...e a Realidade Não Escolhida
Acordar
pela manhã, escovar os dentes, tomar café, sair para o trabalho. Esses gestos
cotidianos — rotineiros, automáticos, sem reflexão — são pequenas amostras do
que se pode chamar de condicionamento existencial. Mais do que hábitos,
são engrenagens de um modo de ser que se impõe com tal força que nos faz
perguntar: essa vida que vivo, fui eu quem escolhi?
A
questão não é nova. Mas permanece urgente. Porque por trás do automatismo da
vida, há o fantasma do falso eu, termo que D. W. Winnicott,
psicanalista britânico, usou para descrever uma espécie de máscara que
desenvolvemos para sobreviver à expectativa dos outros. Um eu adaptado,
funcional, mas não autêntico. Através dele, tomamos decisões, formamos
vínculos, escolhemos caminhos. E, no entanto, somos nós?
O
falso eu que decide
Segundo
Winnicott, o falso self surge quando a espontaneidade da criança
é abafada por exigências externas — pais, escola, sociedade. Ele não é
inteiramente negativo: protege, organiza, torna possível a convivência. Mas,
quando predomina, suprime o verdadeiro self, aquele que seria a fonte de
experiências autênticas. Vivemos, assim, sob um regime de escolhas que não são
verdadeiras escolhas, mas repetições.
Pierre
Bourdieu, sociólogo francês, aprofunda esse raciocínio ao
falar do habitus: um conjunto de disposições incorporadas socialmente
que orienta nossas práticas. Ele argumenta que muito do que fazemos não é
resultado de deliberação consciente, mas de esquemas internalizados ao longo da
vida. O corpo já sabe como se portar num jantar de negócios ou como se vestir
para um funeral, mesmo que nunca nos perguntemos por quê.
Entre
o automático e o despertar
A
pergunta que se impõe é: como despertar? Como furar o véu do condicionamento?
O
filósofo brasileiro N. Sri Ram, em A Sabedoria da Vida, afirma
que a liberdade não é fazer o que se quer, mas tornar-se consciente das forças
que nos movem. Para ele, o primeiro passo é observar-se no ato, assistir
à própria mente. Quando tomamos consciência de um impulso antes de ceder a ele,
abrimos um espaço de escolha verdadeira. Esse espaço é onde o verdadeiro eu
começa a respirar.
Essa
ideia encontra eco em Viktor Frankl, psiquiatra austríaco sobrevivente
de Auschwitz, que afirmou: “Entre o estímulo e a resposta há um espaço. Nesse
espaço está o nosso poder de escolher nossa resposta. E, na nossa resposta,
reside o nosso crescimento e liberdade.”
Mas
como acessar esse espaço se tudo em nós foi treinado para responder sem pensar?
A
sociedade como máquina de condicionamento
A
resposta passa pela crítica da sociedade contemporânea. O filósofo coreano Byung-Chul
Han, em Sociedade do Cansaço, argumenta que vivemos sob uma forma
sutil de opressão: não mais a repressão externa, mas o excesso de positividade,
desempenho e escolha. Somos livres para escolher, mas a estrutura nos leva a
escolher sempre dentro de um repertório estreito, que nos esgota.
As
redes sociais, o consumo, o culto à produtividade — tudo isso contribui para
manter-nos ocupados demais para despertar. A ilusão da escolha constante é um
modo eficaz de evitar a verdadeira liberdade: aquela que exige silêncio, vazio,
pausa e autoconfronto.
A
realidade não escolhida e a escolha por vir
Você
diz que talvez não tenha escolhido conscientemente essa realidade. E talvez
tenha razão. A maioria de nós chega à vida adulta com uma bagagem de decisões
tomadas no escuro: profissão, relacionamentos, ideologias, valores herdados.
Somos produto de histórias não contadas e escolhas herdadas. Mas isso não nos
condena à repetição.
Como
escreveu Søren Kierkegaard, “a angústia é a vertigem da liberdade”.
Quando percebemos que poderíamos ter escolhido diferente — e que ainda podemos
— algo se move. Angustiante, sim. Mas também libertador. Porque não importa
onde estamos, há sempre um pequeno espaço de decisão. Um gesto novo. Um olhar
mais lúcido. Um ato contra a corrente.
O
começo do gesto
Não
somos inteiramente livres, mas também não somos inteiramente prisioneiros. A
ideia de que estamos condicionados por um falso eu, por estruturas sociais
invisíveis e por automatismos psíquicos é, em parte, verdadeira. Mas a
consciência dessa prisão é o começo da fuga.
Talvez
a realidade que vivemos não tenha sido escolhida. Mas a realidade que virá —
essa pode ser. Desde que não busquemos escolhas grandiosas de uma vez só, mas
pequenos desvios. Um pensamento não repetido. Um hábito desfeito. Um
"não" dito com coragem. A cada gesto assim, a realidade muda. E o eu
desperta.
