Às vezes, parece que a vida é uma dança improvisada entre dois parceiros: o medo e a coragem. Um dá o passo atrás, o outro insiste em avançar. O curioso é que eles não são inimigos declarados — muitas vezes, se completam. Quem nunca sentiu aquele frio na barriga antes de tomar uma decisão importante? O medo avisa: “cuidado”. A coragem responde: “vai mesmo assim”. No cotidiano, isso aparece em situações pequenas: falar em público, iniciar uma conversa difícil, mudar de emprego. E, em cada caso, existe um tipo diferente de medo e, por consequência, um tipo diferente de coragem.
O
filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, em O Conceito de Angústia,
fala da “vertigem da liberdade”: o medo não é só receio do que pode dar errado,
mas também do que pode dar certo. A coragem, nesse sentido, não é ausência de
medo, mas a escolha de agir apesar dele.
Já
Aristóteles, na Ética a Nicômaco, coloca a coragem como uma
virtude que está no meio-termo: nem covardia (domínio do medo) nem temeridade
(ausência de prudência). É o equilíbrio que torna possível enfrentar batalhas,
externas ou internas, com dignidade.
Por
outro lado, Paul Tillich, filósofo e teólogo, lembra em A Coragem de
Ser que a coragem fundamental é afirmar-se diante da ameaça do não-ser — o
medo mais profundo que temos, o da finitude. Esse tipo de coragem é
existencial: não é só atravessar a rua escura ou se expor no trabalho, mas
enfrentar o vazio e continuar vivendo.
Se
olharmos para a vida prática, percebemos que há coragens sociais (como
levantar a voz contra injustiças), coragens íntimas (como admitir um
erro para quem amamos) e coragens silenciosas (como levantar-se da cama
em dias difíceis). Do mesmo modo, há medos de perda (financeira,
afetiva), medos de julgamento (o olhar do outro que pesa), medos do
desconhecido (novos caminhos) e até medos de nós mesmos (do que
somos capazes de fazer ou sentir).
Talvez
o mais inovador seja perceber que coragem e medo não são forças contrárias, mas
sim irmãos gêmeos: só há coragem porque existe medo. Se não tivéssemos medo,
nossas ações seriam automáticas, não corajosas. O medo, em vez de inimigo, é o
palco onde a coragem se apresenta.
Como
diria o pensador brasileiro Rubem Alves, “o medo é o preço que pagamos
pela liberdade de escolher”. E é justamente nesse preço que a coragem floresce.

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