Iniciando Março, um mês se foi, outro que entra...
Durante
muito tempo, achei que ir além do tempo fosse uma espécie de transcendência
mística. Hoje, desconfio que seja algo bem mais simples — e bem mais difícil.
Ir
além do tempo é não viver apenas no relógio.
O
relógio mede. O tempo vivido atravessa.
No
cotidiano, quase tudo nos empurra para um tempo funcional: horários, prazos,
idades, etapas, metas. “Já era para ter feito isso.” “Ainda dá tempo.” “Agora é
tarde.” O tempo vira juiz. E nós, réus apressados.
Mas
há instantes em que o tempo se desorganiza. Quando uma conversa se aprofunda
sem aviso. Quando uma lembrança invade o presente com força de agora. Quando
uma música faz vinte anos caberem em três minutos. Quando um olhar suspende a
cronologia.
Nesses
momentos, eu não saio do tempo — eu saio da contagem.
Henri
Bergson chamaria isso de duração: o tempo como experiência
contínua, não como sucessão de números. Um tempo que não anda em fila, mas em
camadas.
Ir
além do tempo não é viver para sempre. É viver inteiro.
É
perceber que o passado não está atrás — está dentro. Que o futuro não está à
frente — está em estado de desejo. Que o presente não é um ponto, mas um campo.
Quando
penso demais no que fui, fico preso. Quando penso demais no que serei, fico
ausente. Ir além do tempo é habitar o instante sem reduzi-lo a instante.
É
aceitar que algumas coisas não envelhecem: uma pergunta verdadeira, uma perda
mal resolvida, um amor que não terminou direito, uma ideia que ainda nos visita
como se fosse nova.
Ir
além do tempo é permitir que a vida não seja apenas uma linha, mas uma espiral.
E
talvez seja por isso que a maturidade não é andar para frente, mas aprender a
carregar sem peso aquilo que ficou.
No
fim, entendo que ir além do tempo não significa escapar dele.
Significa
deixar de ser prisioneiro da sua forma mais pobre: a pressa.
Porque
quando a pressa cai, o tempo não passa.
Ele
acontece.