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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Lembranças Suscitadas

Eu não escolho todas as lembranças que tenho. Muitas delas me escolhem.

Elas surgem sem aviso: no cheiro de terra molhada, numa música antiga, numa luz de fim de tarde. Não chegam completas — chegam como fragmentos, como sensações que pedem tradução. E, aos poucos, vão se transformando em histórias dentro de mim.

As lembranças suscitadas não são convocadas pela vontade, mas pelo encontro. Um objeto, um som, um gesto qualquer toca um fio invisível, e de repente eu estou em outro tempo, com outro corpo, com outra inocência.

Curiosamente, essas lembranças não vêm para informar. Vêm para afetar. Elas não dizem “foi assim”, dizem “foi importante”.

Às vezes não lembro do rosto, mas lembro do cuidado.

Não lembro da fala, mas lembro do impacto.

Não lembro do dia, mas lembro de quem eu era naquele dia.

Proust dizia que a memória verdadeira é involuntária. Talvez porque só aquilo que realmente nos tocou saiba encontrar sozinho o caminho de volta.

E assim, percebo que não sou feito apenas das lembranças que guardo, mas também das que me visitam quando eu já tinha esquecido que elas existiam.

No fundo, as lembranças suscitadas são cartas que o passado ainda escreve para o presente — não para nos prender, mas para nos lembrar, com delicadeza, de quem já fomos sem saber.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Memória Essencial



Às vezes, enquanto tomamos um café ou esperamos o ônibus, uma lembrança vem do nada: uma tarde de infância, uma risada perdida, o cheiro de um bolo que alguém fazia. E, curiosamente, não lembramos de tudo — apenas de fragmentos. A memória, como uma artista seletiva, guarda o que importa e apaga o que apenas passou. Lembro porque a emoção gravou em algum lugar de minha mente o que naquele momento vivido foi marcante e diferente, sempre que sinto sua falta revisito o palácio da memória e encontro a lembrança em alguma sala me aguardando, isto é fantástico.

No fundo, ela é menos um arquivo e mais um filtro. Do que vivemos, ficam as emoções mais intensas, as experiências que nos tocaram de verdade. O resto se dissolve no esquecimento, talvez para abrir espaço para o novo. É como se o tempo só permitisse permanecer o que teve alma.

No cotidiano, isso se mostra de forma simples: esquecemos nomes, mas não esquecemos o tom de voz; deixamos de lembrar rostos, mas recordamos a sensação de estar perto de alguém. A memória essencial é afetiva — o que se grava não é o fato, mas o sentimento.

Há quem veja nisso uma falha da mente. Eu vejo um gesto de sabedoria. A memória seleciona o que nos constrói, como quem organiza uma casa. Deixa ir o que pesa e guarda o que nos mantém de pé. Por isso, lembrar é, de certo modo, também escolher.

Henri Bergson dizia que a lembrança é “a sobrevivência do passado no presente”. E talvez seja isso mesmo: o que realmente vivemos continua vivo, não como repetição, mas como presença sutil. O que o tempo não levou, o coração quis manter.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

O Espírito da Dádiva

O que ainda nos move a dar e retribuir

Costumamos pensar que os gestos de dar e receber pertencem ao campo da gentileza, algo meio perdido no meio do cotidiano apressado: alguém cede o lugar no ônibus, outro paga o café, um vizinho empresta a furadeira. Coisas simples. Mas, se olharmos de perto, há algo muito mais profundo acontecendo ali — uma espécie de economia invisível que Marcel Mauss, no início do século XX, percebeu com rara lucidez. Não é só o objeto que circula. É um vínculo.

O que Mauss chama de dádiva não é apenas presente; é um sistema social inteiro, baseado em três movimentos fundamentais: dar, receber e retribuir. Para ele, todos os povos — dos mais antigos aos modernos — organizaram suas relações através desse tripé. Não por cordialidade, mas por necessidade estrutural: só a circulação de bens, favores, serviços, palavras e até sentimentos mantém a coesão entre indivíduos e grupos.

 

A lógica do presente que nunca é “gratuito”

No fundo, Mauss desconfia daquilo que chamamos de “presente sem intenção”. Para ele, todo presente traz um espírito — o hau, como aparece no estudo dos povos polinésios citado no ensaio. Não é magia metafórica. É a ideia de que o bem dado continua ligado à pessoa que deu. E por isso o receptor sente ou reconhece uma obrigação de reciprocidade.

Pense no cotidiano:

  • Você paga o almoço de um amigo. Ele diz: “Na próxima, é por minha conta.”
  • Você empresta o carro. A pessoa devolve limpo e abastecido.
  • Alguém te ajuda na mudança. Você sente que deve aparecer na casa dessa pessoa quando ela precisar de algo.

Não se trata de dívida moral pesada, mas de um tipo de circuito simbólico: para que a relação se mantenha viva, algo precisa circular. A dádiva é o movimento que impede que as relações fiquem estagnadas.

 

A dádiva como cimento social

Mauss observa que, em sociedades tradicionais, festas, alianças, casamentos e até guerras são inaugurados por presentes. Quem dá muito adquire prestígio; quem não retribui perde a honra. A dádiva gera um laço que pode tanto unir quanto obrigar. Ela cria compromissos — e, por isso, cria sociedade.

Se olharmos ao redor, veremos que o mesmo acontece hoje, mesmo que disfarçado:

  • Redes de troca de favores no trabalho.
  • A política que se estrutura em apoios, concessões e contrapartidas.
  • A vida afetiva, que só prospera quando ambos dão e recebem na medida do possível.
  • Até o simples gesto de indicar alguém para uma vaga de emprego envolve uma aposta, uma confiança que cria um elo duradouro.

Por isso Mauss insiste: não existe relação social sem reciprocidade.

 

A ilusão moderna da "autonomia"

O capitalismo trouxe a ideia de que o contrato, o pagamento e o preço substituiriam a dádiva. Pagou, acabou. Nada nos liga mais. Em teoria, sim. Na prática, não.

Quem compra sempre no mesmo mercadinho do bairro acaba ganhando fiado.
Quem frequenta sempre o mesmo café recebe o “extra” que o barista coloca sem cobrar.
Quem trata bem os vizinhos tem mais proteção silenciosa que qualquer cerca elétrica.

