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sábado, 23 de agosto de 2025

Medos e Coragens

Às vezes, parece que a vida é uma dança improvisada entre dois parceiros: o medo e a coragem. Um dá o passo atrás, o outro insiste em avançar. O curioso é que eles não são inimigos declarados — muitas vezes, se completam. Quem nunca sentiu aquele frio na barriga antes de tomar uma decisão importante? O medo avisa: “cuidado”. A coragem responde: “vai mesmo assim”. No cotidiano, isso aparece em situações pequenas: falar em público, iniciar uma conversa difícil, mudar de emprego. E, em cada caso, existe um tipo diferente de medo e, por consequência, um tipo diferente de coragem.

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, em O Conceito de Angústia, fala da “vertigem da liberdade”: o medo não é só receio do que pode dar errado, mas também do que pode dar certo. A coragem, nesse sentido, não é ausência de medo, mas a escolha de agir apesar dele.

Aristóteles, na Ética a Nicômaco, coloca a coragem como uma virtude que está no meio-termo: nem covardia (domínio do medo) nem temeridade (ausência de prudência). É o equilíbrio que torna possível enfrentar batalhas, externas ou internas, com dignidade.

Por outro lado, Paul Tillich, filósofo e teólogo, lembra em A Coragem de Ser que a coragem fundamental é afirmar-se diante da ameaça do não-ser — o medo mais profundo que temos, o da finitude. Esse tipo de coragem é existencial: não é só atravessar a rua escura ou se expor no trabalho, mas enfrentar o vazio e continuar vivendo.

Se olharmos para a vida prática, percebemos que há coragens sociais (como levantar a voz contra injustiças), coragens íntimas (como admitir um erro para quem amamos) e coragens silenciosas (como levantar-se da cama em dias difíceis). Do mesmo modo, há medos de perda (financeira, afetiva), medos de julgamento (o olhar do outro que pesa), medos do desconhecido (novos caminhos) e até medos de nós mesmos (do que somos capazes de fazer ou sentir).

Talvez o mais inovador seja perceber que coragem e medo não são forças contrárias, mas sim irmãos gêmeos: só há coragem porque existe medo. Se não tivéssemos medo, nossas ações seriam automáticas, não corajosas. O medo, em vez de inimigo, é o palco onde a coragem se apresenta.

Como diria o pensador brasileiro Rubem Alves, “o medo é o preço que pagamos pela liberdade de escolher”. E é justamente nesse preço que a coragem floresce.