Há
medos que nascem para proteger a vida — o medo de uma queda, de um animal
selvagem, de uma notícia médica incerta. São medos que têm um sentido
biológico, quase nobre, porque servem à sobrevivência. Mas há outro tipo de
medo, mais discreto, mais íntimo e, de certo modo, mais perigoso: aquele que
não protege o corpo, e sim o ego. É o medo egoísta — o medo de perder o
papel que acreditamos ter no mundo, a imagem que criamos de nós mesmos, ou o
controle sobre o que amamos.
Esse
medo aparece em gestos cotidianos: quando deixamos de expressar uma ideia para
não parecer tolos, quando não elogiamos o outro para não sentir inveja, ou
quando tememos mudar de vida porque alguém pode nos julgar. Mas ele se revela
com mais força nas relações afetivas — quando o medo de perder alguém disfarça
o próprio egoísmo. Queremos a pessoa por perto não porque desejamos o bem dela,
mas porque precisamos dela à vista, sob nosso alcance emocional, como se
a distância apagasse o amor. É o medo que transforma o afeto em vigilância e o
cuidado em posse.
Amar,
nesses casos, é querer ter, não querer ver. E esse querer ter é uma forma
disfarçada de fraqueza: é o pavor de ficar só, de não ser lembrado, de não ter
importância. O medo egoísta é o guardião da aparência — o medo de não sermos o
centro do outro.
O
filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, em O Conceito de Angústia,
disse que a angústia é a vertigem da liberdade — aquele mal-estar que sentimos
diante do infinito das possibilidades. O medo egoísta é, justamente, a recusa
dessa vertigem. Ele quer segurança em tudo: nas escolhas, nas relações, no
amor. É a tentativa de domesticar o imprevisível. Só que o amor, como a
existência, não cabe em grades.
Quando
o ego tem medo, ele constrói fortalezas — mas esquece que toda fortaleza é
também uma prisão. O medo de perder o outro faz com que percamos o essencial: o
respeito pela liberdade do outro de ser, de ir, de crescer. E esse medo, que
parece amor, é na verdade apego ao espelho: queremos o outro como reflexo, não
como horizonte.
O
educador e pensador brasileiro Rubem Alves escreveu que “amar é ter um
pássaro pousado no ombro. Se ele quiser ficar, fica. Se quiser ir, vai. Amor
que prende é amor que mata”. Essa imagem sintetiza o antídoto contra o medo
egoísta: o amor que liberta, que permite o voo, mesmo que a ausência doa.
Superar
o medo egoísta não significa eliminar o medo, mas transformá-lo: trocar o medo
de perder pelo medo de não viver com verdade; trocar o medo da distância pelo
desejo de que o outro floresça; trocar o controle pela confiança. Porque, no
fim, quem vence o medo egoísta não perde ninguém — apenas deixa de aprisionar o
que ama. E descobre, enfim, que o amor só existe quando o outro é livre o
bastante para ficar.
