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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Memória com Significado


Eu já percebi que não guardo o que aconteceu. Guardo o que aquilo fez comigo.

Datas se apagam. Frases se embaralham. Rostos mudam. Mas certas experiências permanecem intactas, não porque foram precisas, e sim porque foram decisivas. A memória, no fundo, não é um arquivo — é uma curadoria.

Outro dia, tentando lembrar um momento específico da infância, percebi que só restava a sensação: um fim de tarde, uma luz amarela, um silêncio confortável. Não sei mais quem estava ali. Mas sei como eu me sentia. E talvez isso seja o que realmente importa.

No cotidiano, é assim:

– A gente esquece a conversa, mas lembra do constrangimento.

– Esquece o conselho, mas lembra da coragem que ele provocou.

– Esquece o nome, mas lembra do acolhimento.

A memória com significado não é fiel aos fatos. Ela é fiel à transformação.

Bergson já dizia que lembrar não é reproduzir o passado, é recriá-lo a partir do presente. Cada lembrança é um diálogo entre quem fomos e quem somos agora. Por isso, toda memória é um pouco invenção — e, ainda assim, profundamente verdadeira.

Eu começo a achar que o valor de uma lembrança não está em sua nitidez, mas em sua utilidade interior. Se ela me ajuda a compreender melhor, ela permanece. Se só me prende, ela vai se dissolvendo com delicadeza.

Memória com significado não pesa. Ela orienta.

É aquela lembrança que não nos puxa para trás, mas nos endireita por dentro. Que não nos paralisa, mas nos oferece uma espécie de chão invisível.

No fim, talvez a alma não seja feita de tudo o que viveu — mas apenas daquilo que soube transformar em sentido.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Incorruptível e Eterno

Há palavras que possuem força ao serem ditas, pronunciadas, carregadas de energia. Há coisas que envelhecem com o tempo. Outras apodrecem. Outras se transformam. Mas existem algumas — raras, silenciosas — que não se deixam corroer. Elas não brilham, não se anunciam, não disputam espaço. Apenas permanecem. Incorruptíveis. Eternas. Não no sentido do que dura para sempre no calendário, mas no sentido do que não perde o sentido.

O incorruptível no cotidiano

Você já percebeu como certos gestos não envelhecem?

Um pedido sincero de perdão.

Uma verdade dita sem cálculo.

Um amor que não exige retorno.

Um olhar que respeita.

Essas coisas atravessam o tempo sem se deformar. Podem ser esquecidas na memória, mas não se corrompem no valor. Elas continuam sendo o que sempre foram.

O incorruptível não é o que resiste à matéria, mas o que resiste à conveniência.

A eternidade que não depende do tempo

A eternidade não é uma linha infinita no futuro. É uma qualidade de presença. Algo é eterno quando não depende do instante para existir. Quando poderia ter acontecido ontem, hoje ou há mil anos — e ainda assim faria sentido.

Platão chamou isso de mundo das ideias. Santo Agostinho chamou de tempo interior. Bergson chamou de duração. Todos tentaram dizer a mesma coisa: há algo em nós que não passa, mesmo quando tudo passa.

O que se corrompe não é o ser, é o uso

Nada se perde por ser verdadeiro. Perde-se quando é usado como instrumento. A fé se corrompe quando vira poder. A justiça, quando vira discurso. O amor, quando vira posse. A verdade, quando vira estratégia.

O incorruptível é aquilo que se recusa a servir à mentira.

A eternidade do que é simples

Curiosamente, o que mais se aproxima do eterno é o simples. A criança que confia. O velho que perdoa. O silêncio que acolhe. O gesto que não pede registro.

Nietzsche dizia que o eterno retorno não é a repetição do mesmo, mas a capacidade de afirmar a vida mesmo quando ela se repete. O eterno, então, não é o que nunca muda — é o que nunca deixa de valer.

Incorruptível e eterno — dentro de nós

Talvez não exista nada absolutamente incorruptível fora do humano. Mas existe algo incorruptível no humano: a capacidade de reconhecer o que não pode ser comprado, manipulado ou destruído sem que algo essencial morra junto.

Quando você escolhe não trair a própria consciência, mesmo perdendo, algo eterno acontece em você.

E isso não precisa durar para sempre.

Basta não se corromper enquanto existe.

Porque, no fundo, o eterno não é aquilo que nunca termina.

É aquilo que, enquanto existe, não se vende.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Amarras Íntimas

 

Entrou dezembro, vem chegando o final do ano e vou ficando mais introspectivo, reflexivo, sinto que preciso me soltar mais, às vezes, sem perceber, acordo já meio amarrado por dentro. Não é corda, não é nó — é uma sensação de que algo me segura, mesmo quando tudo ao redor parece livre. Pode ser uma lembrança que insiste em reaparecer, um medo antigo que se esconde atrás de um sorriso que dou por educação, ou até uma expectativa que alguém plantou em mim e que, por preguiça ou afeto, nunca tive coragem de arrancar. São essas pequenas forças invisíveis que dão forma ao meu, ao nosso jeito de caminhar no mundo. E, num café da manhã qualquer, entre goles de chimarrão ou um pão na chapa apressado, a gente sente o peso dessas amarras íntimas mexendo com o rumo do dia.

Mas o curioso é que, ao contrário das prisões externas — as que podemos apontar e nomear —, as amarras íntimas se camuflam. São feitas de material emocional, simbólico, psicológico. E é exatamente por isso que são tão resistentes.

 

O que são as amarras íntimas?

Do ponto de vista filosófico, podemos entender as amarras íntimas como condicionamentos internos que moldam o comportamento, governam escolhas e delimitam horizontes de ação. Elas são produzidas por:

  • experiências passadas que deixaram marcas duradouras;
  • expectativas coletivas internalizadas;
  • afetos mal resolvidos;
  • idealizações do que “deveríamos ser”;
  • narrativas pessoais que nos contemos tantas vezes que passaram a funcionar como destino.