Mesmo na economia formal, o contrato é frio demais para explicar a confiança, a boa vontade ou os laços que nascem do simples gesto de dar sem calcular inteiramente.

Mauss já percebia isso em 1925. Hoje, quando nossa vida é tão monetizada, sua crítica é ainda mais atual: a dádiva é aquilo que mantém o humano respirando dentro dos sistemas técnicos.

 

O que a dádiva nos revela sobre nós

Dar é expor-se, é colocar algo de si no mundo. Receber é reconhecer que não somos autossuficientes. Retribuir é fechar o ciclo e, ao mesmo tempo, abri-lo de novo para o futuro. Cada gesto desse tipo impede que a vida social se torne puro interesse ou pura indiferença.

E talvez por isso sentimos tanta estranheza quando alguém dá demais ou de menos. Sabemos, instintivamente, que o equilíbrio da dádiva é também o equilíbrio das relações.

Comentário filosófico – com Darcy Ribeiro

Para fechar com um pensador brasileiro, Darcy Ribeiro certa vez afirmou que “a solidariedade é a ternura dos povos”. A frase é uma síntese perfeita do espírito da dádiva maussiana: aquilo que damos aos outros não é mero objeto, mas a forma como reconhecemos que precisamos uns dos outros para continuar existindo. Darcy diria que uma sociedade onde nada circula — nenhum afeto, nenhum gesto, nenhum favor — é uma sociedade doente, porque perdeu seu pulso humano.


domingo, 2 de novembro de 2025

Tempo Produtivo

Vivemos a era da pressa. O tempo virou mercadoria, e a ociosidade, pecado. Mas há uma diferença enorme entre usar o tempo e ser usado por ele.

Fazer muito não é o mesmo que viver bem. O tempo produtivo é aquele que produz sentido — e isso nem sempre cabe em planilhas. Às vezes, uma tarde de silêncio rende mais do que uma semana de correria.

Tempo produtivo nem sempre é aquele cheio de tarefas riscadas na agenda, mas o que realmente nos nutre. Outro dia, desliguei o celular por uma hora e fui caminhar sem rumo, apenas observando o movimento da rua, o cheiro do pão saindo da padaria, o sol se inclinando devagar. No início, me senti culpado por “não estar fazendo nada”, mas logo percebi que aquele intervalo me devolvia clareza e ânimo — coisas que nenhuma planilha teria oferecido. Percebi que produtividade não é empilhar ações, e sim dar sentido ao tempo. Às vezes, o momento mais produtivo do dia é justamente aquele em que paramos para respirar.

Sêneca, em Da Brevidade da Vida, escreveu: “Não é que tenhamos pouco tempo, mas o perdemos demais.” E ele estava certo. O problema não é o tempo que temos, é o quanto deixamos de estar presentes nele.

No fim, o tempo não precisa render. Precisa apenas valer.


sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Nunca Chega

...porque a vida é agora

 

Tem gente que vive esperando. Espera o amor da vida, o emprego dos sonhos, a coragem pra mudar de cidade, o momento certo pra ser feliz. Outros esperam a aposentadoria pra finalmente descansar, o fim de semana pra viver de verdade, ou um sinal místico de que agora sim, pode começar. Mas a vida não é essa fila de supermercado onde só depois da senha chamada a gente pode viver. A vida já começou, e o agora é o único tempo que ela conhece.

Essa ideia – nunca chega, porque a vida é agora – parece simples, quase uma frase de agenda motivacional. Mas por trás dela há camadas profundas de filosofia e sociologia. Porque não estamos apenas lidando com o tempo cronológico. Estamos diante de um modo de viver construído culturalmente, alimentado por ideologias de produtividade, promessas de futuro e um medo imenso do presente.

 

O tempo adiado: um vício moderno

O sociólogo Zygmunt Bauman dizia que vivemos em uma modernidade líquida, onde tudo escorre antes de tomar forma. Isso inclui nossas expectativas de futuro. Sempre estamos planejando, organizando, projetando. Mas, paradoxalmente, essa obsessão pelo amanhã rouba o sentido do agora. O presente vira só um degrau, e nunca um lugar de morada.

O filósofo francês Michel Foucault ajudaria a entender como essa lógica do tempo está a serviço de uma estrutura de poder. Ao internalizarmos a ideia de que só depois teremos valor (quando formos promovidos, quando tivermos um diploma, quando emagrecermos, quando tivermos filhos), estamos nos sujeitando a um controle que nos distancia de nós mesmos. A espera se torna ferramenta de dominação.

 

Viver esperando é viver ausente

No campo mais existencial, Kierkegaard já alertava para o perigo de uma vida em suspenso. Para ele, a angústia nasce exatamente quando nos afastamos do presente em nome de algo idealizado que nunca se concretiza. É como se estivéssemos sempre “ensaiando” para a vida, mas nunca subíssemos ao palco.

Quantas vezes dissemos "quando eu terminar isso, vou ser feliz"? E depois, adiamos de novo. Isso cria um ciclo de insatisfação, em que o tempo real – o agora – é apenas um meio e nunca um fim.

Há quem queira pular alguma etapa por sentir que é muito doloroso vivenciar o que a vida apresentou, no entanto, não tem como pular etapas, caso contrário ficará parado até que resolva enfrentar, adiando o desfecho que é inevitável, seja qual for, é necessário o enfrentamento para seguir em frente. Já ouviu ou disse que agora não, não quero fazer isto neste momento, no entanto fica olhando para o lado e enxergando a procrastinação consumindo o pensamento?

 

A sociologia do instante

A sociedade contemporânea, com sua velocidade e excesso de estímulos, nos convida à dispersão, mas raramente à presença. As redes sociais, os aplicativos de produtividade, o culto à eficiência: tudo isso forma o cenário ideal para que o agora seja descartável. O "momento presente" é muitas vezes vivido como obstáculo – algo que precisa ser superado para que o futuro, glorioso e cheio de promessas, finalmente chegue.

Mas ele nunca chega. Porque ele não existe. Só existe o agora.

 

Uma alternativa possível: o tempo experienciado

N. Sri Ram, pensador da tradição teosófica, dizia que “a realidade é aquilo que está sendo vivido com atenção”. Em outras palavras, só é real o que é percebido, sentido, atravessado com consciência. Isso nos leva a uma ideia de tempo mais experiencial do que linear. O agora não é um ponto entre passado e futuro. É o palco onde tudo acontece.

