando as fraturas para que não
apareçam?
No
fim, viver é se mover nesse balanço delicado — saber quando afrouxar as cordas
para evitar que arrebentem e quando tensioná-las para que a música realmente
aconteça.