Sartre diria que essas amarras são formas de má-fé: maneiras de fugir da própria liberdade, adotando identidades prontas e desculpas convenientes. Já Jung chamaria isso de sombras não integradas, aspectos do eu que, rejeitados, passam a atuar involuntariamente. E Foucault lembraria que ninguém se vigia tão bem quanto quem internalizou o olhar do outro; isto é, as amarras íntimas também são dispositivos disciplinares que atravessam o corpo, a fala e até o desejo.

 

O paradoxo das amarras

As amarras íntimas são contraditórias: protegem e aprisionam.

Algumas nos evitam recaídas emocionais, funcionam como aviso de perigo, preservam identidade. Outras nos limitam, impedem movimento, sabotam relações, sufocam a espontaneidade — aquilo que Bergson chamaria de élan vital, a força da vida que quer crescer em direção ao novo.

É como usar uma mochila antiga e pesada porque, de certa forma, ela guarda tudo que somos. Soltar a mochila seria, de algum modo, soltar um pouco de nós mesmos.

 

Cotidiano: onde elas aparecem

  • O colega de trabalho que sempre diz “sim” para tudo, porque teme desapontar e, no fundo, teme ser esquecido.
  • A pessoa que revisa mil vezes a mensagem antes de enviar, presa à expectativa de ser impecável.
  • Quem evita se apaixonar de novo porque carrega a velha cicatriz como se fosse sentença.
  • Aquela escolha profissional que não faz sentido algum, mas que mantém viva a aprovação dos pais — mesmo que os pais já nem se lembrem disso.
  • A mania de não pedir ajuda, como se vulnerabilidade fosse falha e não ponte.

Em todos esses casos, a amarra não é visível, mas opera com eficiência.

 

De onde vem tanta força?

As amarras íntimas têm força porque se apoiam em três pilares:

  1. Afeto – o laço emocional é o que mais fixa, para o bem e para o mal.
  2. Repetição – o hábito cria autoridade, e o familiar se torna confortável.
  3. Narrativa – quando contamos muitas vezes a mesma versão de nós mesmos, ela vira identidade.

Paul Ricoeur descreve a identidade como narrativa, não como essência. Logo, as amarras íntimas são capítulos que repetimos a ponto de virarem enredo principal, mesmo quando já não nos representam.

 

Como soltá-las — ou, ao menos, afrouxá-las

Soltar amarras íntimas não é um ato heróico, mas um processo delicado:

  • Reconhecer: nomear a amarra é permitir sua visibilidade.
  • Interrogar: perguntar se ela ainda serve a algo, ou se virou automatismo.
  • Reescrever: substituir a narrativa que nos prende por uma que nos mova.
  • Praticar: a liberdade exige treino; romper velhos hábitos pede paciência.
  • Aceitar: algumas amarras são parte constitutiva da história — não se cortam, mas se transformam.

Como diz N. Sri Ram em A Natureza do Ser, “o ser humano floresce quando reconhece aquilo que o prende e, com serenidade, transforma a prisão em passagem”. A amarra, vista com consciência, vira portal.

Quando a amarra vira direção

No fim das contas, as amarras íntimas não são apenas obstáculos: são também mapas. Revelam onde fomos feridos, onde fomos moldados, onde fomos amados, onde ainda precisamos aprender. São lembranças de que a alma tem peso, mas também tem movimento.

Quando olhamos para elas com honestidade, descobrimos que algumas podem ser deixadas para trás. Outras pedem diálogo, cuidado, transfiguração.

E então, no meio de um dia comum — na fila do mercado, no intervalo do trabalho, num silêncio inesperado — percebemos que aquela velha amarra já não aperta tanto. É o começo de uma forma nova de caminhar: menos pesada, mais nossa.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Memória Essencial



Às vezes, enquanto tomamos um café ou esperamos o ônibus, uma lembrança vem do nada: uma tarde de infância, uma risada perdida, o cheiro de um bolo que alguém fazia. E, curiosamente, não lembramos de tudo — apenas de fragmentos. A memória, como uma artista seletiva, guarda o que importa e apaga o que apenas passou. Lembro porque a emoção gravou em algum lugar de minha mente o que naquele momento vivido foi marcante e diferente, sempre que sinto sua falta revisito o palácio da memória e encontro a lembrança em alguma sala me aguardando, isto é fantástico.

No fundo, ela é menos um arquivo e mais um filtro. Do que vivemos, ficam as emoções mais intensas, as experiências que nos tocaram de verdade. O resto se dissolve no esquecimento, talvez para abrir espaço para o novo. É como se o tempo só permitisse permanecer o que teve alma.

No cotidiano, isso se mostra de forma simples: esquecemos nomes, mas não esquecemos o tom de voz; deixamos de lembrar rostos, mas recordamos a sensação de estar perto de alguém. A memória essencial é afetiva — o que se grava não é o fato, mas o sentimento.

Há quem veja nisso uma falha da mente. Eu vejo um gesto de sabedoria. A memória seleciona o que nos constrói, como quem organiza uma casa. Deixa ir o que pesa e guarda o que nos mantém de pé. Por isso, lembrar é, de certo modo, também escolher.

Henri Bergson dizia que a lembrança é “a sobrevivência do passado no presente”. E talvez seja isso mesmo: o que realmente vivemos continua vivo, não como repetição, mas como presença sutil. O que o tempo não levou, o coração quis manter.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Sentir e Pensar

… e o que mais?

A gente costuma achar que só aprende pela cabeça ou pelo coração. Ou você sente — e aprende com o calor, o frio, o medo, o gosto das coisas — ou você pensa — calcula, raciocina, organiza as ideias para entender o mundo. Parece não haver saída desse binário. Mas será mesmo?

Veja o exemplo do menino que aprende a andar de bicicleta. No começo ele pensa: “segura firme o guidão, olha pra frente, pedala devagar…”. Também sente: medo de cair, emoção ao deslizar pela rua. Mas chega uma hora em que nem sente nem pensa. O corpo aprende sozinho. Ele vira bicicleta. O saber passou para as pernas, os braços, o equilíbrio. É o conhecimento do corpo — o tal “saber fazer” que nenhum livro ensina.

Ou pense naquelas decisões que você toma sem saber por quê. Um desvio de caminho, um "não vou entrar nessa loja agora", um "vou ligar pra fulano hoje". Não foi pensamento lógico nem sentimento claro. Foi um saber que veio de outro lugar — a tal da intuição. E quantas vezes ela acerta? Muitas.

