Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Prisioneiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Prisioneiro. Mostrar todas as postagens

domingo, 17 de agosto de 2025

O Condicionamento

...e a Realidade Não Escolhida

Acordar pela manhã, escovar os dentes, tomar café, sair para o trabalho. Esses gestos cotidianos — rotineiros, automáticos, sem reflexão — são pequenas amostras do que se pode chamar de condicionamento existencial. Mais do que hábitos, são engrenagens de um modo de ser que se impõe com tal força que nos faz perguntar: essa vida que vivo, fui eu quem escolhi?

A questão não é nova. Mas permanece urgente. Porque por trás do automatismo da vida, há o fantasma do falso eu, termo que D. W. Winnicott, psicanalista britânico, usou para descrever uma espécie de máscara que desenvolvemos para sobreviver à expectativa dos outros. Um eu adaptado, funcional, mas não autêntico. Através dele, tomamos decisões, formamos vínculos, escolhemos caminhos. E, no entanto, somos nós?

O falso eu que decide

Segundo Winnicott, o falso self surge quando a espontaneidade da criança é abafada por exigências externas — pais, escola, sociedade. Ele não é inteiramente negativo: protege, organiza, torna possível a convivência. Mas, quando predomina, suprime o verdadeiro self, aquele que seria a fonte de experiências autênticas. Vivemos, assim, sob um regime de escolhas que não são verdadeiras escolhas, mas repetições.

Pierre Bourdieu, sociólogo francês, aprofunda esse raciocínio ao falar do habitus: um conjunto de disposições incorporadas socialmente que orienta nossas práticas. Ele argumenta que muito do que fazemos não é resultado de deliberação consciente, mas de esquemas internalizados ao longo da vida. O corpo já sabe como se portar num jantar de negócios ou como se vestir para um funeral, mesmo que nunca nos perguntemos por quê.

Entre o automático e o despertar

A pergunta que se impõe é: como despertar? Como furar o véu do condicionamento?

O filósofo brasileiro N. Sri Ram, em A Sabedoria da Vida, afirma que a liberdade não é fazer o que se quer, mas tornar-se consciente das forças que nos movem. Para ele, o primeiro passo é observar-se no ato, assistir à própria mente. Quando tomamos consciência de um impulso antes de ceder a ele, abrimos um espaço de escolha verdadeira. Esse espaço é onde o verdadeiro eu começa a respirar.

Essa ideia encontra eco em Viktor Frankl, psiquiatra austríaco sobrevivente de Auschwitz, que afirmou: “Entre o estímulo e a resposta há um espaço. Nesse espaço está o nosso poder de escolher nossa resposta. E, na nossa resposta, reside o nosso crescimento e liberdade.”

Mas como acessar esse espaço se tudo em nós foi treinado para responder sem pensar?

A sociedade como máquina de condicionamento

A resposta passa pela crítica da sociedade contemporânea. O filósofo coreano Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, argumenta que vivemos sob uma forma sutil de opressão: não mais a repressão externa, mas o excesso de positividade, desempenho e escolha. Somos livres para escolher, mas a estrutura nos leva a escolher sempre dentro de um repertório estreito, que nos esgota.

As redes sociais, o consumo, o culto à produtividade — tudo isso contribui para manter-nos ocupados demais para despertar. A ilusão da escolha constante é um modo eficaz de evitar a verdadeira liberdade: aquela que exige silêncio, vazio, pausa e autoconfronto.

A realidade não escolhida e a escolha por vir

Você diz que talvez não tenha escolhido conscientemente essa realidade. E talvez tenha razão. A maioria de nós chega à vida adulta com uma bagagem de decisões tomadas no escuro: profissão, relacionamentos, ideologias, valores herdados. Somos produto de histórias não contadas e escolhas herdadas. Mas isso não nos condena à repetição.

Como escreveu Søren Kierkegaard, “a angústia é a vertigem da liberdade”. Quando percebemos que poderíamos ter escolhido diferente — e que ainda podemos — algo se move. Angustiante, sim. Mas também libertador. Porque não importa onde estamos, há sempre um pequeno espaço de decisão. Um gesto novo. Um olhar mais lúcido. Um ato contra a corrente.

O começo do gesto

Não somos inteiramente livres, mas também não somos inteiramente prisioneiros. A ideia de que estamos condicionados por um falso eu, por estruturas sociais invisíveis e por automatismos psíquicos é, em parte, verdadeira. Mas a consciência dessa prisão é o começo da fuga.