Talvez viver bem seja justamente isso: aceitar que não há depois. Não há linha de chegada onde tudo fará sentido. Há sim, o café que esfria enquanto você pensa em coisas demais, o pôr do sol que você não vê respondendo mensagens, o abraço que adia porque acha que amanhã será melhor.

 

Nunca chega, porque não tem onde chegar. A vida não é uma estrada com destino, mas um campo onde se pisa, se sente, se colhe. Esperar o momento certo é a forma mais sutil de fugir dele. Filosoficamente, é uma traição ao ser; sociologicamente, é uma obediência cega à lógica do capital e do progresso. Romper com isso talvez seja o ato mais revolucionário do nosso tempo: simplesmente estar aqui, agora.


sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Atribulações da Existência


Um ensaio filosófico informal sob a ótica budista

 

Tem dia que tudo parece pesar mais: o despertador toca cedo demais, o café derrama na roupa limpa, a fila anda devagar, e os pensamentos aceleram. Em meio ao barulho do mundo, somos levados como folhas ao vento, tentando equilibrar mil coisas enquanto uma voz interna sussurra: “tem algo errado”. Mas e se o erro não estiver nas circunstâncias, e sim na forma como nos relacionamos com elas?

As atribulações da existência não são novidade. Mas o que muda é como olhamos para elas. No Ocidente, muitas vezes as vemos como obstáculos a serem vencidos — inimigos externos a serem combatidos com força, garra ou produtividade. Já o olhar budista propõe algo radicalmente diferente: e se as atribulações forem professoras? E se o sofrimento não for um desvio, mas um espelho?

Segundo os ensinamentos budistas, o sofrimento (ou dukkha) não surge apenas de eventos trágicos ou grandes perdas. Ele brota na raiz da existência, justamente por resistirmos ao fluxo natural da vida. Sofremos porque queremos que as coisas sejam permanentes quando tudo muda. Sofremos porque desejamos prazer contínuo num mundo onde tudo é transitório. E principalmente: sofremos porque acreditamos que existe um “eu” fixo que merece controle absoluto sobre tudo — e que se frustra quando isso não acontece.

O mestre budista vietnamita Thich Nhat Hanh nos convida a cultivar a presença plena como antídoto para esse ciclo de atribulações. Ele diz:

“As pessoas costumam considerar caminhar sobre as águas ou no ar um milagre. Mas eu acho que o verdadeiro milagre é caminhar sobre a Terra.”

Estar presente é, paradoxalmente, a forma mais profunda de desapego. Não é se tornar indiferente, mas deixar de agarrar-se a tudo como se tudo fosse durar para sempre. O desapego no budismo não é desinteresse — é liberdade. É o reconhecimento de que nenhuma emoção, nenhum bem, nenhuma relação, nem mesmo o nosso corpo, nos pertence. Tudo é emprestado.

Muitos pensam que paz espiritual é viver longe do caos. Mas o budismo ensina que a verdadeira paz é conseguir manter o centro mesmo no olho da tempestade. E é aqui que entra a meditação — não como fuga, mas como método.

Sentar-se em silêncio, prestar atenção à respiração, observar os pensamentos que surgem e desaparecem como nuvens no céu — tudo isso treina a mente para perceber que não somos nossos pensamentos. A ansiedade, a raiva, a tristeza — tudo passa, e a meditação nos ajuda a não nos confundir com o que passa. Como diz um antigo ensinamento zen: "Deixe os pensamentos entrarem. Apenas não sirva chá para eles."

A prática constante da meditação vai desmontando, aos poucos, o apego que temos às ideias fixas sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre como o mundo deveria ser. Isso nos permite habitar a vida com mais leveza, como quem sabe que tudo é impermanente — e por isso mesmo precioso.

O pensador japonês D. T. Suzuki, responsável por apresentar o Zen ao Ocidente, afirmou certa vez:

“O sofrimento existe porque o homem se esqueceu da sua natureza essencial.”

Suzuki defendia que as atribulações não são resolvidas com fuga ou combate, mas com despertar. Quando redescobrimos que a mente é como um espelho — que reflete mas não se apega ao que vê —, então os eventos deixam de ser armadilhas e se tornam passagens. Não é sobre eliminar o sofrimento, mas vê-lo pelo que ele é: um lembrete de que ainda estamos apegados a algo ilusório.

Assim, o olhar budista sobre as atribulações da existência não é de pessimismo, mas de profunda lucidez. Sofrer faz parte, mas o sofrimento pode ser visto com olhos mais brandos. Não como castigo, mas como convite. A prática, a atenção, o silêncio interior — tudo isso nos ajuda a transformar cada pedra no caminho em degrau.

Meditar é olhar para dentro sem medo. Desapegar é abrir mão do controle e permitir que a vida se desdobre como uma flor — pétala por pétala. Talvez da próxima vez que a fila estiver enorme, ou a dor parecer insuportável, possamos lembrar: é só um instante. Respira. É só vida acontecendo.


sexta-feira, 30 de maio de 2025

Tempo e Ser

 

Já reparou como, às vezes, o tempo parece escorrer por entre os dedos — como areia molhada? Você acorda, toma café, vai ao trabalho, responde e-mails, olha o relógio, almoça apressado, volta... e, quando vê, é noite. Você viveu, mas passou por você?

Heidegger, já mais velho, também pensava nisso. E decidiu voltar à pergunta que nunca o abandonou: o que é o ser? Mas agora com outra lente: o tempo não é só um pano de fundo — ele é o próprio caminho por onde o ser se mostra.

 

1. Uma inversão: não somos nós que controlamos o tempo

A primeira mudança de chave em Tempo e Ser é essa: não somos nós que temos o tempo — é o tempo que nos tem.

Parece estranho? Pensa naquela reunião que você achou que ia durar 15 minutos e virou 2 horas. Ou naquele feriado que voou. O tempo não se mede só no relógio. Ele é vivido — e, por isso, pode expandir ou encolher. Heidegger chama isso de tempo próprio, tempo apropriador (Ereignis).

 

2. Do ser como presença ao ser como doação

Lá em Ser e Tempo, Heidegger ainda tratava o ser como algo que se manifestava dentro do tempo. Agora, em Tempo e Ser, ele diz que o tempo é a condição do ser se mostrar. O ser não está “lá” o tempo todo — ele se doa, se revela, se retira.

