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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O Devorador de Pecados

Entre a culpa, o ritual e a estrutura humana

Há algo estranhamente familiar na figura do Devorador de Pecados. À primeira vista, parece apenas um vestígio de superstição medieval — um ritual periférico, quase grotesco, perdido entre práticas religiosas esquecidas. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para perceber que essa figura nunca desapareceu de fato. Ela apenas mudou de forma.

Historicamente, o chamado “sin-eater” surgia em comunidades rurais da Inglaterra e do País de Gales. Era um indivíduo marginal, frequentemente pobre, convocado para um ato final: consumir pão e bebida sobre o corpo de um morto, absorvendo simbolicamente seus pecados. Em troca, recebia algumas moedas e, talvez, o desprezo silencioso da comunidade. Era necessário — mas também impuro. Útil — mas condenado.

Esse paradoxo não é acidental. Ele revela uma estrutura profunda da experiência humana.

Claude Lévi-Strauss, ao analisar mitos e rituais, mostrou que as sociedades organizam o mundo através de oposições simbólicas: puro/impuro, vida/morte, ordem/caos. O Devorador de Pecados ocupa exatamente esse espaço intermediário — ele é o mediador. Não pertence totalmente a nenhum dos lados, mas é essencial para que a transição ocorra. Ao consumir os pecados, ele resolve uma tensão estrutural: a necessidade de purificar o morto sem comprometer a ordem moral dos vivos.

Mas Lévi-Strauss nos ajuda a ver apenas a arquitetura do fenômeno. Para entender sua intensidade, precisamos ir além.

René Girard oferece uma chave ainda mais perturbadora: a lógica do bode expiatório. Para Girard, as sociedades canalizam suas violências internas projetando culpa sobre um indivíduo que pode ser sacrificado — simbolicamente ou literalmente — para restaurar a ordem. O Devorador de Pecados não é exatamente morto, mas é socialmente consumido. Ele vive carregando aquilo que não lhe pertence. Ele é o recipiente da violência moral coletiva.

E aqui surge a pergunta incômoda: o ritual desapareceu, ou apenas se sofisticou?

Na modernidade, já não colocamos pão sobre cadáveres. No entanto, continuamos a transferir culpas. Criamos figuras que absorvem falhas sistêmicas: indivíduos cancelados, grupos marginalizados, profissionais que lidam com sofrimento alheio (psicólogos, médicos, assistentes sociais) frequentemente sobrecarregados por dores que não são suas. O Devorador de Pecados não morreu — ele foi institucionalizado.

Friedrich Nietzsche talvez enxergasse nisso a persistência da moral da culpa. Para ele, a humanidade inventou mecanismos para lidar com o peso da responsabilidade, transformando a culpa em algo transmissível, manipulável. O Devorador de Pecados seria, nesse sentido, uma tecnologia primitiva de alívio moral — um modo de evitar o confronto direto com o próprio erro.

Mas há ainda uma camada mais íntima dessa figura.

Na psicanálise de Sigmund Freud, encontramos a noção de internalização da culpa — o superego como instância que nos pune por transgressões reais ou imaginadas. E se o Devorador de Pecados não fosse apenas uma figura externa? E se cada sujeito carregasse dentro de si um pequeno devorador, absorvendo culpas, próprias e alheias, até o limite do suportável?

Essa hipótese desloca completamente o problema. O ritual deixa de ser social e passa a ser psicológico.

Ainda assim, talvez a leitura mais radical seja a existencial. Jean-Paul Sartre argumentaria que não há fuga possível: somos irremediavelmente responsáveis por nossos atos. Nenhum devorador pode nos salvar dessa condição. Qualquer tentativa de transferir culpa seria, portanto, uma forma de má-fé — uma recusa da liberdade.

E, no entanto, continuamos tentando.

Talvez porque exista algo profundamente humano na recusa de carregar tudo sozinho. O Devorador de Pecados, nesse sentido, não é apenas uma figura de exploração ou violência simbólica — ele também encarna um desejo paradoxal de partilha. Um desejo de que alguém compreenda, absorva, alivie.

O problema é que essa partilha raramente é justa.

O que torna o Devorador de Pecados uma figura tão poderosa não é o ritual em si, mas o que ele revela: a dificuldade humana de lidar com a culpa, a necessidade de mediação simbólica e a tendência persistente de deslocar o peso da existência para o outro.

A pergunta que permanece não é histórica, mas ética: quem são, hoje, os nossos devoradores de pecados — e quanto estamos dispostos a reconhecer neles o reflexo de nós mesmos?

Talvez o gesto mais radical não seja encontrar alguém para devorar nossos pecados, mas finalmente assumir que eles nunca foram transferíveis.

Afinal, quem são hoje os devoradores de pecados?

Se a pergunta for levada a sério, a resposta incomoda — porque eles estão por toda parte, e muitas vezes passam despercebidos justamente por cumprirem bem sua função.

Hoje, os “devoradores de pecados” não vestem o rótulo. Eles aparecem como papéis sociais.

Há, por exemplo, os indivíduos expostos publicamente — figuras canceladas, demonizadas, transformadas em símbolo de tudo que “está errado”. Pouco importa a complexidade do caso: eles concentram a culpa difusa de uma coletividade. Nesse sentido, operam exatamente como descreve René Girard: não são apenas culpados, são necessários para que os outros se sintam inocentes.

Mas há também uma versão mais silenciosa — talvez mais trágica.

Profissionais do cuidado: psicólogos, médicos, assistentes sociais. Pessoas que escutam, absorvem, metabolizam o sofrimento alheio diariamente. Diferente do devorador antigo, não há ritual explícito — mas há uma transferência constante. Eles carregam histórias que não são suas. E frequentemente pagam com exaustão emocional.

Em outra camada, existem os grupos historicamente marginalizados. Sociedades inteiras projetam neles suas tensões: crises econômicas, insegurança, medo cultural. Eles se tornam “explicação viva” para problemas estruturais. Aqui, o devorador de pecados deixa de ser indivíduo e vira categoria social.

E há ainda um tipo mais íntimo — quase invisível.

Pessoas que, dentro de relações pessoais, assumem o papel de “absorver tudo”: o filho que carrega os conflitos da família, o parceiro que sempre cede, o amigo que escuta sem nunca ser escutado. Pequenos devoradores cotidianos, funcionando como válvulas de escape emocional.

Mas talvez a resposta mais desconfortável seja outra:

os devoradores de pecados não são apenas “os outros”.

Como sugeriria Sigmund Freud, parte desse mecanismo acontece dentro de nós. Internalizamos culpas, assumimos responsabilidades difusas, nos punimos por coisas que nem controlamos. Em certa medida, cada sujeito moderno carrega seu próprio ritual — sem pão, sem testemunhas, mas com o mesmo efeito: tentar dar forma suportável ao peso da existência.

E é aqui que a crítica de Jean-Paul Sartre corta fundo: enquanto houver alguém — ou algo — para culpar, evitar ou absorver esse peso, continuaremos adiando o confronto com a própria liberdade e responsabilidade.

Então, quem são hoje os devoradores de pecados?

São os expostos, os silenciosos, os sobrecarregados… e, às vezes, nós mesmos.

A diferença é que agora o ritual não acontece à beira de um cadáver — ele acontece todos os dias, nas estruturas sociais e nas pequenas relações, onde a culpa continua circulando, procurando sempre um corpo disposto (ou forçado) a carregá-la.