Talvez a realidade que vivemos não tenha sido escolhida. Mas a realidade que virá — essa pode ser. Desde que não busquemos escolhas grandiosas de uma vez só, mas pequenos desvios. Um pensamento não repetido. Um hábito desfeito. Um "não" dito com coragem. A cada gesto assim, a realidade muda. E o eu desperta.


sábado, 3 de fevereiro de 2024

Dilema do Prisioneiro


O dilema do prisioneiro é uma daquelas engenhocas mentais que nos fazem coçar a cabeça e questionar nosso egoísmo e nossas próprias noções de ética e raciocínio. Mas antes de mergulharmos nesse labirinto de escolhas, deixe-me contar uma pequena história que poderia muito bem ter saído diretamente de um filme noir.

Era uma vez, numa cidade cinzenta e sombria, dois parceiros de crimes - Jack e Pete. Eles eram inseparáveis, como dois dedos da mesma mão, e juntos tramavam os golpes mais ousados que a cidade já vira. Porém, como todos os contos de ganância e traição, o destino pregou-lhes uma peça. Certo dia, após um assalto audacioso a um banco, Jack e Pete foram capturados pela polícia. Sentados em salas de interrogatório adjacentes, os dois se encontraram diante de um dilema que mudaria o curso de suas vidas.

O detetive, com seu ar sombrio e olhar penetrante, ofereceu um acordo a cada um dos criminosos. Se um deles entregasse o outro, cooperando com a polícia, enquanto o outro se mantinha em silêncio, o delator receberia uma sentença reduzida, enquanto o outro enfrentaria uma pena mais pesada. Se ambos traíssem um ao outro, receberiam penas moderadas. Se ambos se mantivessem leais um ao outro, enfrentariam penas mais leves.

Jack e Pete estavam em um verdadeiro impasse. Cada um olhava nos olhos do outro, tentando decifrar a verdade por trás das máscaras que usavam há anos. Ambos sabiam que a confiança entre eles estava quebrada, mas ainda havia aquele laço indescritível que os mantinha conectados.

Agora, o Dilema do Prisioneiro não é apenas uma trama de crimes e castigos. Foi concebido pelo brilhante matemático Merrill M. Flood e pelo renomado economista Melvin Dresher no ano de 1950 durante a Guerra Fria, quando os conflitos ideológicos entre os Estados Unidos e a União Soviética estavam no auge. Eles o utilizaram como uma analogia para as tensões destrutivas da guerra e as negociações políticas.

Essa situação hipotética, que poderia se desenrolar em qualquer lugar, desde os corredores de uma delegacia até as salas de reuniões de líderes mundiais e até mesmo em nosso cotidiano, explora a interação entre interesses individuais e coletivos. A escolha racional, do ponto de vista estratégico, é trair o outro, garantindo a própria segurança. No entanto, essa lógica egoísta pode levar a resultados desastrosos quando aplicada em larga escala. Jack e Pete, como muitos antes deles, foram confrontados com a essência do dilema humano: confiar ou trair, colaborar ou competir, pensar no eu ou no nós. E no final, o que eles decidiram?

Bem, essa é uma história que só eles podem contar. Mas o dilema do prisioneiro continua a ecoar em nossas mentes, nos desafiando a refletir sobre as complexidades da moralidade, do egoísmo, do comportamento humano e das interações sociais. Afinal, em um mundo onde cada decisão tem suas próprias ramificações, quem realmente sai vitorioso? Seja qual for o desfecho da história de Jack e Pete, uma coisa é certa: o dilema do prisioneiro continuará a nos assombrar, provocando debates acalorados e questionamentos profundos sobre quem somos e para onde estamos indo. E talvez, apenas talvez, possamos encontrar alguma luz no labirinto escuro de nossas próprias escolhas.

Agora vamos falar sobre um dilema que pode acontecer entre duas sociedades. Imagine duas vizinhanças: Sociedade A e Sociedade B. Então, essas sociedades estão aparentemente unidas, vivendo suas vidas, quando de repente encaram uma crise ambiental pesada. Tipo, os recursos naturais estão indo para o buraco e a poluição está virando um monstro. As duas sociedades sabem que precisam agir, mas aí que vem o dilema do prisioneiro. De um lado, temos a opção de cooperar: as duas sociedades decidem juntar os esforços, reduzir a exploração dos recursos naturais, cortar a poluição e investir em tecnologias sustentáveis. Seria um trabalho pesado, muitos sacrifícios, mas poderia melhorar o ambiente a longo prazo. Por outro lado, há a opção de competir: uma sociedade decide tocar o bonde da cooperação, enquanto a outra continua na exploração louca, só pensando no lucro rápido e ignorando o futuro ambiental.