É como as pessoas na nossa vida: tem amigos que aparecem quando a gente menos espera — e outros que, mesmo presentes, estão ausentes. O ser também é assim — se dá no tempo certo, e só no tempo certo.

 

3. O Ereignis: o momento em que o ser acontece

Heidegger inventa uma palavra complexa: Ereignis. Traduzem como “acontecimento apropriador” ou “evento de apropriação”. Mas pense nisso como aquele instante em que tudo se encaixa, mesmo que por um segundo.

Tipo quando você está andando na rua, distraído, e sente que está no lugar certo, na hora certa. Ou quando escuta uma música antiga e algo em você se revela — uma lembrança, uma emoção esquecida.

Não é você quem provoca isso — é o tempo que te entrega.

 

4. O tempo como clareira (Lichtung)

Heidegger fala que o ser precisa de uma clareira para aparecer — como uma luz que atravessa a floresta. Essa luz é o tempo.

Na prática? É como quando você finalmente tem um domingo livre. Silêncio em casa. Você senta, olha pela janela e pensa em tudo que não pensa durante a semana. A vida parece abrir espaço para você pensar no que está fazendo com ela.
Esse instante de clareira é um presente do tempo. E o ser, tímido, aparece ali — se você estiver atento.

 

5. Nem cronômetro, nem relógio — tempo como relação

Heidegger nos convida a abandonar a ideia de tempo como algo linear e medido em minutos. Ele quer que a gente perceba o tempo como relação com o ser.
Você já teve um almoço com alguém que parecia durar cinco minutos, mas mudou o seu mês? Ou já ficou olhando para o teto por três horas sem conseguir respirar de tanta angústia? O tempo que vale não é o dos ponteiros, mas o da experiência.

 

Viver é acolher o tempo que nos escolhe

Em Tempo e Ser, Heidegger não está oferecendo uma receita de como aproveitar melhor o tempo, como os gurus da produtividade. Ele está dizendo:

“Pare de correr. Escute o tempo. Ele não é seu inimigo. Ele é o próprio lugar onde o ser se mostra.”

Na prática? Talvez seja deixar o celular de lado por meia hora. Sentar em silêncio. Ouvir um amigo com atenção. Aceitar que nem tudo está no nosso controle — e que o que realmente importa acontece quando você permite que o tempo aconteça em você.

sábado, 24 de maio de 2025

De Outro Jeito

Lembrei de algo, coisa de bom tempo atrás, dentre lembranças que surgem, como disse Santo Agostinho coisas guardadas dentro do “palácio da memória”, lembrei que eu estava tentando aprender a fazer pão em casa, me peguei errando pela terceira vez a receita. O fermento não crescia, o miolo ficava cru. Eu seguia tudo direitinho, mas algo dava errado. Hoje a lembrança me fez perceber: saber a receita não é o mesmo que saber fazer. O conhecimento não entra inteiro, redondo, como uma cápsula de gel. Ele precisa de tempo, de prática, de falha. E também de alguma estrutura interna que organize tudo isso — seja ela filosófica ou cerebral.

Pensei, é aí que a conversa entre os pensadores antigos e as descobertas novas poderá ficar interessante. E por que não? Então, vamos dar uma volta entre a cozinha e o cérebro, passando por Kant, Aristóteles, entre outros antigos amigos, e um ou outro laboratório moderno.

Vamos lá caminhar entre conhecimentos milenares!

1. Conhecer é organizar o mundo (Kant + neurociência)

Kant dizia: antes de experimentar o mundo, já temos formas a priori de organizá-lo — como tempo, espaço e causalidade. Hoje, a neurociência confirma que o cérebro não é uma tábua rasa, mas uma máquina de interpretar, preencher lacunas e prever padrões. Quando olho para uma cadeira, meu cérebro não recebe “cadeira”: ele reconstrói o que é uma cadeira a partir de pedaços visuais e categorias aprendidas.

Situação cotidiana:

Você está numa rua nova e vê um animal estranho. Mesmo sem nunca ter visto aquilo, seu cérebro tenta classificá-lo: "parece um cachorro... ou um javali?". Esse impulso de organizar já estava em Kant — e hoje está nos neurônios também.

2. Conhecimento vem da prática (Aristóteles + plasticidade neural)

Aristóteles dizia que a gente aprende fazendo. A virtude, o saber prático, nasce do hábito. E as neurociências modernas gritam em coro: sim, o cérebro se molda com a repetição. É a tal da plasticidade neural — as conexões vão se fortalecendo quanto mais você repete uma ação, uma palavra, um movimento.

Situação cotidiana:

Você tenta tocar violão. No começo, o dedo dói, o som sai feio. Duas semanas depois, os dedos “vão sozinhos”. A filosofia antiga chamava isso de hexis, um hábito que vira segunda natureza. O cérebro chama de neuroadaptação.

3. Sentimos antes de saber (Hume + Antônio Damásio)

David Hume desconfiava da razão: dizia que as paixões mandavam mais. Hoje, o neurocientista Antônio Damásio mostra que tomamos decisões com base em emoções antes de racionalizá-las. Não escolhemos só com lógica: escolhemos com medo, desejo, afeto.

Situação cotidiana:

Você está para mudar de emprego. Na planilha, tudo parece certo — mas algo te incomoda. Um desconforto, um arrepio. A razão diz "vai", o corpo diz "espera". Isso é mais antigo que Excel — e muito mais humano.

4. O conhecimento se dá em comunidade (Sócrates + Vygotsky)

Sócrates já dizia que ninguém aprende sozinho — a verdade nasce no diálogo. Vygotsky, psicólogo russo do século XX, confirma: o aprendizado acontece mediado por outros, pela cultura, pela linguagem. E hoje sabemos que a linguagem molda até a estrutura do cérebro. Ou seja, pensar é conversar — mesmo em silêncio.

Situação cotidiana:

Você entende melhor um conceito depois de explicá-lo a alguém. Ou quando ouve a dúvida de outra pessoa e pensa: “nunca tinha visto por esse ângulo”. Isso não é fraqueza do saber — é a própria força dele.