Tem também o saber da convivência. Você nunca parou para pensar como se espera uma fila no banco. Ninguém te explicou. Você simplesmente aprendeu — porque vive aqui, porque observa sem perceber. Isso é cultura agindo em silêncio. Nem sentir, nem pensar: é absorver pelo convívio.

E ainda há o saber do momento presente. O zen-budista diria: quando você come uma fruta e presta atenção total nela — no sabor, na textura, no cheiro — está conhecendo direto, sem pensar, sem julgar, sem interpretar. Conhecimento puro, sem intermediários.

Talvez o mundo não caiba só no sentir e no pensar. Há corpos que sabem sozinhos. Há intuições que chegam sem convite. Há culturas que moldam você sem pedir permissão. Há presenças que ensinam sem dizer palavra.

Os filósofos antigos sabiam disso. Espinosa, lá no século XVII, já dizia que o corpo tem uma inteligência própria — capaz de fazer coisas das quais a mente nem sonha. E Henri Bergson, no século XX, desconfiava que a intuição nos leva a conhecer verdades que o pensamento não alcança.

Quem sabe conhecer seja como viver: não se faz só com a cabeça e o peito. Também se faz com o corpo, com o instante, com o outro.

Talvez — no fundo — a gente seja uma soma estranha de tudo isso. E por isso aprender nunca se esgota.


quinta-feira, 19 de junho de 2025

Tempo de Despertar

O Despertar que Desnuda o Tempo: Ensaio Filosófico sobre Tempo de Despertar, de Oliver Sacks

Resumo introdutório:

Em Tempo de Despertar (1973), o neurologista britânico Oliver Sacks narra a extraordinária experiência clínica com pacientes vítimas da encefalite letárgica, uma misteriosa epidemia que os mergulhou, durante décadas, num estado catatônico sem saída. O advento do medicamento L-DOPA, no fim dos anos 1960, trouxe um aparente milagre: o retorno súbito desses indivíduos à consciência, à linguagem, ao movimento. Mas o que prometia ser redenção revelou-se, muitas vezes, tragédia: o despertar foi também um encontro cruel com o tempo perdido, com um mundo irreconhecível e com a fragilidade do próprio "eu".

O livro é mais que um relato médico: é uma meditação viva sobre o enigma da existência, do tempo, da identidade — uma obra que ultrapassa a neurologia e toca a metafísica.

Ensaio filosófico:

I. Despertar não é acordar: é nascer de novo num mundo estranho.

Sacks nos convida a uma ideia incômoda: o despertar radical não é retorno, é estranhamento. Quem desperta após quarenta anos de ausência não reencontra seu mundo: encontra outro mundo — outro corpo, outro tempo, outra história. O "milagre" é, em parte, uma violência.

Aqui, o despertar se aproxima do conceito de unheimlich (estranho-familiar) de Freud: algo que deveria ser íntimo — meu corpo, meu tempo — torna-se irreconhecível. Os pacientes de Sacks não voltam à vida que conheciam; despertam num mundo que os traiu com o envelhecimento, com a morte dos entes queridos, com o progresso tecnológico que os excluiu. A continuidade do eu foi quebrada. Quem são eles agora?

II. O tempo não passa — ele devora.

O livro desmascara um dos grandes consensos do senso comum: o de que o tempo "passa" suavemente, de forma linear. Não: o tempo rói, consome, altera os contornos do real e do imaginário. Quando os pacientes voltam à consciência, não o fazem no tempo em que adormeceram: o relógio do mundo não esperou.

Henri Bergson já advertia: o tempo vivido (durée) não se mede em números, mas em fluxo de consciência. Os pacientes de Sacks perderam sua durée pessoal; suas consciências congelaram enquanto o mundo externo seguiu outro ritmo. O abismo entre esses dois tempos produziu monstros existenciais: corpos envelhecidos com almas jovens, espíritos perdidos num presente que não reconhecem.

III. A identidade não é um dado — é uma narrativa que o tempo costura.

O maior escândalo filosófico de Tempo de Despertar é este: não existe "eu" fora da história que tece um sentido para o tempo vivido. Os pacientes acordaram sem narrativa — suas biografias tinham um buraco negro de décadas. Como se reconstruir sem lembrança, sem continuidade? A ruptura é tamanha que a própria noção de "pessoa" se desfaz.

Paul Ricoeur escreveu que "somos o tempo contado, narrado". O sujeito que desperta sem história é um estranho para si mesmo — é um corpo presente sem enredo passado. A L-DOPA reanimou músculos e sinapses, mas não devolveu a ponte do sentido. Por isso muitos adoeceram de angústia e desespero: não sabiam mais quem eram.

IV. O milagre moderno é o fracasso metafísico.

A medicina realizou o milagre técnico: devolveu o movimento e a fala. Mas a metafísica do sentido — esse campo onde a alma encontra seu lugar no tempo e no mundo — falhou. O preço do despertar foi o colapso do sentido.

Este paradoxo é um alerta para toda utopia tecnológica: não basta restaurar a função biológica; é preciso restaurar o enraizamento no mundo, o pertencimento simbólico. Sacks, sábio humanista, percebeu isso: seu livro não celebra uma vitória da ciência — lamenta uma derrota da alma.

V. O verdadeiro despertar é filosófico, não neurológico.

A lição secreta de Tempo de Despertar é que todos nós corremos o risco de viver letargicamente — mesmo saudáveis. Quem segue hábitos mecânicos, quem repete papéis vazios, quem não interroga seu lugar no tempo... está adormecido no existir.

O despertar real, diz Sacks sem dizê-lo, é o despertar filosófico: o instante em que o sujeito vê a estranheza da própria vida, percebe o enigma do tempo e ousa perguntar: "Quem sou eu agora? Para onde fui nos anos que passaram?". Esse despertar pode ser doloroso — mas é o começo de uma vida consciente.