O dilema é que as sociedades têm que decidir sem saber a escolha da outra, e isso complica tudo. Se ambas cooperarem, todo mundo pode sair ganhando, com um ambiente mais saudável e tal. Mas se uma cooperar e a outra competir, quem cooperou pode se dar mal, ficar no prejuízo com a poluição e exploração descontrolada. O desafio é manejar a tentação de ganhar vantagem a curto prazo em prol de um bem maior a longo prazo. É tipo confiar no vizinho do lado e se comprometer pelo bem de todos, mesmo que as tentações de ganho rápido sejam grandes.

É isso aí, esse dilema não é só uma parada de livros. Reflete os dilemas e escolhas que a gente está encarando hoje em dia com a crise climática e a cooperação global. A chave é buscar formas de superar esse dilema, incentivando as sociedades cooperarem, serem transparentes e se responsabilizarem pelo futuro do planeta.

Agora, vamos botar uma pitada de política nessa reflexão e falar sobre o dilema do prisioneiro nesse mundo das decisões políticas. Então, vamos imaginar dois partidos políticos, Partido A e Partido B, cada um com seus interesses e ideias. Eles estão num cenário onde precisam decidir se vão jogar limpo ou sujo. De um lado, temos a opção da cooperação ética: ambos os partidos decidem agir com transparência, respeitar a lei e buscar o bem-estar da galera. Isso pode significar tomar decisões difíceis, mas é o caminho certo? É tipo pensar no bem comum, na moralidade e no futuro do país. Por outro lado, temos a opção da competição suja: um dos partidos decide jogar sujo, espalhar fake news, manipular as informações e fazer acordos obscuros nos bastidores. Pode até dar uma vantagem momentânea, mas é uma roubada a longo prazo, porque contamina a confiança e desestabiliza a sociedade.

A melhor saída, sem dúvida, é seguir a ética e fazer a coisa certa. Tipo, imagina se os dois partidos se comprometessem a serem honestos, a ouvir a voz do povo e a trabalhar juntos pelo bem da sociedade? Isso sim seria uma virada de jogo! O dilema é que muitas vezes a tentação de ganhar poder e influência pode fazer os caras esquecerem a ética e fazerem escolhas que prejudicam a todos. Mas olha, a ética não é só uma palavra bonita, não. Ela é o alicerce de uma sociedade justa e equilibrada. Então, quando os políticos pensam em jogar sujo, é hora de lembrar que fazer a coisa certa, mesmo que seja difícil, é sempre o melhor caminho. No fim das contas, é a ética que vai guiar as decisões políticas na direção certa, rumo a um futuro mais justo e promissor para todo mundo. Então, já sabe, quando estiver na urna, escolha quem está do lado da ética e da honestidade.

Como vimos o Dilema do Prisioneiro é um jogo desenvolvido pela Teoria dos Jogos e estabelece um conflito entre “interesses” Comuns e Individuais, de Competição X Cooperação, mostra um dilema entre cooperar e trair, entre ser ético e antiético. Esse fenômeno está presente em quase todos os momentos em nosso cotidiano, em todos os meios e lugares, o mundo está se tornando cada vez mais um lugar muito perigoso, pense, até no simples jogar de lixo no chão sem se preocupar com os problemas a longo prazo ao meio ambiente, ocorre quando alguém escolhe desviar dinheiro da empresa se apropriando e usando para outras finalidades, ignorando os riscos a subsistência da própria empresa, ocorre na malandragem do levar vantagens em tudo, a impressão é que estamos presos em um gigantesco dilema do prisioneiro por que a conduta mais fácil, mais eficiente a curto prazo, usualmente, é prejudicar os outros ou levar alguma vantagem. O dilema desaparece se cada um agir corretamente e com ética, sem egoísmos, sem individualismos, aos poucos o mundo poderá ser transformado e ficando um lugar melhor e mais seguro para se viver. Se sentir em dilema, entre ser ético ou antiético é porque o pensamento errado está perturbando a atitude correta, então não alimente o dilema, faça a coisa certa, mesmo que a curto prazo seja aparentemente melhor sacanear.