5. A consciência ainda é um mistério (Platão + neurofilosofia)

Platão achava que havia uma alma imortal ligada ao mundo das ideias. A neurociência moderna não fala de alma, mas ainda não sabe explicar plenamente a consciência. Sabemos quais áreas do cérebro se acendem quando você pensa em uma lembrança, mas ainda não sabemos como surge o "eu" que pensa. A ciência descreve, mas não esgota.

Situação cotidiana:

Você acorda de um sonho e se pergunta: “quem era aquela pessoa?” ou “sou mesmo eu que penso isso?”. A consciência não se deixa capturar tão fácil — nem pela filosofia, nem pelos scanners cerebrais.

As ideias antigas sobre o conhecimento não caíram de moda — elas mudaram de roupa. Hoje, falamos em sinapses em vez de categorias a priori, mas continuamos tentando entender como conhecemos, como sentimos, como escolhemos. A neurociência traz ferramentas; a filosofia, perguntas. E entre uma coisa e outra, seguimos aprendendo — com pão que não cresce, conversas de café e decisões que o coração já sabia antes da mente aceitar.

Então, vamos continuar essa conversa, expandindo o ensaio para contextos onde o conhecimento se mostra mais do que uma ideia: ele é prática vivida, conflito interno e resposta improvisada. A escola, o trabalho e as redes sociais são os palcos modernos onde as teorias de Kant, Aristóteles, Hume e os neurocientistas se encenam diariamente — mesmo sem que a gente perceba.

Na escola: saber não é repetir, é significar

Na escola, a tensão entre o que é ensinado e o que é aprendido mostra que conhecimento não é só conteúdo. Uma criança pode decorar a tabuada e ainda assim não saber dividir um pacote de figurinhas entre os amigos. Isso porque o cérebro precisa de contexto, emoção e prática para transformar dado em saber.

Hoje, com a neurociência, sabemos que aprender é como montar um quebra-cabeça com peças faltando: o aluno preenche o sentido com o que já viveu. E aqui, Kant sorri de novo: as estruturas internas organizam a experiência — por isso, duas crianças aprendem de formas completamente diferentes, mesmo ouvindo o mesmo professor.

Exemplo:
Um aluno aprende melhor ouvindo, outro desenhando, outro conversando. A escola tradicional que trata todos como tábua rasa ignora tanto Aristóteles quanto as neurociências.

No trabalho: conhecimento vira ação sob pressão

No trabalho, o conhecimento se transforma em decisão rápida, intuição treinada, ou mesmo em saber lidar com o imprevisível. Um gerente pode ter lido todos os manuais de liderança, mas na hora de acalmar uma equipe estressada, precisa mais de inteligência emocional do que de PowerPoint.

A neurociência mostra que decisões sob pressão ativam áreas ligadas ao medo, à memória emocional e à empatia. Hume, lá do século XVIII, teria dito: "Viu só? As paixões guiam a razão!"

Exemplo:
Você apresenta uma ideia numa reunião e ela é mal recebida. Seu corpo reage: coração acelera, voz falha. Depois, você pensa melhor e vê que podia ter explicado diferente. O saber racional só chega depois do tsunami emocional.

Nas redes sociais: informação não é conhecimento

Vivemos numa era em que informação é abundante, mas isso não quer dizer que sabemos mais. O cérebro, bombardeado por notificações, se adapta a ler superficialmente, mas perde a capacidade de reflexão profunda.

Platão dizia que o verdadeiro conhecimento exigia diálogo, tempo e introspecção. Nas redes, tudo é instantâneo, polarizado e performático. A neurociência já alerta: o uso excessivo de redes pode reduzir a atenção sustentada e o controle inibitório — ou seja, a capacidade de focar e de não reagir impulsivamente.

Exemplo:
Você lê um comentário agressivo e responde no impulso. Depois se arrepende. O conhecimento, aqui, teria sido a pausa, o tempo de Kant, o equilíbrio de Aristóteles. Mas o botão "responder" está mais perto do que o botão "refletir".

O conhecimento como experiência encarnada

No fundo, a lição é antiga e ainda válida: conhecimento não é só saber sobre algo — é ser transformado por esse saber. Não basta entender o que é empatia; é preciso senti-la. Não adianta saber que dormir ajuda a consolidar a memória se você nunca dorme direito.

Exemplo:
Você sabe que precisa dizer não a um convite para manter sua saúde mental. Mas aceita. Depois se sente exausto. No dia seguinte, diz não — com firmeza e leveza. Esse é o conhecimento vivido, que une razão, emoção e corpo. Aristóteles chamaria isso de phronesis — sabedoria prática.

Entre sinapses e sabedoria

O conhecimento continua sendo um mistério em evolução. Com a ajuda da neurociência, entendemos melhor o como; com a filosofia, perguntamos o porquê. Nas escolas, no trabalho, nas redes — o saber que realmente importa é aquele que muda o jeito como nos movemos no mundo.

Talvez, no fim, aprender seja isso: não apenas saber mais, mas ser diferente depois de saber.

Prosseguindo...

Agora vamos caminhar por dois territórios pouco falados, mas essenciais para entender como o conhecimento acontece: o corpo e o silêncio. Sim, aquele corpo que sente frio antes da prova, que se emociona com uma música, que sua na entrevista de emprego. E aquele silêncio que parece improdutivo, mas guarda em si um saber que ainda não encontrou palavras.

O corpo também pensa

Por muito tempo, tratamos o conhecimento como uma questão da cabeça. Mas o corpo — este companheiro silencioso — também sabe. Ele sabe quando algo vai dar errado, antes que você consiga explicar. Sabe que não está bem, mesmo quando você diz “tá tudo certo”. Esse saber corporal é anterior à linguagem, e os filósofos mais atentos sempre o intuíram.

Merleau-Ponty, por exemplo, defendia que percebemos o mundo com o corpo. O corpo não é um instrumento do eu: ele é o eu. Ele não acompanha a consciência — ele é uma forma de consciência.

Situação cotidiana:

Você entra em uma sala e sente algo estranho. As pessoas estão rindo, mas o ambiente está tenso. O corpo percebe antes da razão. E, muitas vezes, age antes de você entender por quê.

A neurociência chama isso de cognição incorporada (embodied cognition). Ela mostra que o aprendizado não acontece só no cérebro, mas também na relação entre o cérebro e o corpo. Movimentos, gestos, expressões — tudo isso participa do saber.