Aí vai uma sugestão de leitura complementar: Um Antropólogo em Marte

Para aprofundar essa jornada entre neurologia e existência, vale a leitura do também brilhante Um Antropólogo em Marte (1995), onde Sacks retrata sete histórias clínicas que desafiam a ideia de normalidade.

Em vez de tragédias, muitos dos relatos de Um Antropólogo em Marte são adaptações criativas à diferença: um pintor que perde a capacidade de ver cores e reinventa seu mundo em tons de cinza; um cirurgião com síndrome de Tourette que encontra na medicina uma forma de domar seus impulsos; um autista que interpreta a vida como se fosse, de fato, um observador de outro planeta.

Se Tempo de Despertar mostra o drama do retorno à vida sem enredo, Um Antropólogo em Marte apresenta a beleza de construir novas narrativas a partir da diferença. Ambos os livros são espelhos distorcidos da condição humana — e, juntos, nos fazem perguntar não "o que é normal?", mas "o que é ser humano diante da falha, da adaptação e da consciência?"

Concluindo: O drama de ser tempo

Tempo de Despertar revela uma verdade incômoda: não somos senhores do tempo — somos feitos de tempo. Ele nos atravessa, nos molda, nos perde e nos reencontra. Não há cura médica para isso. Mas há uma vigilância filosófica possível: aquela que aceita o tempo como abismo e ainda assim inventa sentido.

Como disse o pensador brasileiro Vilém Flusser:

"Viver é buscar sentido no sem-sentido do tempo."

Os pacientes de Sacks pagaram o preço extremo dessa busca. E nós, que lemos sua história, somos também convidados a acordar.


segunda-feira, 9 de junho de 2025

Fala porque pensa

Vamos falar sobre a origem do dizer e o silêncio que pensa

Já reparou que, às vezes, ficamos em silêncio, mas estamos cheios de ideias? Uma conversa pode estar parada por fora, mas por dentro mil pensamentos correm. Não estamos sempre dizendo tudo o que passa. Na verdade, quase nunca dizemos. O que chamamos de fala é só a ponta do iceberg do que se passa na mente.

E se for isso mesmo? Se a fala vier depois do pensamento — como uma tentativa de tradução imperfeita do que já se formou antes? Nesse ensaio, a proposta é considerar o contrário do que se costuma afirmar em certos círculos neurolinguísticos contemporâneos: não pensamos porque falamos, mas falamos porque pensamos.

O pensamento silencioso

Muitas de nossas decisões mais profundas são tomadas sem palavras. Você acorda e sabe que está triste — antes mesmo de conseguir explicar por quê. Há uma camada pré-verbal da consciência, cheia de imagens, sensações, intuições. A linguagem, nesse cenário, não é a origem do pensamento, mas um instrumento para compartilhá-lo com o outro (e, às vezes, consigo mesmo).

Descartes, no famoso penso, logo existo, não disse falo, logo penso. O pensamento é a base da subjetividade. É anterior à fala, mais amplo e mais sutil. O filósofo Henri Bergson defendia que a consciência excede a linguagem — que pensar é como nadar em um mar interno, enquanto falar é escolher uma garrafinha para conter o oceano.

Linguagem como casca do pensamento

Quantas vezes já sentimos algo que não conseguimos dizer? Ou percebemos que, ao tentar explicar uma ideia, ela se esvazia? Isso revela que a linguagem é um instrumento limitado frente à riqueza do pensamento. Falamos, sim, mas porque algo já foi fermentado antes. O pensamento é o forno; a fala, o pão assado.

O psicólogo suíço Jean Piaget argumentava que a linguagem é uma consequência do desenvolvimento cognitivo, e não sua causa. Para ele, a criança pensa antes de falar — e vai aprendendo a colocar em palavras o que já está se formando como raciocínio interno.

Quando a fala atrapalha

Num mundo ruidoso, talvez falar demais atrapalhe o pensamento. Distrações verbais, conversas vazias, impulsos de dizer antes de refletir — tudo isso pode desfigurar a verdadeira linha do pensamento. Um tuíte mal pensado, uma resposta impensada: palavras saem, mas não vieram do pensar, vieram da pressa.

Se fosse verdade que a fala cria o pensamento, todo mundo que fala muito pensaria melhor. Mas não é o que se vê. Pensar exige silêncio. A fala boa vem depois. Como o escritor que reescreve mil vezes antes de publicar. Como o sábio que ouve mais do que fala.

Pensar é mais que dizer

A mente humana é capaz de pensar com imagens, sons, metáforas internas, simulações motoras. Quando antecipamos um futuro possível, quando lembramos de um cheiro da infância, ou quando visualizamos um projeto de vida — nada disso precisa, necessariamente, da linguagem articulada.

A neurociência apoia essa pluralidade de formas de pensar. Antes da ativação das áreas verbais, há estímulos em regiões ligadas à emoção (amígdala), ao planejamento (córtex pré-frontal), à imaginação (hipocampo). Ou seja, o pensamento vem primeiro. A linguagem é um filtro — útil, poderoso, mas um filtro.

Fala é ponte, não semente

No fim das contas, falar porque se pensa é reconhecer que a fala não é a fonte da consciência, mas seu veículo. Pensar é existir num espaço íntimo, onde a palavra é convidada, não dona da casa. Só falamos porque temos algo a dizer. E esse algo nasce antes da fala.

Filosoficamente, talvez a fala seja apenas o momento em que o pensamento se arrisca no mundo. Nem todo pensamento vira palavra — e talvez ainda bem. Porque o silêncio também pensa. E, às vezes, é nele que se encontram as ideias mais verdadeiras.

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Portais Sutis

 


Lugares onde o tempo dobra devagar

Neste feriado de primeiro de maio passeamos no Vale dos Vinhedos em Bento Gonçalves e experenciamos uma viagem a portais sutis presentes em cada visada naquelas belíssimas paisagens. Tem lugares que não se explicam, só se sentem. Pode ser a sala da avó com cheiro de bolo e móveis antigos, um corredor mal iluminado onde o silêncio parece suspenso, ou aquele trecho de estrada cercado por árvores que sempre faz a gente respirar mais fundo. A gente passa, e algo muda — como se o tempo ficasse líquido e a alma mais leve. Não há placa, não há senha, mas quem já passou por um desses sabe: são portais sutis.