Exemplo:
Uma criança aprende a somar melhor pulando casas no chão do que ouvindo um cálculo no quadro. O corpo ajuda o conceito a se fixar. O movimento cria sentido.

O silêncio como campo fértil

A cultura da produtividade nos ensinou que o silêncio é perda de tempo. Mas ele é, muitas vezes, o espaço onde o saber se acomoda. É no silêncio que uma ideia mastigada encontra forma, que uma memória esquecida reaparece. O silêncio é como o sono do conhecimento: parece inatividade, mas é digestão mental.

Platão já desconfiava do excesso de fala: dizia que a alma amadurece em silêncio. Os monges do deserto sabiam que ficar calado era escutar mais fundo. E hoje, os estudos sobre criatividade confirmam: grandes soluções surgem em momentos de pausa — no banho, na caminhada, no cochilo.

Situação cotidiana:

Você escuta um problema complicado. Alguém te pergunta o que acha. Você sente vontade de responder logo, mas se cala. Um minuto depois, uma imagem aparece na mente. E você diz algo que nem sabia que sabia.

A filosofia oriental também nos lembra: o silêncio é uma forma de sabedoria. A palavra pode explicar. O silêncio pode revelar.

Entre o saber e o ser

No fim das contas, talvez a maior ilusão sobre o conhecimento seja pensar que ele é posse. Como se fosse uma moeda que se acumula. Mas o saber verdadeiro é transformação. A gente não o guarda — a gente se torna o que sabe.

Um violinista não “tem” o conhecimento da música — ele é música quando toca. Um jardineiro não “possui” saber sobre plantas — ele floresce junto com elas. Um professor não “transmite” ideias — ele convida o outro a pensar.

E às vezes, o que mais aprendemos é o que esquecemos de propósito: uma dor antiga que já não nos define. Uma certeza que largamos para viver com mais leveza.

Saber é viver de outro jeito

O conhecimento se forma como pão: precisa de farinha (conteúdo), água (emoção), fermento (tempo), calor (experiência) e paciência (silêncio). O corpo sente, o cérebro organiza, a alma intui. Às vezes é um clarão; outras vezes, um eco lento. Mas sempre que é verdadeiro, o saber nos muda.

Portanto, quando algo não fizer sentido de imediato, talvez seja o corpo aprendendo antes da mente. Ou talvez seja o silêncio preparando o terreno. De todo modo, vale confiar: o conhecimento, quando é real, age mesmo quando não se nota.


terça-feira, 15 de abril de 2025

Momento a Momento

“Meu ensaio de hoje é sobre o tempo que não se acumula, mas quando olho para ampulheta, penso que aquele montinho de areia em cima é o tempo acumulado que ainda tenho para viver e na parte de baixo é o meu tempo que já passou"

Outro dia, parado num ponto de ônibus com o celular sem bateria e nenhuma alma por perto, percebi algo curioso: o tempo não faz barulho. Ele passa, silencioso, como um gato preguiçoso atravessando a sala. E nesse silêncio, comecei a pensar sobre esse tal de “momento a momento” — uma expressão que parece óbvia, mas talvez esconda um universo inteiro atrás de sua simplicidade.

A gente vive como se a vida fosse uma escada rolante, e cada degrau fosse um momento nos levando a algum lugar importante. Mas será que é assim mesmo? E se, na verdade, não houvesse escada, nem direção, nem meta? Só o passo de agora, seguido por outro passo de agora, e outro. Sem acúmulo. Sem saldo no banco do tempo.

A ilusão da continuidade

Desde pequenos, nos ensinam a pensar no tempo como uma linha: começo, meio e fim. Aniversário de um ano, formatura, casamento, aposentadoria. Tudo tão organizadinho como capítulos de uma série. Mas viver momento a momento é reconhecer que essa linearidade é mais uma invenção nossa do que uma estrutura real.

O filósofo francês Henri Bergson já dizia que o tempo vivido, o durée, não é o mesmo tempo dos relógios. O tempo da experiência é feito de fluxo, de intensidade, não de minutos. Quando estamos apaixonados, uma hora passa voando. Na fila do banco, dez minutos parecem uma eternidade. Viver momento a momento é estar nesse tempo interior, não no tempo do calendário.

O peso que não precisa ser carregado

Quando vivemos pensando no passado ou no que pode acontecer daqui a cinco anos, acumulamos peso. Cada escolha vira um fantasma ou uma dívida. Mas o instante presente não exige justificativa. Ele simplesmente é.

É como o voo de um pássaro: ele não pensa no próximo galho, ele voa. Pensar demais em para onde estamos indo faz com que a gente esqueça que já estamos indo, já estamos no meio do caminho, e o agora — esse agora em que você está lendo essa linha — já está acontecendo. E já passou. E já virou outro.

A prática do instante

Na vida real, isso aparece nas pequenas coisas. Quando alguém te pergunta "tá tudo bem?" e você, por um segundo, realmente para para pensar se está. Ou quando você olha para um cachorro atravessando a rua e percebe que ele está ali, sem passado nem futuro, só farejando o momento.

A filosofia oriental, especialmente nas tradições zen, insiste muito nisso: o agora é tudo o que existe. O monge Thich Nhat Hanh dizia que “o milagre não é caminhar sobre as águas, mas caminhar sobre a Terra no momento presente”. A maioria de nós está sempre meio fora de si, pensando no que ainda não chegou ou no que já foi. O desafio é ancorar-se no instante.

O momento como território

Se o momento é tudo o que há, então ele é também um lugar. Um território que precisa ser explorado com olhos novos. Há paisagens inteiras no silêncio de um café, na respiração de alguém adormecido ao nosso lado, no cheiro da chuva quando ela começa a cair.

Viver momento a momento não é esquecer o passado nem ignorar o futuro. É dar ao agora a dignidade que ele merece. É permitir-se não saber para onde vai, mas seguir com atenção, com presença, com espanto.

Talvez o segredo da vida não esteja em grandes planos nem em marcos épicos, mas na coragem de estar inteiro no agora. O agora que não volta, que não se repete, que nem sempre brilha — mas que é real. Momento a momento, vamos esculpindo a única coisa que realmente temos: a nossa presença no tempo que não se acumula.