Não falo aqui de buracos de minhoca nem de ficção científica (apesar de adorar). Falo de momentos e lugares em que o cotidiano escorrega, e a realidade parece... porosa. Como se uma fresta abrisse na parede da rotina, deixando escapar outro tipo de percepção — um convite ao invisível.

O tempo se dobra no ordinário

Você já teve a sensação de estar fora do tempo? Em geral, isso acontece quando estamos profundamente presentes — algo raro. Pode ser olhando o mar, escutando alguém que fala com a alma ou até lavando a louça com uma música boa no fundo. De repente, o relógio perde a importância, e entra-se num outro tipo de tempo, mais interno, quase sagrado.

O filósofo francês Henri Bergson dizia que existe um tempo mensurável (cronológico), mas também existe um tempo vivido — a duração, onde o passado e o presente se misturam e criam qualidade, não quantidade. Os portais sutis seriam então pequenas brechas onde a duração se impõe: momentos em que o tempo não é medido, mas sentido.

O lugar como espelho de dentro

Alguns lugares têm uma energia estranha. Não necessariamente boa ou ruim — densa, diferente, cheia de memória. Pode ser um templo, um jardim abandonado, uma sala de aula vazia. A psicologia junguiana diria que esses lugares são ativadores de arquétipos, símbolos que dormem na nossa psique e despertam ao menor toque. A mística antiga chamaria de lugares de poder. Mas mesmo quem nunca ouviu falar em Jung ou xamanismo percebe: há lugares onde o invisível encosta.

A arquitetura, o cheiro, a luz filtrada por uma janela em ângulo esquisito — tudo colabora para criar uma espécie de dobra entre o mundo interno e o externo. Nesses lugares, ficamos mais sensíveis, mais conectados, às vezes até mais vulneráveis. São portais que não se atravessam com os pés, mas com a alma.

O invisível na rotina: é preciso perceber

Portais sutis não precisam ser místicos nem distantes. Eles podem estar no banco do ônibus onde você se emociona com uma música, no banheiro do escritório onde você respira fundo e se reencontra por um segundo, ou naquele instante em que uma criança te olha e você sente que ela te viu de verdade. São como notas dissonantes no acorde da realidade: pequenas pausas que despertam algo que estava adormecido.

O problema é que vivemos correndo. E portais sutis são delicados. Eles não se abrem com força — eles se revelam no silêncio, na pausa, no vazio. É preciso cultivar uma escuta fina, quase meditativa, para notar quando o mundo te chama para dentro dele com mais gentileza do que barulho.

Como reconhecer um portal?

Talvez não seja algo que se possa buscar. Mas pode-se estar disponível. A sensibilidade é o que detecta o que a lógica ignora. O filósofo Gaston Bachelard falava da "poética do espaço": como a casa, o canto, o armário ou a escada podem carregar uma dimensão existencial e simbólica que nos transforma. Talvez, cada pessoa tenha seus próprios portais favoritos — lugares onde se reencontra com o que é essencial, sem esforço, sem teoria, só estando.

Atravessar ou ficar?

Às vezes, passar por um desses portais muda o dia. Às vezes, muda a vida. Um encontro que parecia pequeno. Uma frase ouvida ao acaso. Um café tomado devagar num lugar qualquer. O mundo parece igual depois, mas algo dentro mudou de lugar. É como se o mundo tivesse te sussurrado algo — e você tivesse ouvido.

Epílogo com um sussurro filosófico

“O essencial é invisível aos olhos.”

Antoine de Saint-Exupéry

Talvez os portais sutis estejam por toda parte. Não para nos levar a outro mundo, mas para nos lembrar que este mundo tem muitas camadas. E que às vezes, sem aviso, uma delas se abre — só para dizer: "Ei, você ainda está vivo. Sinta."

terça-feira, 15 de abril de 2025

Momento a Momento

“Meu ensaio de hoje é sobre o tempo que não se acumula, mas quando olho para ampulheta, penso que aquele montinho de areia em cima é o tempo acumulado que ainda tenho para viver e na parte de baixo é o meu tempo que já passou"

Outro dia, parado num ponto de ônibus com o celular sem bateria e nenhuma alma por perto, percebi algo curioso: o tempo não faz barulho. Ele passa, silencioso, como um gato preguiçoso atravessando a sala. E nesse silêncio, comecei a pensar sobre esse tal de “momento a momento” — uma expressão que parece óbvia, mas talvez esconda um universo inteiro atrás de sua simplicidade.

A gente vive como se a vida fosse uma escada rolante, e cada degrau fosse um momento nos levando a algum lugar importante. Mas será que é assim mesmo? E se, na verdade, não houvesse escada, nem direção, nem meta? Só o passo de agora, seguido por outro passo de agora, e outro. Sem acúmulo. Sem saldo no banco do tempo.

A ilusão da continuidade

Desde pequenos, nos ensinam a pensar no tempo como uma linha: começo, meio e fim. Aniversário de um ano, formatura, casamento, aposentadoria. Tudo tão organizadinho como capítulos de uma série. Mas viver momento a momento é reconhecer que essa linearidade é mais uma invenção nossa do que uma estrutura real.

O filósofo francês Henri Bergson já dizia que o tempo vivido, o durée, não é o mesmo tempo dos relógios. O tempo da experiência é feito de fluxo, de intensidade, não de minutos. Quando estamos apaixonados, uma hora passa voando. Na fila do banco, dez minutos parecem uma eternidade. Viver momento a momento é estar nesse tempo interior, não no tempo do calendário.

O peso que não precisa ser carregado

Quando vivemos pensando no passado ou no que pode acontecer daqui a cinco anos, acumulamos peso. Cada escolha vira um fantasma ou uma dívida. Mas o instante presente não exige justificativa. Ele simplesmente é.

É como o voo de um pássaro: ele não pensa no próximo galho, ele voa. Pensar demais em para onde estamos indo faz com que a gente esqueça que já estamos indo, já estamos no meio do caminho, e o agora — esse agora em que você está lendo essa linha — já está acontecendo. E já passou. E já virou outro.

A prática do instante

Na vida real, isso aparece nas pequenas coisas. Quando alguém te pergunta "tá tudo bem?" e você, por um segundo, realmente para para pensar se está. Ou quando você olha para um cachorro atravessando a rua e percebe que ele está ali, sem passado nem futuro, só farejando o momento.

A filosofia oriental, especialmente nas tradições zen, insiste muito nisso: o agora é tudo o que existe. O monge Thich Nhat Hanh dizia que “o milagre não é caminhar sobre as águas, mas caminhar sobre a Terra no momento presente”. A maioria de nós está sempre meio fora de si, pensando no que ainda não chegou ou no que já foi. O desafio é ancorar-se no instante.

O momento como território

Se o momento é tudo o que há, então ele é também um lugar. Um território que precisa ser explorado com olhos novos. Há paisagens inteiras no silêncio de um café, na respiração de alguém adormecido ao nosso lado, no cheiro da chuva quando ela começa a cair.

Viver momento a momento não é esquecer o passado nem ignorar o futuro. É dar ao agora a dignidade que ele merece. É permitir-se não saber para onde vai, mas seguir com atenção, com presença, com espanto.

Talvez o segredo da vida não esteja em grandes planos nem em marcos épicos, mas na coragem de estar inteiro no agora. O agora que não volta, que não se repete, que nem sempre brilha — mas que é real. Momento a momento, vamos esculpindo a única coisa que realmente temos: a nossa presença no tempo que não se acumula.

E se o ônibus não vier, tudo bem. Enquanto isso, o tempo segue passando, silencioso, e talvez seja esse o som mais profundo que existe.


domingo, 30 de março de 2025

Teoria da Incongruência


A incongruência está por toda parte. Sentimos isso quando rimos de uma piada sem saber exatamente o porquê, quando encontramos um amigo de infância e percebemos que ele mudou sem mudar, ou quando nos olhamos no espelho e notamos que algo em nós não se encaixa mais com quem fomos ontem. A vida, em sua essência, é um jogo de desencontros entre expectativa e realidade. Daí surge a Teoria da Incongruência.

A Incongruência como Fundamento da Experiência

A experiência humana se constrói na tensão entre o previsível e o inesperado. Quando tudo ocorre exatamente como esperamos, o mundo se torna monótono. Mas quando uma diferença sutil emerge entre o que imaginamos e o que acontece, nasce o sentido, a reflexão e até mesmo o humor. Kant, em sua Crítica da Faculdade do Juízo, já apontava que o riso decorre do contraste inesperado entre o que prevemos e o que ocorre.

A incongruência, então, não é um erro do sistema. Ela é o próprio sistema. O que chamamos de identidade pessoal, por exemplo, é um mosaico de incongruências costuradas pelo tempo. Somos, ao mesmo tempo, as memórias do passado e a promessa do futuro, e entre esses dois pontos, uma infinidade de pequenas incoerências que dão sabor à existência.

O Riso, o Estranhamento e o Sentido da Vida

A filosofia e a comédia sempre andaram lado a lado, e não por acaso. O humor, como explica Henri Bergson, surge justamente da incongruência: um padre que escorrega na rua, um aristocrata que fala como um proletário, uma palavra usada fora de seu contexto habitual. A piada funciona porque desafia nossas expectativas e nos força a reconhecer a fragilidade da lógica cotidiana.

Da mesma forma, a existência se revela paradoxal. Quanto mais tentamos nos definir, mais percebemos que somos um fluxo inconstante. O que acreditamos hoje pode se tornar ridículo amanhã, e o que rejeitamos pode se transformar em verdade. A incoerência não é um defeito da vida, mas seu motor.

Incongruência e Liberdade

Se tudo fosse previsível, seríamos robôs seguindo um script. A incongruência nos liberta dessa ditadura da coerência absoluta. Ela nos dá a possibilidade de mudar de opinião, de nos reinventarmos, de explorarmos caminhos que antes pareciam absurdos. Sartre diria que somos condenados à liberdade, mas talvez fosse mais apropriado dizer que somos condenados à incongruência. E é exatamente aí que mora a beleza da vida.

Em resumo, a Teoria da Incongruência não propõe que abracemos o caos sem critério, mas que reconheçamos a incongruência como parte essencial da existência. Às vezes, o que parece erro é apenas um desvio que nos leva a um lugar inesperado e melhor. Assim, se algo em sua vida parecer incongruente, talvez seja um sinal de que você está, de fato, vivendo.

sábado, 7 de dezembro de 2024

Apagado da Memória

No nosso dia a dia, somos constantemente bombardeados com informações, eventos e experiências. No entanto, a maioria dessas coisas é rapidamente esquecida. Considere, por exemplo, quantos detalhes você consegue se lembrar do seu trajeto para o trabalho na semana passada. Provavelmente, muito pouco. E aqueles sonhos vívidos que parecem tão reais no momento, mas desaparecem assim que acordamos? A memória, parece, é seletiva e caprichosa.

A Rotina Esquecida

Tomemos como exemplo a rotina matinal. Você acorda, escova os dentes, toma café e sai de casa. Quantas dessas ações você realmente lembra no fim do dia? A repetição diária torna esses momentos quase invisíveis para nossa consciência. Eles são apagados da memória, não por falta de importância, mas talvez por excesso de familiaridade.

Ou pense em uma conversa com um colega de trabalho sobre um projeto. Vocês discutem detalhes, fazem planos, mas uma semana depois, muitos desses detalhes foram esquecidos, substituídos por novas informações e novas conversas.

A Natureza do Esquecimento

Para entender melhor essa dinâmica do esquecimento, podemos recorrer ao filósofo francês Henri Bergson. Em sua obra, Bergson argumenta que a memória e o esquecimento estão intimamente ligados ao fluxo do tempo. A memória, segundo ele, não é apenas uma gravação passiva de eventos, mas uma reconstrução ativa do passado.

O esquecimento, então, não é apenas uma falha, mas uma necessidade. Sem esquecer, seríamos sobrecarregados com uma quantidade esmagadora de detalhes irrelevantes. O esquecimento nos permite focar no que é importante no momento presente e seguir em frente.