E se o ônibus não vier, tudo bem. Enquanto isso, o tempo segue passando, silencioso, e talvez seja esse o som mais profundo que existe.


sábado, 5 de abril de 2025

Fluido e Efêmero

O Movimento Contínuo da Vida

A gente tem mania de tentar segurar o tempo, como quem segura água entre os dedos. Tentamos congelar momentos, definir conceitos fixos, criar identidades estáveis, mas a verdade é que tudo escorre, desliza e se transforma. Ser fluido e efêmero não significa estar vazio ou sem significado, mas sim estar atento a tudo o que emerge no fluxo da vida. E se, ao invés de temermos essa transitoriedade, aprendêssemos a dançar com ela?

O Equilíbrio entre Permanência e Mudança

Heráclito já dizia que não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, porque nem o rio é o mesmo, nem nós somos os mesmos. No entanto, vivemos tentando criar pontos fixos: queremos verdades eternas, planos definitivos, identidades imutáveis. Isso porque o ser humano tem um instinto de segurança, uma necessidade de ancorar-se em algo sólido. Mas a grande ironia é que essa solidez não existe. A segurança real talvez esteja na capacidade de se adaptar, na abertura para o novo, na coragem de aceitar o imprevisível.

Se olharmos para a natureza, percebemos que tudo nela pulsa entre criação e dissolução. As ondas quebram e se refazem, as estações giram sem cessar, até as montanhas, que parecem tão imponentes, estão em constante erosão. Nada está verdadeiramente parado. O problema não é a fluidez da vida, mas sim a nossa resistência a ela.

Atenção ao que Surge

Ser fluido e efêmero não significa falta de direção ou propósito. Pelo contrário, implica um tipo de presença que não se apega ao passado nem se aflige com o futuro. É como uma dança em que cada passo responde ao instante presente, ao que surge, ao que pulsa agora. Em vez de ficarmos presos a uma versão fixa de nós mesmos, podemos ser como a água: moldando-se ao recipiente sem perder sua essência.

N. Sri Ram, um pensador que entendia bem essa natureza mutável da existência, falava da importância da atenção plena. Ele dizia que a consciência desperta não é aquela que busca fixidez, mas sim aquela que percebe o movimento interno e externo sem se perder nele. Quando nos tornamos atentos ao fluxo da vida, começamos a perceber que o efêmero não é sinônimo de insignificante, mas sim de intensidade vivida no agora.

Vivendo a Transitoriedade com Leveza

O medo da impermanência nos leva a criar armaduras: dogmas, certezas rígidas, uma identidade inabalável. Mas e se, ao invés de temermos o fluxo, aprendêssemos a navegar nele? Quem já se jogou no mar sabe que, se você luta contra as ondas, se cansa rápido. Mas se aprende a flutuar, a deslizar junto com a correnteza, tudo se torna mais fácil. Viver a fluidez da vida talvez seja mais uma questão de aceitação do que de controle.

Assim, ser fluido e efêmero não é ser raso ou sem identidade, mas sim estar disponível para o que a vida traz, sem rigidez, sem resistência, com olhos abertos para cada instante. Afinal, se tudo passa, que passe de maneira bela, atenta e verdadeira.


terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Muitas Moradas

Outro dia, enquanto tomava meu café da tarde numa cafeteria na praia de Torres, observava as pessoas passando apressadas pela janela, tive um daqueles momentos em que a mente simplesmente conecta pontos que pareciam desconectados. De repente, me peguei pensando sobre a ideia de "muitas moradas." Não sei exatamente de onde veio esse insight, mas ele surgiu com força.

Talvez fosse a combinação do aroma do café com a quietude do ambiente, ou talvez fosse apenas meu cérebro buscando sentido nas transições da vida. Seja como for, essa ideia começou a tomar forma e, antes que eu percebesse, já estava mergulhando fundo nessa reflexão sobre as diferentes "casas" que habitamos ao longo da nossa existência.

A ideia de "muitas moradas" nos convida a refletir sobre a vastidão das experiências humanas, a pluralidade de perspectivas e a diversidade de caminhos que cada um de nós pode trilhar ao longo da vida. Essa expressão, que ecoa em diferentes contextos religiosos e filosóficos, sugere que o universo é repleto de possibilidades, e que há um lugar — ou uma morada — para cada tipo de ser, para cada estágio de desenvolvimento espiritual ou emocional.

No cotidiano, essa ideia pode ser percebida nas diferentes escolhas que fazemos, nas relações que cultivamos e nos ambientes que frequentamos. Pense no quanto nossas "moradas" se transformam ao longo do tempo: uma criança que brinca despreocupada em um quintal, um adolescente que descobre o mundo por meio de amizades e primeiros amores, um adulto que constrói sua própria casa, tanto no sentido literal quanto figurado. Cada fase da vida é uma morada distinta, com suas próprias regras, desafios e encantos.

Na filosofia espírita, por exemplo, "muitas moradas" se refere à diversidade de mundos habitados, não apenas em termos físicos, mas também espirituais. Cada alma está em um nível de aprendizado e evolução, e as diferentes "moradas" são os espaços onde essas almas encontram as condições necessárias para crescer e aprender. Isso pode ser aplicado também às nossas experiências diárias: as diferentes fases e contextos de nossa vida são moradas onde nossas almas se desenvolvem, adquirindo sabedoria, enfrentando desafios e celebrando conquistas.

Se pensarmos em nossa vida como uma série de moradas, cada uma com suas características próprias, podemos aprender a valorizar as mudanças e transições pelas quais passamos. Assim como uma casa pode ser reformada, ampliada ou mesmo deixada para trás, nossas moradas internas também podem ser transformadas à medida que crescemos e evoluímos.

Talvez uma das lições mais profundas que a ideia de "muitas moradas" nos oferece é a de que nunca estamos limitados a uma única maneira de ser, viver ou pensar. As moradas são muitas, e a cada momento temos a chance de encontrar ou construir a nossa, de acordo com o que somos e o que precisamos aprender.

O filósofo Søren Kierkegaard, ao explorar a questão da existência, nos lembra que "a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente". Cada morada que habitamos, portanto, é uma construção do presente que será compreendida plenamente apenas no futuro, quando olharmos para trás e reconhecermos a multiplicidade de lugares — e estados de ser — por onde passamos.


quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Sinais da Vida

Os sinais da vida são as pequenas pistas e eventos que ocorrem ao nosso redor, indicando o caminho que devemos seguir, os aprendizados que precisamos absorver e as mudanças que precisamos fazer. Eles podem se manifestar de diversas formas: uma coincidência significativa, um conselho inesperado, uma oportunidade que surge de repente, ou até mesmo um desafio que nos obriga a repensar nossas escolhas.

No contexto budista, esses sinais são vistos como parte do fluxo natural da vida, alinhado com os conceitos de karma e interdependência. Thich Nhat Hanh, um renomado monge zen-budista, oferece uma perspectiva valiosa sobre como devemos interpretar e responder a esses sinais. Ele enfatiza a importância da presença plena e da atenção consciente (mindfulness) para perceber e compreender os sinais que a vida nos oferece.

O Olhar de Thich Nhat Hanh sobre os Sinais da Vida

Thich Nhat Hanh ensina que a prática da atenção plena nos ajuda a estar verdadeiramente presentes no momento presente, permitindo-nos ver as coisas como realmente são. Quando estamos atentos e conscientes, somos capazes de notar os sinais que a vida nos dá com mais clareza. Ele sugere que esses sinais podem ser vistos como oportunidades para praticar a compaixão, a paciência e a sabedoria.

Por exemplo, se encontramos uma pessoa que nos trata com hostilidade, isso pode ser um sinal para praticar a compaixão e entender o sofrimento dessa pessoa. Se enfrentamos um obstáculo no trabalho, isso pode ser um sinal para desenvolver a paciência e a resiliência. E se percebemos uma oportunidade inesperada, pode ser um sinal de que é hora de abraçar novas possibilidades e crescer.

A Importância da Presença Plena

Para Thich Nhat Hanh, a presença plena é a chave para reconhecer e interpretar corretamente os sinais da vida. Ele nos encoraja a cultivar a meditação e a atenção plena em nossas atividades diárias, seja ao comer, caminhar, trabalhar ou conversar. Ao fazer isso, nossa mente se torna mais clara e serena, permitindo-nos ver as situações de forma mais objetiva e responder de maneira mais sábia.

A prática da atenção plena nos ajuda a desligar o piloto automático e viver cada momento com maior profundidade e significado. Quando estamos plenamente presentes, somos capazes de reconhecer as oportunidades de crescimento e transformação que surgem em nossa vida cotidiana.

Os sinais da vida podem se manifestar em diversas situações do cotidiano. Aqui estão alguns exemplos:

Encontros Casuais

Você está no supermercado e encontra um antigo amigo que não via há anos. Vocês começam a conversar e descobrem que ambos estão enfrentando desafios semelhantes. Esse encontro pode ser um sinal de que vocês podem se apoiar mutuamente ou que é hora de retomar uma amizade valiosa.

Oportunidades Inesperadas

Você recebe um e-mail sobre uma vaga de emprego que parece perfeita para você, embora não estivesse ativamente procurando por uma nova posição. Essa oportunidade inesperada pode ser um sinal de que é hora de considerar uma mudança na carreira.

Conselhos de Estranhos

Você está em um café e, por acaso, ouve a conversa de duas pessoas na mesa ao lado. Elas discutem um problema que é exatamente o que você está enfrentando e oferecem uma solução que você não havia considerado. Esse conselho inesperado pode ser um sinal de que a solução está ao seu alcance.

Desafios e Obstáculos

Você está trabalhando em um projeto e encontra um obstáculo significativo. Embora frustrante, esse desafio pode ser um sinal de que você precisa desenvolver novas habilidades ou mudar sua abordagem para alcançar o sucesso.

Sonhos e Intuições

Você tem um sonho recorrente ou uma intuição forte sobre uma determinada decisão que precisa tomar. Esses sinais internos podem ser indicações de que seu subconsciente está tentando lhe dizer algo importante.

Mudanças no Corpo e Saúde

Seu corpo começa a mostrar sinais de cansaço extremo ou você desenvolve uma condição de saúde que exige atenção. Esses sinais físicos podem indicar que você precisa cuidar melhor de si mesmo e fazer mudanças em seu estilo de vida.

Feedback e Reconhecimento

Você recebe feedback positivo de colegas ou superiores sobre um trabalho que fez com grande dedicação. Esse reconhecimento pode ser um sinal de que você está no caminho certo e deve continuar a investir nessa área.

Eventos Sincrônicos

Você pensa em um amigo que não vê há muito tempo e, de repente, ele lhe envia uma mensagem ou você o encontra na rua. Esses eventos sincrônicos podem ser sinais de que há uma conexão importante a ser explorada.

Natureza e Ambiente

Você nota um padrão repetitivo na natureza, como uma borboleta que sempre aparece na sua janela ou um pássaro que canta na mesma hora todos os dias. Esses sinais podem ser lembretes para você se conectar com a natureza e encontrar paz nas pequenas coisas.

Mudanças em Relacionamentos

Um relacionamento começa a mudar, seja se fortalecendo ou se desgastando. Esses sinais podem indicar que é hora de aprofundar a conexão ou, talvez, seguir em frente e abrir espaço para novas experiências.

Reconhecer e interpretar esses sinais requer atenção plena e uma mente aberta. Como Thich Nhat Hanh sugere, praticar a presença plena em nossas atividades diárias nos ajuda a perceber esses sinais e a responder a eles de maneira consciente e sábia.

Os sinais da vida estão sempre ao nosso redor, mas muitas vezes estamos distraídos demais para percebê-los. A visão de Thich Nhat Hanh nos lembra da importância de estarmos atentos e presentes, praticando a atenção plena para reconhecer e interpretar esses sinais de maneira sábia. Ao fazer isso, podemos nos alinhar com o fluxo natural da vida, respondendo aos desafios e oportunidades de forma mais consciente e compassiva. Em última análise, essa abordagem nos permite viver de maneira mais plena e autêntica, conectados com nós mesmos e com o mundo ao nosso redor.

Uma sugestão de leitura é o livro de Thich Nhat Hanh, "Paz a Cada Passo". Este livro oferece práticas simples de mindfulness para trazer paz e felicidade ao nosso cotidiano. Thich Nhat Hanh ensina como estar presente em cada momento, seja ao caminhar, comer ou até mesmo lavar a louça, ajudando-nos a encontrar alegria nas pequenas coisas da vida.