O Valor do Esquecimento

Embora o esquecimento possa parecer negativo, ele também tem seu valor. Pense naquelas situações embaraçosas que você preferiria esquecer. Felizmente, a memória tende a suavizar esses momentos com o tempo, permitindo que você siga em frente sem o peso constante do constrangimento.

Outro exemplo são as memórias dolorosas. Embora nunca desapareçam completamente, o tempo e o esquecimento gradual podem atenuar a dor, permitindo que a vida continue.

O esquecimento também pode ser um poderoso aliado na cura de mágoas e conflitos. Quando deixamos para trás ressentimentos e desentendimentos passados, abrimos espaço para novas oportunidades de aproximação e compreensão. Esquecer as pequenas desavenças permite que vejamos o outro com novos olhos, sem o peso do passado obscurecendo nossa visão. Esse processo de "limpeza mental" nos dá a chance de reescrever nossas relações, fortalecendo laços e promovendo um ambiente de perdão e renovação. Afinal, todo mundo merece uma segunda chance, e o esquecimento pode ser a chave para isso.

A Memória e a Identidade

O que escolhemos lembrar e o que esquecemos também desempenha um papel crucial na formação de nossa identidade. Nossas memórias, sejam elas claras ou vagas, felizes ou dolorosas, ajudam a moldar quem somos. No entanto, como observa o filósofo John Locke, a identidade pessoal é uma continuidade de consciência. É a nossa capacidade de lembrar, esquecer e reinterpretar nossas experiências que constrói a narrativa de quem somos.

O ato de esquecer é tão importante quanto o ato de lembrar. No cotidiano, o esquecimento nos ajuda a gerenciar o fluxo constante de informações e experiências, permitindo-nos focar no presente. Filósofos como Bergson e Locke nos mostram que o esquecimento não é uma falha da memória, mas uma parte essencial do processo de construção da identidade e da compreensão do tempo. Então, da próxima vez que algo for apagado da sua memória, veja isso como uma oportunidade de focar no que realmente importa e de permitir que sua identidade continue a se desenvolver e a evoluir.


terça-feira, 26 de novembro de 2024

Anjo e Demônio

O tempo, esse anjo invisível que nos acompanha constantemente, é uma força poderosa que molda nossas vidas de maneiras sutis e profundas. Embora não possamos vê-lo ou tocá-lo, suas marcas são inegáveis em cada aspecto do nosso cotidiano. Vamos pensar sobre como o tempo atua em nossas vidas diárias e refletir sobre a sabedoria que ele nos oferece.

O Tempo e a Rotina Matinal

Cada manhã, ao despertar, somos lembrados da passagem do tempo. O sol nasce, iluminando o início de um novo dia, e com ele vem a nossa rotina matinal. Levantar da cama, tomar um café e se preparar para as atividades do dia são pequenos rituais que nos conectam ao fluxo contínuo do tempo.

Esses momentos matinais, por mais simples que pareçam, são oportunidades para refletir sobre como escolhemos gastar nosso tempo. Será que estamos dedicando tempo suficiente para cuidar de nós mesmos e de nossos entes queridos?

O Tempo e as Relações

Nossas relações pessoais também são moldadas pelo tempo. Pense nas amizades que resistiram ao teste do tempo, enriquecendo-se com cada ano que passa. Esses relacionamentos se aprofundam e se fortalecem à medida que compartilhamos experiências, superamos desafios e criamos memórias juntos.

Por outro lado, o tempo também pode revelar a fragilidade de certas conexões. Amizades que se enfraquecem ou amores que se desvanecem mostram como o tempo pode ser tanto um construtor quanto um destruidor. Ao valorizar o tempo que passamos com aqueles que amamos, estamos reconhecendo sua importância em nossa jornada emocional.

O Tempo e o Trabalho

No ambiente de trabalho, o tempo é um recurso precioso. Prazos, reuniões e metas estabelecem um ritmo que devemos seguir. A gestão do tempo se torna essencial para equilibrar produtividade e bem-estar.

Mas além das tarefas e compromissos, o tempo no trabalho também nos ensina paciência e perseverança. Projetos longos e complexos exigem dedicação contínua e uma visão a longo prazo. O tempo nos ajuda a entender que grandes realizações raramente acontecem da noite para o dia.

O Tempo e o Crescimento Pessoal

Nosso crescimento pessoal é talvez onde o impacto do tempo é mais evidente. Desde a infância até a idade adulta, o tempo nos transforma, trazendo aprendizado, experiência e sabedoria. A cada ano, nos tornamos versões mais complexas e enriquecidas de nós mesmos.

Essa evolução contínua é um lembrete de que o tempo, embora invisível, está sempre presente, guiando nosso desenvolvimento e nos incentivando a aproveitar cada momento para crescer e aprender.

O Tempo: Anjo e Demônio

No entanto, o tempo também pode ser visto como um demônio, especialmente quando se trata da nossa identidade. À medida que envelhecemos, o tempo tende a subverter quem pensamos ser. Nossas crenças, valores e até a nossa aparência podem mudar, muitas vezes de maneiras que não esperamos ou desejamos.

Essa subversão da identidade pode ser desafiadora. Imagine alguém que, ao longo dos anos, se vê afastado dos seus sonhos de juventude, assumindo papéis e responsabilidades que nunca imaginou. Ou alguém que, ao envelhecer, se sente desconectado de sua aparência jovem e vital. Essas mudanças forçadas pelo tempo podem causar um sentimento de perda e alienação.

O Filósofo Fala: Henri Bergson e a Duração

Henri Bergson, um filósofo francês, explorou profundamente a natureza do tempo. Ele introduziu o conceito de "duração" (durée), que se refere à experiência subjetiva do tempo, diferente do tempo cronológico medido pelos relógios. Para Bergson, a duração é o tempo vivido, o fluxo contínuo e indivisível de nossas experiências internas.

O anjo invisível chamado tempo é um companheiro constante e silencioso que nos guia através das muitas fases da vida. Seja na rotina matinal, nas relações, no trabalho ou no crescimento pessoal, o tempo está sempre presente, moldando nossas experiências e ensinando-nos valiosas lições.

Mas é crucial reconhecer que o tempo também tem um lado sombrio. Ele pode subverter nossa identidade e forçar mudanças que não esperávamos.

Ao reconhecer e valorizar o papel multifacetado do tempo em nossas vidas, podemos viver de maneira mais consciente e plena, apreciando cada momento e enfrentando as mudanças com resiliência. Afinal, é através desse anjo invisível que encontramos o ritmo e o significado de nossa existência, aceitando tanto suas bênçãos quanto seus desafios.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Impulso de Vida

O impulso de vida é uma força invisível e poderosa, uma espécie de motor interno que nos impele a continuar, mesmo quando tudo parece nos puxar para trás. Esse impulso pode ser observado nas pequenas decisões cotidianas, como levantar da cama em uma manhã difícil, ou nas grandes escolhas de vida, como decidir seguir uma carreira ou formar uma família. A vitalidade que nos mantém em movimento, muitas vezes contra as adversidades, está intimamente ligada à nossa necessidade de crescimento e evolução.

Link de música para reflexão:

https://www.youtube.com/watch?v=1rmA3MGbZZc&list=RDZ3AJFx6-vUA&index=4

Em termos biológicos, o impulso de vida se manifesta no instinto de sobrevivência. Em situações extremas, somos capazes de mobilizar forças que desconhecíamos, seja para fugir de um perigo ou para lutar por algo que acreditamos ser essencial para nossa existência. Mas esse impulso não é apenas uma resposta física; ele também abrange o aspecto psicológico e emocional. As pessoas não se movem apenas para sobreviver, mas para dar sentido às suas vidas, para amar, criar, aprender e explorar novos horizontes.

No cotidiano, esse impulso de vida se revela nas pequenas lutas diárias: resistir à inércia, ao cansaço, às frustrações e até mesmo ao tédio. Por exemplo, uma mãe que cuida de seus filhos em meio a dificuldades financeiras ainda encontra energia para oferecer carinho e presença. Ou o estudante que, mesmo diante de dúvidas sobre seu futuro, continua estudando, acreditando que o conhecimento o levará a algo maior. Essas atitudes mostram como o impulso de vida é uma força que nos mantém conectados à ideia de futuro, de um amanhã em que possamos ser ou ter algo mais.

Comentário de Henri Bergson

Henri Bergson, filósofo francês, trouxe uma importante reflexão sobre o élan vital (impulso vital), que ele descreve como a força criativa que atravessa toda a vida, algo que nos move não apenas no sentido de preservação, mas de constante renovação e criação. Para Bergson, o impulso de vida é o que nos diferencia das máquinas; ele é imprevisível, criativo, e, em certo sentido, transcende a pura lógica.

Segundo Bergson, a vida não segue um caminho linear ou pré-determinado, mas é marcada por um fluxo de mudanças contínuas. Assim como a natureza se reinventa a cada ciclo, os seres humanos são movidos por um desejo de superação e evolução que não se limita a um instinto mecânico de sobrevivência. Para ele, o impulso de vida é uma força dinâmica, que se expressa não apenas na manutenção da existência, mas no ato de se reinventar, seja em um nível pessoal ou coletivo.

Aplicando essa visão ao cotidiano, podemos entender que o impulso de vida nos empurra para além da simples repetição de rotinas. Ele nos impele a buscar novos significados, mesmo em meio a atividades aparentemente banais. A criatividade que Bergson vê como parte essencial do élan vital está presente quando, diante de um problema, encontramos uma solução inesperada, ou quando, em momentos de estagnação, sentimos um desejo repentino de mudança. Assim, o impulso de vida é mais do que sobrevivência; é transformação. Ele é a força que nos faz, não apenas continuar, mas avançar para algo novo, algo mais.

Para trazer uma nova perspectiva ao impulso de vida, podemos recorrer ao pensamento budista, que oferece uma visão mais espiritual e equilibrada dessa força. Thich Nhat Hanh, monge zen-budista vietnamita, é uma figura chave nesse contexto. Sua visão sobre a vida e o impulso vital se baseia no conceito de interser—a ideia de que todos os seres estão interconectados. Para ele, o impulso de vida não é uma força isolada ou individual, mas algo que se enraíza em nossa interdependência com o mundo ao nosso redor.

Comentário de Thich Nhat Hanh

De acordo com Thich Nhat Hanh, o impulso de vida está intimamente ligado à nossa capacidade de viver no momento presente e de nutrir a consciência plena (mindfulness). Ao contrário da visão ocidental de que o impulso de vida é algo que nos empurra para o futuro, o budismo ensina que viver plenamente o presente é o que verdadeiramente alimenta nossa vitalidade.

Ele frequentemente ensina que, ao focarmos no momento presente, estamos em sintonia com a verdadeira natureza da vida, e isso nos permite perceber as forças sutis que nos impulsionam a viver. O simples ato de respirar com atenção plena, de observar uma flor desabrochando ou de prestar atenção ao sabor de uma refeição pode reavivar nosso senso de conexão com a vida. Esse é o impulso de vida na sua forma mais pura: o reconhecimento de que a vida está se manifestando em cada instante, em cada respiração, e que nosso papel é honrá-la com presença.

No cotidiano, isso significa que o impulso de vida não é apenas uma luta para avançar em meio aos desafios, mas também a capacidade de parar, respirar e estar consciente do que é realmente importante. Por exemplo, quando estamos apressados e distraídos com as responsabilidades do dia a dia, o impulso vital pode nos parecer uma pressão constante, uma urgência de fazer e produzir. No entanto, ao aplicar o ensinamento de Thich Nhat Hanh, percebemos que o verdadeiro impulso de vida pode ser nutrido na calma e na presença. Estar totalmente presente em uma tarefa simples, como lavar a louça ou caminhar, pode ser uma forma de revigorar a energia vital, em vez de simplesmente gastar essa energia em correria e ansiedade.

Ao harmonizar a visão de Bergson e Thich Nhat Hanh, entendo que o impulso de vida é tanto uma força criativa e dinâmica quanto uma fonte de profunda tranquilidade. Ele nos impulsiona a criar e crescer, mas também a perceber o valor da quietude e da contemplação.